Desaparecimentos em massa são extremamente bizarros, afinal, é surpreendente saber que grandes números de pessoas podem sumir repentinamente sem deixar vestígios e aparentemente por nenhuma razão. Às vezes, um avião cheio de passageiros desaparece para nunca mais ser visto, ou um navio fantasma aparece flutuando na água sem absolutamente nenhum sinal de sua tripulação. No entanto, embora casos assim sejam assustadores, eles nem chegam perto dos casos de desaparecimentos de civilizações inteiras.
Ao longo da história, cidades, impérios e civilizações relativamente grandes já desapareceram misteriosamente, fazendo com que os arqueólogos e pesquisadores de hoje em dia tentem refazer os passos de seus habitantes e reconstruam o que pode ter acontecido para ver se podemos encontrar uma causa e, mais importante, uma maneira de impedir que isso aconteça nas culturas atuais.
Pensando nisso, listamos aqui algumas civilizações que desapareceram misteriosamente sem deixar quaisquer vestígios, dando origem a várias especulações sobre o que realmente pode ter acontecido. Confira!
O povo minoico constituiu uma antiga civilização que existiu entre 3000 e 1000 aC, muito antes da Idade de Ouro de Atenas e de Alexandre, o Grande. Acredita-se que a Civilização Minoica tinha uma cultura muito pagã, praticando sacrifícios de animais, queimando oferendas, tendo muitos cultos diferenciados e promovendo festivais selvagens de canto e dança. Mas o que realmente chama a atenção é o seu misterioso desaparecimento.
A teoria mais conhecida a respeito dessa sociedade sugere que os minoicos podem ter sido dizimados por uma erupção vulcânica nas ilhas de Santorini, perto de Creta. Heródoto, o famoso historiador grego, forneceu uma outra tese ao escrever que os minoicos foram dizimados por pragas e doenças. No entanto, não existe até hoje uma explicação totalmente fundamentada em comprovações.
Provavelmente a mais famosa das civilizações desaparecidas, o povo Rapa Nui foram os habitantes originais da Ilha de Páscoa, sendo os criadores das famosas estátuas de pedra. Ninguém sabe exatamente como o povo Rapa Nui original chegou lá e o mistério aumenta ainda com o seu misterioso desaparecimento.
A fome devido ao consumo excessivo de recursos naturais tem sido apontada como a principal culpada. Até mesmo a destruição do ecossistema da Ilha de Páscoa por ratos também já foi apontada como responsável pelo fim da sociedade.
Alguns pesquisadores também sugerem que os Rapa Nui podem ter viajado para uma outra ilha remota a milhares de quilômetros de distância com o objetivo de iniciar um novo assentamento. No fim das contas, a verdade pode muito bem ser uma combinação das várias explicações propostas.
A cultura Anasazi, do sudoeste da América do Norte, deixou para trás muitas estruturas e artefatos a serem encontrados após o seu misterioso desaparecimento. Talvez tenha sido o clima brutal da região que tornou as condições locais inabitáveis, mas o sumiço dessa civilização ainda é um grande mistério.
Estruturas maciças construídas nos penhascos foram deixadas totalmente abandonadas e chegaram a ser encontradas em condições relativamente primitivas. Acredita-se que essas estruturas habitacionais eram perfeitas para afastar intrusos, já que caso uma guerra fosse declarada, os Anasazi poderiam subir em suas construções, levantar as escadas e ficar vários andares acima das tribos invasoras.
Curiosamente, algumas tribos nativas americanas, assim como alguns estudiosos, afirmam que os Anasazi nunca desapareceram necessariamente. Eles sugerem que essa sociedade pode ter se dividido em facções menores que deram origem a novos grupos de pessoas, muito parecido com o que aconteceu com a Roma antiga. Desse modo, eles acreditam que certas tribos que sobrevivem nos dias atuais são descendentes diretos do povo Anasazi.
Se formos analisar a linha do tempo da história, o desaparecimento do Império Khmer é um dos mais recentes a ocorrer. O império existiu entre 802 a 1431 no sudeste da Ásia, abrangendo a área que hoje corresponde a países como Tailândia, Camboja, Laos e Vietnã. O Império Khmer tinha uma cultura mista de budistas e hindus que se estabeleceram após séculos de guerra.
O Império Khmer construiu alguns dos mais surpreendentes templos e monumentos no Sudeste Asiático que estão de pé até hoje, muitos dos quais estão em condições quase perfeitas. Mas, assim como as outras civilizações desta lista, o Império Khmer também desapareceu misteriosamente. Alguns estudiosos sugerem que a migração do povo tailandês pode ter superado lentamente o povo Khmer, da mesma forma que as tribos germânicas se infiltraram lentamente na metade ocidental do Império Romano.
Outros culpam as constantes guerras com as quais os Khmer viviam diariamente. Alguns historiadores vão ainda mais além e apontam que possíveis mudanças nas condições climáticas podem ter alterado o acesso da sociedade à água da chuva, causando uma migração em massa. Ou seja, teses até existem, mas ninguém ainda sabe ao certo a razão por trás do sumiço do Império Khmer.
Os olmecas constituíram a primeira grande civilização mesoamericana e tinham uma cultura muito rica, embora um tanto bizarra e incomum. Sua proeminência durou de 1200 a 400 aC, com uma sociedade baseada em práticas religiosas sagradas para as quais eles construíram templos semelhantes a pirâmides. Muito parecido com o povo polinésio da ilha de Páscoa, eles também esculpiam cabeças de pedra maciças, algumas com até 3 metros de altura e pesando 8 toneladas!
Boa parte dessa cultura que viveu há muito tempo foi perdida com o tempo, de modo que nem sequer sabemos muito sobre a sua língua, embora acredita-se que “olmeca” é um termo que se traduz em algo como “pessoas de borracha”. Ainda mais interessante é o fato de que não existe um único traço que ajude a fornecer ideias sobre quem viveu ali, nem mesmo restos de ossos. As únicas coisas que puderam ser recuperadas foram alguns artefatos.
Acredita-se que os olmecas sumiram do cenário mundial por volta de 400 aC. Alguns sugerem que o clima insanamente úmido da Mesoamérica tenha sido a causa principal de tal sumiço. Mas, quanto às pessoas, à língua e à cultura, ainda não sabemos quase nada, o que é uma pena, pois a compreensão das características dessa sociedade poderia fornecer muitas informações importantes sobre a história da civilização humana como um todo.
Nomes como Enya, Björk e muitos outros vão aparecer na lista.
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| Stevie Nicks |
Vulgarmente conhecida como Rainha Reinante do Rock N’ Roll (que fique claro que Tina Turner também é conhecida como rainha do Rock), a icônica Stevie Nicks, vocalista da banda Fleetwood Mac, é não só uma das maiores cantoras de todos os tempos, como também uma das figuras mais perseguidas da década de 80. Quem conhece a música ‘Rhiannon’ ou já viu a cantora performá-la nos palcos, daquele jeitinho característico que os colegas de banda comparariam a um exorcismo, é capaz de especular a motivação dos haters: durante muito tempo Stevie Nicks foi associada à feitiçaria, povoando o imaginário popular como uma suposta bruxinha branca – versão da roqueira, hoje uma senhora de quase 70 anos, que acabou ganhando ainda mais força com a terceira temporada de ‘American Horror Story’, produzida como uma verdadeira ode ao misticismo que sempre existiu em volta dela – e, não por acaso, de várias outras artistas.
Embora tudo sobre Stevie Nicks nos faça lembrar do clássico ‘Jovens Bruxas’, que causou uma verdadeira ruptura no cinema dos anos 90, os boatos nunca foram realmente confirmados. A roqueira, que sempre pareceu gravitar em torno da personagem Rhiannon, negou as acusações sobre suas práticas religiosas uma série de vezes e, na década de 80, inclusive, chegou a se assustar com as perseguições que sofria, dando um tempo das roupas pretas por um breve período, a fim de não incentivar o imaginário popular. Ao longo dos anos, no entanto, a roqueira se permitiu causar algumas reações completamente opostas, como naquela vez, em 1987, quando disse à MTV que “sempre quis ser uma bruxa” em referência ao Halloween ou quando, em um papo de comadres com Lana Del Rey, as definiu como “irmãs bruxas” – um conceito que hoje consegue transcender a ideia de religião pagã para contextualizar também um poderoso e importante gênero musical que, pasmem, está cada vez mais popular.
Se Stevie Nicks se mostrou uma admiradora não praticante de bruxaria, Del Rey por outro lado, já teve lá a sua fase Harry Potter, recorrendo ao poder da magia para derrubar um grande e poderoso vilão. A cantora novaiorquina, que recentemente lançou o excelente ‘Lust For Life’, revelou ter participado de um ritual coletivo para derrubar Donald Trump, o atual presidente dos Estados Unidos, e se engana quem pensa que essa foi a única demonstração de suas práticas pouco convencionais.
Lana Del Rey já demonstrou interesse em grimórios famosos, mostrou que tem um pé na alquimia e metafísica quando colocou uma expressão associada a seitas famosas em sua descrição no Instagram e, não por acaso, costuma falar abertamente sobre suas crenças pessoais em entrevistas, sem medo, aliás, de usar aquela polêmica palavra com a letra w (witch). Mais característico do que a assustadora honestidade de Del Rey, só mesmo o seu último trabalho: ‘Lust For Life’ é um disco sombrio, no melhor estilo gótica suave, que traz, ironicamente, uma participação especial com ninguém mais e ninguém menos que Stevie Nicks, sua igualmente adorável e misteriosa irmãzinha bruxa, por quem Del Rey se derrete em admiração. Lana também já demonstrou aspectos Wicca em muitas vezes em seu visual artístico, como nos álbuns Honeymoon e Ultraviolence. E agora ela está ainda mais ligada à natureza, desde que buscou uma médium que disse à ela que isso a faria se sentir melhor consigo mesma. Todos sabem que para as Wicca a natureza é a representação direta da vida.
Se na mecânica da coisa as duas cantoras parecem divergir, em tudo o mais elas se assemelham, se tornando referências de um estilo e de um conceito que bombou com o lançamento de ‘Jovens Bruxas’ e hoje está de volta, com força total. A neozelandesa Lorde, por exemplo, trouxe com ‘Royals’ todo o combo hollywoodiano daquilo que entendemos como feiticeira: amuletos, peças de veludo, vestidos pretos e uma maquiagem pesada que chegou a ganhar coleção própria nas prateleiras da MAC. Se Lorde tem a imagem, Florence Welch tem a alma que caracteriza o gênero: a ruiva pré-Rafaelita, que se move pelos palcos como uma fada, bradando cortejos à morte, trouxe à música moderna mais daquele velho tom celestial e infernal, da reverência ao pagão e dos conceitos esotéricos e ritualísticos que pautam várias de suas composições.
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| Florence Welch |
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| Florence em um photoshoot |
A surpresa, aqui, não é necessariamente o discurso embutido nas músicas ou o estilo com que as performers se apresentam, mas a maneira como essas musas da música moderna vem os deixando cada vez mais populares. Enquanto Stevie Nicks foi perseguida por uma prática que sempre negou, as meninas modernas confessam abertamente suas influências e continuam, plenas, emplacando hits e mobilizando fãs mundo adentro.
Florence, aliás, era obcecada por bruxaria na infância. Em uma conversa com a revista Nylon, a inglesa revelou sem medo que, embora a sua concepção da morte seja muito diferente daquela que apresenta na letra das canções, já teve um pé na wicca quando criança: Florence compartilhou com as amigas um caderninho de magia e, de acordo com a própria, sonhava em ser uma bruxa de verdade quando crescesse. Juntamente com astrologia, cabala e filosofia, a wicca faz parte da linha de interesses de várias artistas renomadas, que levam essas ideias para os estúdios e palcos – e, muitas vezes, você, ouvinte, sequer desconfia.
Enya também é um grande nome que se pode apostar todas fichas. Afinal, a cantora de New Age (o que já se trata de um estilo inspirado na musica e cultura celta, algo muito presente na cultura Wicca.) sempre está trazendo a mitologia e o amor a natureza em suas musicas. Basta ouvir Enya e assistir seus clipes para dizer sem dificuldade toda sua forma de retratar o estilo wiccano em suas maravilhosas musicas.
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| Enya |
Loreena McKennit também é outra cantora que se assemelha muito à estética wicca. a canção Wiccan Dance demonstra o grande fascínio da cantora para essa cultura maravilhosa. Nasceu no município de Morden, no Canadá. A aquariana do dia 17 de fevereiro traz consigo uma ascendência irlandesa e escocesa. Além de ser cantora de um maravilhoso timbre de soprano, é uma compositora, pianista e harpista deslumbrante. Seu estilo é new age, celta eclético, com tendências do Oriente Médio.
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| Azaelia Banks |
Nostalghia é outra bruxa assumida! E não é difícil de notar isso, nas suas musicas, aparência ou modo de agir. Não há muito o que se especular dela, pois todo seu amor pela bruxaria é exposta em sua arte.
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| Nostalghia |
A cantora Grimes, por exemplo, ficou conhecida não só pelo sincericídio nas redes sociais e pela angústia nas melodias, como também por uma suposta associação com a Witch House, um gênero de música eletrônica que envolve xamanismo, feitiçaria, obras de terror e demais “coisas ocultas”. A artista canadense não se define como parte de nenhuma religião ou grupo, mas não nega, por exemplo, ter usado a fome e a privação de sono durante nove dias para desenvolver o seu terceiro álbum de estúdio – esse, aliás, foi um famoso método de tortura contra as mulheres que foram perseguidas e acusadas de bruxaria ao longo da história.
Aurora outra cantora que também está conquistando seu espaço pela sua maneira de ser e principalmente por abraçar o estilo folk celta (sua versão para Scarbough Fair está na abertura de Deus, Salve o Rei, faixa das 19:30 da Globo). Aurora é Noroeguesa
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| Grimes |
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| Aurora |
Se a música pop fundasse um coven, cantoras como Björk e Kate Bush também seriam bem vindas. A primeira, saiu da Islândia nos anos 70 para levar suas ideias elevadas sobre astrologia e ocultismo para o restante do mundo, chegando a ser eleita a personalidade mais excêntrica do planeta em 2006. Björk e a ideia de bruxaria, aliás, andam de mãos dadas há bastante tempo: a primeira banda da cantora se chamava Kulk (uma palavra islandesa que significa feitiçaria) e seu primeiro trabalho de atriz foi como a bruxa Margrit no filme ‘Juniper Tree’, um conto dos irmãos Grimm. Na China ela já foi acusada de bruxaria pela imprensa, ao se posicionar politicamente em um show, e em entrevistas ao longo da carreira a própria cantora comentou seu interesse pela astrologia e pelo ocultismo islandês.
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| Bjork |
Kate Bush, a mulher das incontáveis ausências, também não é lembrada por acaso: músicas como a famosa ‘Waking The Witch’ fizeram com que a cantora fosse, simplesmente, reivindicada pelos grupos ocultos como parte deles. Kate não confirma e nem nega tais acusações, seguindo reservada no que diz respeito à sua vida pessoal. Ainda assim, fica a pergunta: será que uma pessoa pode escrever letras complexas em cima do sistema Golden Dawn e cultuar ídolos pagãos sem ter absolutamente nada a ver com o assunto?
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| Kate Bush |
Religião à parte, a bruxaria enquanto influência temática e estética tem uma importância vital na música feminina que nós conhecemos e consumimos hoje, seja por estilo ou por necessidade de romper padrões historicamente machistas. Afinal, como apontou a personagem de Lisa em um episódio de ‘Os Simpsons’, quando mulheres são confiantes e poderosas, elas são automaticamente tachadas como bruxas, o que nem sempre é verdade. Na América do Norte, em seus tempos de colônia, boa parte das mulheres acusadas de feitiçaria, por exemplo, eram perseguidas por desafiar papéis e ideais de gênero prescritos, um discurso de empoderamento que foi abraçado pelas cantoras femininas de uns anos pra cá. Musicalmente falando, as “bruxas” são de vital importância, numa linha que vai de Yoko Ono, em 1974, se declarando como bruxa durante a breve separação de John Lennon; e passa por Courtney Love em 1993, num trabalho que fazia referência direta à ilustre Stevie Nicks e suas músicas muito loucas na Fleetwood Mac. O conceito midiático de bruxaria, aliás, é tão dúbio que Courtney nem precisou de livros de magia ou um caldeirão para alimentar as especulações que surgiram a seu respeito: bastou “enfeitiçar” Kurt Cobain.
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| Kerli |
A ideia de que as bruxas de hoje conseguiram transcender a ideia de religião pagã para contextualizar um gênero musical próprio, ganha força, principalmente, quando todas essas artistas polêmicas se conectam de algum jeito. O mais recente trabalho de Courtney Love, a eterna vocalista da banda Hole, por exemplo, é inspirado por Lorde e Lana Del Rey – desta última, aliás, a roqueira é especialmente amiga, vejam só. Este ano Lana foi entrevistada por Courtney para uma revista americana e a apontou como uma de suas compositoras favoritas, a destacando como o ápice daquilo que considera “cool”. Lana também é uma inspiração e tanto para Lorde, que é bastante comparada com a nossa querida Florence Welch. A admiração da neozelandesa pela colega de trabalho é tanta que a música ‘Green Light’ nasceu depois que Lorde assistiu a um show da Florence + The Machine com seu produtor. Admiração também é coisa comum para a cantora Stevie Nicks: além de gostar do som de Lana Del Rey e ser um exemplo para Courtney, é sabido que a a Rainha do Rock ama Kate Bush, com quem chegou a fazer um dueto inesquecível para a música ‘Secret Love’. O pop místico de Bush, inclusive, serviu como base para o trabalho que Florence e Grimes fizeram depois, sem falar de outras artistas, como a australiana Fiona Horne.
O City Pop representa uma feliz e madura mistura de Smooth Jazz, Synthwave e AOR, muitas vezes com elementos adicionais de Jazz Fusion, Jazz-Funk ou Boogie. Comumente citado como uma faceta da próspera “bolha econômica” japonesa, o City Pop representa, essencialmente, um gênero de estilo de vida, que fez apelo a um público japonês mais velho e financeiramente ascendente nas décadas de 1970 e 80. Tematicamente, o City Pop reflete uma vida de luxo em um ambiente sofisticado e urbano. E tem voltado com tudo agora com o movimento Vaporwave.
O City Pop é um gênero de música japonesa que foi muito popular nas décadas 1970 e 80, apresentando uma imagem cosmopolita direcionada àqueles que se beneficiavam do chamado "milagre econômico" do pós-guerra, um "boom" econômico ocorrido no Japão entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Época esta que facilitou o acesso a bens de consumo e tecnologias, influenciando não somente a economia como também a moda, comportamento e música.
O City Pop soa como uma mistura de AOR (que pode ser traduzido como “álbum orientado para o rock”), com elementos de Boogie e Disco. Alguns álbuns de City Pop apresentam uma mistura de diversos gêneros musicais, como Jazz, Blues, Synthwave e Pop. No geral, as músicas possuem uma considerável gama de instrumentos e sintetizadores, misturando saxofone com guitarras aliadas a batidas eletrônicas. A estética do City Pop também impressiona, com temas tropicais e retrofuturistas, este último fortemente influenciado pelas trilhas sonoras de filmes "cult" de ficção científica como "Blade Runner", "The Exterminator" e "Back to the Future".
É um gênero estabelecido dentro do contexto musical japonês. Os registros de City Pop foram compilados em muitos guias de livros publicados para colecionadores. Fora do Japão, o estilo pode ser visto como a “música japonesa dos anos 1980”, porém atualmente, com a propagação e modernização da música japonesa, o City Pop começou a ser (re)descoberto e até reeditado pelo grande público.
Selecionamos os cinco melhores álbuns, ao nosso ver, para que você possa ouvir e obter uma melhor compreensão do City Pop e de como este gênero musical tem íntima relação com o contexto social da época, porém aos amantes da boa música soa como algo agradável, requintado e contemporâneo. Atemporal.
O que é Vaporwave? E porque sua estética dominou tanto assim a internet?
VAPORWAVE ***
A pop art criada por Andy Warhol e Roy Lichtenstein foi um dos últimos grandes movimentos artísticos, lá nos anos 1960. Embora não tenham o mesmo tamanho e importância, outros estilos surgiram na internet recentemente e dominaram algumas culturas underground, também chegando ao mainstream. Você já deve ter visto imagens na internet que misturam esculturas neoclássicas em mármore com computadores dos anos 90 em uma paleta que sai de tons do azul pra rosa que podem ainda conter coqueiros e golfinhos, por exemplo. Se sim, trata-se da estética vaporwave.
No início da década de 2010, algumas comunidades virtuais criaram o termo, que surgiu primeiro como um gênero musical e, depois, evoluiu para um movimento artístico. O que essas comunidades tinham em comum era a obsessão nostálgica pela cultura retrô dos anos 1980 e 1990, video games, tecnologia, cultura e publicidade nipônica pós-moderna. Musicalmente falando, eles sabiam de tudo sobre lounge, jazz suave e música de elevador. Com a facilidade de produzir músicas no computador, essas pessoas passaram a desenvolver seus próprios trabalhos utilizando samples com a tonalidade sonora modificada e várias camadas de distorção. Já o motim era a crítica ao consumo, cultura popular e alegorias do new age.
“A nostalgia é uma ferramenta de venda extremamente poderosa. Marcas estão aproveitando o conforto e a autenticidade do passado para reinventar ou reutilizar produtos com um ar retro”, explica Lívia Nottoli, expert do portal de pesquisa de tendência WGSN.
Para ela, a razão por trás do crescimento do movimento digital está exatamente na nostalgia. Uma vez que estamos ficando inseridos irremediavelmente no mundo virtual, é normal buscarmos elementos do passado como uma maneira de equilibrar os dois universos. “Designers visitam novamente designs icônicos, aplicando tratamentos modernos a clássicos retrô. O espírito anárquico da New Wave dos anos 1980 inspira designers a injetar produtos com energia e individualismo, enfocando cores em octano forte, grafismos vibrantes e personalização criativa”, completa.
O Movimento artístico intitulado Vaporwave não compreende apenas usuários do Tumblr fazendo montagens maravilhosas, vai além disso. É um movimento social, estético e audio-visual. O movimento Vaporwave possuiu toda uma estética própria criada pela sensação de nostalgia e consumo que os anos 80's trazem. A musica
Se imagine depois de um dia cansativo de trabalho sentado em frente à janela enquanto a chuva cai lá fora, em um japão cyberpunk, mas oitentista ao mesmo tempo. Pronto, você imaginou a musica Vaporwave. A maneira de fazer musica desse movimento é baseada no slow motion, soft-jazz, city pop, future funk com uma mistura de J-funk oitentista e synthwave com várias e várias samples de musicas que lembram ou são originalmente dos anos oitenta, mas tudo isso soando de um jeito bem natural e original, sem parecer uma mistura bagunçada.
O que se sente ao ouvir Vaporwave? A sensação comum é a de um prazer nostálgico, uma ânsia por tempos mais simples em que a tecnologia nos dava prazer antes de nos ter transformado em escravos, imiscuindo-se em cada aspecto das nossas vidas. Mas também há um outro tipo de prazer, uma anestesia, um torpor, o efeito sedativo que alguém sente ao adormecer em frente a uma grelha de programação de madrugada, com aquela música ambiente de fundo. E como esse prazer tem raiz em algo abstrato, vazio, inexplicável, desprovido de significado e emoção, há qualquer coisa de etéreo e alienante nesta música, que nos convida para o seu mundo irreal e narcótico fazendo-nos sentir irremediavelmente perdidos. A intenção é, aliás, que haja aqui qualquer coisa de não humano, de artificial, como se fosse um som criado por máquinas, para pessoas.
As comparações com a pornografia não são injustificadas, dada a natureza repetitiva da música, a importância dada à textura em detrimento da percussão, que faz jus à melhor música ambiente, as vozes suaves e arrastadas, o puro, simples e autêntico prazer. Numa era em que a palavra porn é usada como apodo para caracterizar tendências artísticas (“torture porn”, “food porn”, “synth porn”), talvez o vaporwave possa ser descrito como “nostalgia porn”.
Todas as analogias apontam para os efeitos de uma droga, o que talvez explique este bizarro vídeo de Oneohtrix Point Never (alias de Daniel Lopatin, músico nova-iorquino de renome), feito para servir de acompanhamento visual a uma das suas Eccojams, uma das primeiras obras que deram origem ao género no início da década de 2010.
Desde então, a sonoridade rapidamente se disseminou, partindo de fóruns e redes sociais como o Tumblr e o Reddit, até se infiltrar na comunidade de produtores de laptop, uma geração educada no seio do cinismo da arte e da alienação causada pela tecnologia, para depois se cristalizar e tornar um dos mais importantes géneros de música electrónica contemporânea, fenómeno que atesta não só a vitória dos que sempre defenderam a liberdade do sampling e dos plunderphonics bem como os que acusam este início de século de ser artisticamente vazio.
A designação deste género é coerente com a sua natureza intangível: deriva de vaporware, um tipo de software que é anunciado ao público mas que não chega a ser programado, isto é, que nunca chega a existir.
O primeiro género musical nascido inteiramente online e completamente globalizado assume-se como sátira e forma de reciclagem, aproveitando para si os restos da cultura de consumo dos anos 80 e 90, vazia de significado e sentimento, cuja única produção cultural destinava-se a anestesiar ainda mais os consumidores que tentava desesperadamente atrair. É irónico que tenha uma origem e uma existência tão vápidas como a cultura que tenta criticar, mas, afinal, talvez seja esse o objectivo.
Criado por e para um público que usa a tecnologia num sentido quase Cronenbergiano (lembremos sobretudo Existenz, Videodrome ou até mesmo Crash), em que ela deixa de existir como entidade física e separada de quem a usa e adquire uma conotação virtual e imaterial, a própria palavra vapor denuncia essa natureza de uma música que nunca existiu verdadeiramente e que se dissipa facilmente depois de ouvida. Tal como o mundo tecnológico que habita e que usa como meio de propagação, o vaporwave não é real, mas mimético, feito para parecer real.
Seguindo a tradição da melhor música ambiente e electrónica, o objectivo de quem faz esta música, afinal (se é que há objectivo), é o de transportar o ouvinte para um mundo onde ele nunca tenha estado, onírico e surreal, mas simultaneamente familiar e nostálgico, pleno de referências conhecidas, para o manter emocionalmente envolvido. É talvez esta dicotomia que surge do confronto entre o passado e o futuro, entre a memória e o sonho, que provoca tanto prazer. Um prazer vicário, mas não menos intenso. E um prazer universal, transmitido por uma linguagem universal, a música. O prazer de a ouvir é ser imerso num mundo inteiramente artificial de beleza imensa.
Vozes femininas sussurradas. Simples melodias de piano. Ambient drones. Suave percussão sintetizada. Todos flutuam e existem num mundo próprio, sonhado por máquinas, vivido por humanos. Todos são familiares ao ouvido, pelo menos para quem nasceu no mundo globalizado e pós-moderno de capitalismo de consumo da segunda metade do século XX.
Embora o próprio Daniel Lopatin, conhecido como um dos principais progenitores do género, tenha admitido que fez as Eccojams por brincadeira, é impossível ignorar o seu interesse nas suas possibilidades estéticas. Afinal de contas, é ele o autor de obras de electrónica pastoral e melancólica, inteiramente instrumentais, feitas a partir de sintetizadores analógicos de antanho, como o tríptico Rifts (descrito pelo Village Voice como “serenidade tingida de desolação”), que evocam tanto o minimalismo de Steve Reich como a electrónica sequencial de Tangerine Dream ou dos primórdios de Steve Roach. E foi ele que desde o início, naturalmente, viu o potencial alienígena (e alienante) desta música e dos seus instrumentos:
“Analog polysynthesizers naturally lend themselves towards the alien because they strive and fail at mimetic representation.”
Mas também há um lado nostálgico, confortável e inconfundivelmente humano nesta música.
Talvez a sensação seja a de passar a eternidade num centro comercial, enquanto criança muito nova, meio perdida, na secção dos brinquedos, ou em adulto naquela secção recôndita do Toys “R” Us que vende consolas antigas em segunda mão, ouvindo aquela muzak a tocar no sistema de som, sendo incapaz de sair, impedido por forças sobrenaturais que não se conseguem controlar ou compreender, e no entanto querendo ficar lá, embalado pela estranha mas agradável sensação de conforto, nostalgia e prazer entorpecedor. É ficar preso no tempo e não querer sair.
Ou talvez a de entrar num centro comercial, esperar que toda a gente saia, e passar lá a noite, a vaguear sem rumo, com a música a tocar e as luzes ligadas, como alguém que procura refúgio enquanto um zombie apocalypse devasta o mundo lá fora.
Brincadeira ou não, o vaporwave tinha de acontecer inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, enquanto forma de arte e gênero musical, bem como sátira, ironia escrachada ao capitalismo e consumismo ao lado do comentário social. Nós, as gerações que cresceram numa sociedade ocidental de capitalismo de consumo, particularmente nos Estados Unidos, nos anos 80 e 90 (e talvez ainda os 60s e 70s), fomos forçados a engolir uma contínua torrente de anúncios e obras de arte audiovisuais sem mérito artístico, vazias de sentimento, significado, beleza e humanidade, manufacturadas com o único propósito de vender marcas (quer essas marcas fossem produtos de consumo ou gente famosa), sobretudo pela televisão e mais tarde a Internet.
Como a fast food que anunciava, essa cultura levava ao espectador uma sensação de conforto e satisfação imediata, que era agradável e viciante, bem como um vazio e uma alienação que se prestavam à sátira. Combinando estes traços com a obsessão e o fascínio da música electrónica pelo passado, e a tendência para a apropriação de formas musicais antigas pelo sampling, partindo sobretudo dos géneros modernos do hip hop, downtempo, trip-hop e chillout, assim nasceu o vaporwave, que portanto serve o duplo intuito (ou, melhor dizendo, evoca os sentimentos, uma vez que claramente não tem um intuito) de nos fazer regressar a tempos mais simples (para muitos de nós, a infância) em que as nossas minúsculas e irrelevantes dores podiam ser facilmente curadas pela droga Technicolor do prazer imediato e desaparecer mediante o mundo colorido e fantástico dos videojogos e da TV, assim como revelar a verdadeira natureza disso tudo, e de nos confrontar com os nossos próprios vazios emocionais.
Como se nos estivesse a dizer “Isto é o que tínhamos. Era tão frívolo, mas tão bom.”
É impossível não sentir um certo prazer nostálgico quando se ouve esta música, porque nos devolve à infância, a ser um miúdo outra vez, com as suas melodias e os seus ritmos simples, fáceis de degustar para palatos pouco sofisticados e exigentes, mas também um sentimento de remorso e tristeza (ou talvez melancolia) porque nada daquilo tinha significado e a parte mais profunda, sensível e espiritual da nossa humanidade deseja que o tivesse. Olhando para trás, para todas aquelas horas de anúncios, cores saturadas e melodias que ficavam no ouvido, tudo parece não apenas vazio mas surreal, o que assusta porque há apenas duas décadas que nos separam desse mundo.
Alguém disse que o vaporwave tenciona “expor as falsas promessas do capitalismo”. De facto, ele prometeu-nos puro êxtase e felicidade eterna, e deu-nos nada. E agora, crescidos, adultos, sentimo-nos como o homem do anúncio do Demerol, confusos e embriagados.
A musica vaporwave ainda se inspira no J-funk dos anos oitenta, como de canções como 1984 da cantora Junko Yagami ou Plastic Love da cantora Mariya Takeuchi.
A musica vaporwave ainda se inspira no J-funk dos anos oitenta, como de canções como 1984 da cantora Junko Yagami ou Plastic Love da cantora Mariya Takeuchi.
O vaporwave parece ter nascido desse vazio, de todas essas horas passadas em frente ao televisor, ébrios de cores saturadas, melodias viciantes, sorrisos falsos, dentes branqueados e gasosas geladas. E no entanto, não o condena explicitamente, nem na sua aparente forma de sátira. Ao invés, nutre pelo passado uma certa ternura, que seria comovente não fosse pela ausência de emoção que o caracteriza. Pelos primórdios do digital, pela glitch art, pelo VHS, quando a tecnologia era artificial, etérea e idealizada, longe do realismo do HD.
Adora os saltos da fita de cassete e a estática do analógico como os produtores e DJs de hip hop adoram o scratch do vinil. Adora os separadores do Weather Channel, as grelhas de programação dos canais de televisão pública, os logótipos e os startup sounds do Windows, os gráficos rudimentares dos anos 90, a tipografia asiática. Adora o slow motion, o white noise, o loop e o glitch. Venera e fetichiza tudo o que é obsoleto, abstracto e vazio, e despe-o de significado e emoção, reduzindo-o até ao mais puro surrealismo. E no entanto esta intencional estética lo-fi não é seguida por uma questão de pureza, porque não demonstra uma atitude consciente em relação aos objetos da sua inspiração. Parece adaptar as suas formas sem exagero ou caricatura, mostrando-as como elas são, sem qualquer juízo de valor artístico.
O efeito é inegável: basta ler os comentários do YouTube, que se tornou um enorme repositório de obras e pedaços do género, e inevitavelmente dar de caras com o depoimento de alguém que sente essa nostalgia por um passado de conforto e serenidade, ainda que não o tenha necessariamente vivido.
Nesta era pós-sampling, em que o dique já rebentou, e já não se debate a sua legitimidade, sendo uma realidade tão omnipresente na produção musical, o vaporwave apropria-se do passado com o mesmo vazio emocional que caracteriza a fonte das suas escavações. Não tenta criar algo de novo ou artístico, mas sim representá-lo, como Warhol, Lichtenstein ou Duchamp. Às vezes com ternura, às vezes com nostalgia e saudade, outras vezes com um distante niilismo.
* Os processos são os mesmos do hip hop e da electrónica (slow motion, pitch shifting, time-stretching, delay, cut ’n’ paste, reverb, uso de drone e white noise), com uma ênfase no slow motion (há uma obsessão em abrandar sons até se tornarem surreais, oníricos e hipnagógicos), mas não há uma tentativa de criar algo novo ou sequer com mérito artístico. Não há recontextualização, porque não há contexto.
* Os processos são os mesmos do hip hop e da electrónica (slow motion, pitch shifting, time-stretching, delay, cut ’n’ paste, reverb, uso de drone e white noise), com uma ênfase no slow motion (há uma obsessão em abrandar sons até se tornarem surreais, oníricos e hipnagógicos), mas não há uma tentativa de criar algo novo ou sequer com mérito artístico. Não há recontextualização, porque não há contexto.
As fontes das samples são inequívocas a traçar o perfil do género: pop, soft rock, r&b e funk dos 80s e 90s, mas também o lado kitsch, ambiente e genérico da música instrumental, como smooth jazz, muzak, lounge, new age e qualquer coisa que passaria nas colunas de um supermercado ou no elevador de uma empresa.
As vozes são abrandadas, as notas prolongadas, as batidas atrasadas, até o surrealismo tomar conta e tudo perder significado, e não haver nada mais a não ser uma névoa de prazer narcótico, calmante e convidativo, mas também frio e distante. Tal como os supermercados ficaram parados no tempo e ainda passam os mesmos hits dos anos 80 e 90, também o vaporwave ficou preso ao passado, demasiado confortável para se abandonar. Como seria de esperar de um sub-gênero de música electrónica fortemente apoiado no sampling, o que o tempo esquece, o vaporwave recupera e celebra. Até porque o tempo, neste universo paralelo, não existe. É obliterado neste deserto estético onde nada importa a não ser uma sensação de absurdo e o prazer que só a nostalgia proporciona.
O sucesso do vaporwave, para aquele que é manifestamente um gênero de nicho, explica-se porque há qualquer coisa dentro de nós que anseia por conforto, sossego e paz de espírito. Pela anestesia do mundano. Como quem adormece em frente ao Weather Channel ou gosta de ver grelhas de programação.
Infinity Frequencies, um dos produtores mais conhecidos do género, define a sua música com a frase:
“When computers sleep, they dream”
A recém-nascida editora Dream Catalogue, sediada em Londres (ou em Neptuno, quem sabe?), fundada em 2014 (ou, segundo a própria, em 2814), que se descreve como “Record label, installing dreams into your brain”, assume o objectivo de lançar música não sob o signo da ironia e do capitalismo, que tanto caracterizou as primeiras obras do género, mas sob o estandarte de sonhos melancólicos de fuga para um mundo distante, livre de isolamento e solidão, propagando o género para a frente, numa direcção nova e positiva.
Dois dos seus álbuns mais importantes, HK e 新しい日の誕生, lançados em 2015 pelo fundador da editora, Hong Kong Express, assumem como seu ethos nada mais que a beleza, a melancolia, a utopia e o escape e como principal e inegável influência estética o mundo urbano e decadente de Blade Runner, encharcado de néon e chuva torrencial, com os sintetizadores da sua banda sonora a servir de paleta sónica.
O vaporwave é a música da alienação, do absurdo e da nostalgia, feito à medida do público do século XXI, um público anónimo e globalizado, conectado, mas desligado da interacção humana. Sabe o quão vazia e absurda é a época em que vive, e abraça-o com gleeful abandon, apropriando-se do passado, imaginando o futuro, recusando-se a viver no presente. Num mundo que muda tão rapidamente, em que tudo é um nicho, perante a impossibilidade de acompanhar tendências e uniformizar o que quer que seja, haverá forma mais eloquente de caracterizar o que significa viver no início do século XXI?
A estética desse movimento é marcada pela ode ao Windows 95, neo-classicismo e designe gráficos da internet noventista, iniciação do windows e games Atari. A estética sempre reforça o uso das cores primárias que lembram em algum momento o arco-ires. VHS e MTV também são marcas registradas da estética do vaporwave. Lembrando que foi nos anos 80 em que a MTV explodiu com seus clipes maravilhosos.
Essa vibe ainda pega onde nos animes oitentista e noventistas como Sailor Moon, Akira e Neon Gênesis Evangelion. Como se trata de um movimento que tem uma força considerável entre os jovens, muitos deles são adeptos à estética sem necessariamente gostar das músicas. Elementos dos anos 1980 e 1990, glitch art, design gráfico antigo, bustos romanos, paisagens tropicais, cultura japonesa e muito rosa e azul (devo falar isso sempre) compõe essa estética, que começou em fóruns onlines como o Reddit, Tumblr e 4chan, e transbordou ao angariar milhares de adeptos ao estilo de se vestir Vaporwave.
Existe até mesmo uma fonte que foi popularizada em nome do Vaporwave. E isso é bem valioso, pois vemos o esforço em que o movimento tem em se popularizar logo. Você pode acessar um site bem legal que permite converter qualquer fonte pra famosa font vaporwave aqui.
Reconhecimento Cultural
Terá o vaporwave mérito artístico? Não é esse o objetivo. Talvez o seu mérito seja ter-nos permitido ser verdadeiramente democráticos no nosso amor à música, e dizer abertamente que gostamos de música de elevador, lounge, muzak, new age, ambiente e todas essas formas de música instrumental aparentemente ridículas ou foleiras, sem medo de ser alvo de troça ou acusações de mau gosto.
Serão os seus autores lembrados? Não interessa. O anonimato é a regra do jogo aqui, para um público incógnito e globalizado, que se regozija perante o prazer de permanecer oculto num mundo sem privacidade. É assim que mantém a sua magia, despindo-se de identidade (e de humanidade). Eccovirtual comunga deste sentimento:
“The whole appeal of vaporwave is its use of remaining unknown, that in a world where nothing is private it is refreshing to find something that feels like it was found in the dumpster of a thrift shop. Where it does not matter where it came from or who made it, only that it takes you elsewhere, somewhere distant from reality.”
Qual o futuro do vaporwave? Aparentemente vazio, como a cultura de consumo que parodia e representa, a julgar por um género com tão pouco respeito por si próprio, encarado por tantos como uma piada, tão dependente dos objectos que satiriza e apropria.
Quando, daqui a vinte anos, adultos procurando nostalgia regressarem ao início do século XXI, encontrarão uma era culturalmente vazia, feita de sátira, cinismo, sons sintetizados, colagens, falsos objectos e outras formas de expressão fingidas e arrogantes. Uma vez que os movimentos satíricos necessitam de objectos para troçar e o vaporwave obviamente não pode satirizar-se a si próprio, implodirá e deixará de existir, e as pessoas procurarão formas mais sinceras de expressão artística. Talvez a sátira, tal como o cinismo, ficará obsoleta pelos meados do século XXI, e a sinceridade e o sentimento honesto serão a nova moda. Este é o problema com o excesso de ironia, sarcasmo, distanciamento, desconstrutivismo e falta de seriedade nos tempos pós-modernos, sobretudo a partir do final do século XX. Leva-nos a um vazio emocional.
Será que rejeita a cultura empresarial e consumista pela sua decadência e vacuidade, ou abraça-a pelo seu hedonismo desenfreado? Será que tem pretensões ou objectivos a cumprir? Será arte ou anti-arte? Algum artista do Mainstream como Lana Del Rey, Björk ou Britney Spears irão levar o gênero musical para o gosto popular? Nada disso interessa.
Será que rejeita a cultura empresarial e consumista pela sua decadência e vacuidade, ou abraça-a pelo seu hedonismo desenfreado? Será que tem pretensões ou objectivos a cumprir? Será arte ou anti-arte? Algum artista do Mainstream como Lana Del Rey, Björk ou Britney Spears irão levar o gênero musical para o gosto popular? Nada disso interessa.































