Cinema

Um texto, ou análise, sobre a fragmentação da personalidade em Cisne Negro

14:46


o lago dos cisnes e o cisne negro, uma breve introdução 

Em fevereiro de 1877, Tchaikovsky mostrou-nos pela primeira vez, no teatro Bolshoi em Moscou, seu Magnum Opus, Lago dos Cisnes: Op. 20., em um espetáculo dramático, melancólico, trágico e shakespeariano.¹  A suíte foi criada a partir de contos populares russos e alemães² e conta a história de Odette, uma princesa aprisionada na figura de um cisne pela maldição de um feiticeiro malvado, Rothbart. A maldição, porém, dura apenas em quanto houver raiar de sol, o que significa que durante o período da noite, Odete se transmuta em sua forma humana novamente. Para que seu infortúnio fosse finalmente cessado, era necessário que um admirador lhe declarasse amor e fidelidade. E, caso fosse traída, Odete permaneceria para sempre como um cisne. Numa tarde, após ser vítima de uma perseguição por parte de um príncipe, chamado Siegfried, Odete se revela, explicando sua condição, e encantado com a beleza de Odete, Siegfried promete quebrar o feitiço. Entretanto, ao descobrir o contratempo, transforme sua filha Odile, o cisne negro, em uma cópia perfeita de Odete, dessa forma confundindo o príncipe, que enganado, declara amor e fidelidade a Odile. Diante da sua condição, agora irremediável pela traição de seu amado, Odete decide se matar jogando-se no lago, para por fim em seu martírio, Siegfried, na esperança de viver ao lado de sua amada, na vida após a morte, faz o mesmo. 

O lago dos cisnes, ao longo do tempo recebeu diversas adaptações, inclusive aquela icônica da Barbie, mas talvez a mais emblemática e memorável de todas tenha sido O Cisne Negro, de 2011, dirigido por Darren Aronofsky, que recontou-nos o conto a partir de uma perspectiva completamente diferente.



Nina, a pessoa perfeita para viver Odete

Cisne Negro tem como protagonista Nina, interpretada por Natalie Portman. Nina embora já seja uma adulta, comporta-se de maneira infantilizada e imatura. Tímida, extremamente dócil, meiga e que por vezes assume uma postura frígida, zelando pela pureza da sua essência. Nina, ao que nos é mostrado, tem como objetivo maior, se tornar uma bailarina perfeita.

A personagem, quase que instintivamente, preserva uma natureza ingênua, sem nenhuma malícia e porque não, romântica. Nina, assim como Odete é o estereótipo perfeito que uma protagonista de conto de fadas exige. Mas, há uma grande diferença entre ambas: Odete foi criada para ser assim, a protagonista perfeita de conto de fadas; já Nina estava constantemente se apropriando deste papel, porque novamente, seu objetivo de vida era ser a bailarina perfeita, bailarina perfeita para interpretar Odete, por conseguinte, a Odete perfeita. 

Sua mãe, Erica (Barbara Hershey), é a principal responsável por sua extrema infantilização. É possível notar, em diversos momentos do longa, Erica adotando uma postura super protetora que, tem por finalidade reforçar a fragilidade de sua filha. Prova disto é a decoração, extremamente infantil, do quarto de Nina. Um predomínio da cor rosa, associada à pureza e infância, ursos de pelúcia, entre outros detalhes. Inclusive é até difícil de acreditar que a personagem tem 28 anos.

Alimentando continuamente esta postura, Nina abdica e nega de outros comportamentos naturais do ser humano. Portanto raiva, desejo, sensualidade, e outros, todos são cindidos. Todo este lado interditado, toda esta barreira, funcionam como um feitiço. Portanto, Nina, por desejo de sua própria mãe, não teve a oportunidade de crescer, ficando presa na casca de uma menina, cativa de uma figura que lhe foi imposta, assim como Odete, tendo seu desejos e vontades interditados, enclausurados num cárcere psíquico. Devido a isso, Nina nunca experimentou a liberdade de expressar-se de maneira honesta, em outras palavras, de ser ela mesma.


Nina, o reflexo das exceptivas pessoais de sua mãe

Quando tornou-se mãe, Erica era muito jovem, e por este motivo teve que deixar sua carreira, de bailarina em ascensão e, sentindo-se cansada e frustrada para recomeçar, dedicou-se única exclusivamente na tarefa de cuidar de sua filha. Desta forma, o nascimento de Nina pode ser interpretado como a morte da carreira da mãe. Como consequência, a protagonista vive dominada por uma mãe controladora, da qual além de definir como deve ser a sua postura e comportamento, é intrusiva e invejosa. O desejo de Erica é tornar Nina, em tudo aquilo que ela não pôde ser. Seu comportamento super protetor, anteriormente destacado, conforme avança o filme toma um caráter sufocante, que mais fala sobre rejeição do que sobre cuidado. e se, antes esta atitude impedia que Nina tivesse alguma individualidade, agora reprime qualquer traço individual que nela possa vir a despertar.

Nota-se nesse contexto familiar, a ausência de um espaço em que seja possível o estabelecimento de laços sociais de confiança, em que a protagonista possa falar e se manifestar, seja através da expressão dos sentimentos, seja através do desenvolvimento gradual de atitudes por parte da mãe que viesse corroborar para a inserção de “Nina” no universo adulto. A genitora, mantém com  atitudes infantis como forma desta não sair do seu controle, sempre num processo de manipulação. Nessa relação entre mãe e filha era preciso sentir sentimentos de angústia e alívio, que segundo Lamb (1981) considera a sequência de angústia e alívio especialmente merecedora de atenção por causa das oportunidades que ela oferece de importantes episódios de aprendizado social. No enredo do filme, percebe-se uma ausência desse sentimento, onde só é construída uma interação social apenas entre mãe e filha sem que se viva as frustrações naturais de ganho e perda que a vida possa oferecer.  Nina não consegue integrar e não consegue por estar fundida à sua mãe, numa corrente de amor e ódio.

Portanto, se alguém me perguntar do que exatamente se trata Cisne Negro, eu diria que o longa reporta a história de uma mãe frustrada, que coloca suas expectativas de vida projetando-se para a filha. Emoções e sentimentos são projetados de forma reprimida, em torno de um sonho da filha, em se transformar uma famosa bailarina.


Nina e dualidade: Odete e Odile em um só corpo

Pressionada por uma mãe que abdicou da própria carreira em prol de criá-la, a personagem, como que pra pagar o sacrifício de sua mãe, não se permite cometer erros e foca todas a sua energia e disposição na sua tenra carreira. Nina passa horas treinando, dedicando-se de maneira exemplar e rigorosa.

Ao ser escalada para o papel de Odete, Nina acredita ter capacidade de entregar uma performance maravilhosa e, sentindo-se honrada não pretende estragar ou perder a oportunidade que há muito esperava. Como possuí as mesma características - e personalidade - de Odete, Nina consegue interpretá-la com maestria e perfeição. O desafio, porém, surge quando Nina precisa interpretar Odile, que é o total oposto de Odete: maliciosa, sensual e meticulosa. O diretor responsável pelo espetáculo, Thomas (Vicent Cassel), tem noção do potencial de Nina, por isso a escalou para o papel. Contudo, Thomaz não somente deseja que ela represente o Cisne Negro, mas que se torne ele também.

Entretanto, Nina não consegue performar com a sensualidade que a personagem exige. Thomaz, que a instiga das mais variadas formas, a seduz para que ela se transforme em Odile, porém, reticente, ela se sente culpada todas às vezes em que precisa demonstrar alguma sensualidade, mesmo que maneira íntima, como na cena da masturbação. Pressionada, a personagem começa a questionar a sua capacidade, cobrando de si mesma um comportamento oposto, esforçando-se demasiadamente e sendo assim se estressando cada vez mais e mais.

Como se sua falta de adequação ao personagem já não fosse o suficiente, o medo de perder o papel pra sua colega de trabalho Lily (Mila Kunis), que conseguia interpretar Odile, perfeitamente, lhe causa um sofrimento psicológico descomunal. Lily é sedutora. Não por ser, necessariamente, sensual e provocativa, mas por ser o total oposto de Nina. É tudo o que ela não é e precisa ser. 


Nina, num processo de descaracterização 

A protagonista já possuía uma mente instável. Paranoica e obcecada pela perfeição, além de apresentar outros distúrbios como: automutilação, bulimia e anorexia, distorção da própria imagem, disformia corporal que, diante de devaneios, pareciam apenas metáforas para sua transformação em Cisne Negro, quando na verdade eram reais.

A pressão do diretor, os ensaios árduos e exaustivos, o medo de ser substituída a qualquer momento, a mãe que, ao perceber a deterioração da filha, tenta privá-la do balé e o ambiente de competição e tensão, alimentado por Thomaz,  se transformam em condições sufocantes demais, causando diversos transtornos em sua mente e seu lado reprimido acaba se personificando em uma segunda personalidade incontrolável e antagônica. Esse duplo, que é complexo demais pra que ela consiga lidar, será reprimido pela protagonista e projetado na pessoa de sua rival, Lily. Sendo assim, cada vez que se sente inapropriada para o papel de Odile, Nina projeta raiva e inveja sobre a figura de Lily, da qual também admira por conseguir ser o que ela não é. Essa situação vai criar um mix de sentimentos e sensações antes não explorados, chegando aos extremos de fantasiar-se tento uma experiência sexual com a colega. O sexo neste momento se demonstra como o auge desse controverso fascínio, justamente por ser algo que Nina considerava como subversivo, mas ainda assim, desejável.

Essas fantasias evocavam na personagem, além da necessidade de novas experiências, a emoção - e também a vontade - de ser alguém completamente diferente, ou de se libertar finalmente aquela personalidade reprimida, da qual lentamente está tomando conta do corpo de Nina. O que se vê a partir daí é um intenso processo de fragmentação da personagem, que nesta altura, já não suporta mais esconder a sua outra face, o seu outro lado. Daren, reforça a percepção alterada da realidade de Nina, a partir da segunda metade, com o uso constante de espelhos. Os reflexos que vemos são muitas vezes enganosos e parecem ter vida própria. Desta forma, fica evidente que a persona alternativa de Nina, está ganhando autonomia e começando a agir independentemente.


Odete transmuta-se, por fim em Odile

No apogeu da sua metamorfose, no dia da grande apresentação, Nina comete uma falha devastadora enquanto performava o Cisne Branco. Sentindo uma enorme culpa e imaginando-se já arruinada, desconta sua raiva brigando com Lily no camarim e no ápice do confronto, intencionalmente mata a colega. Como sua preocupação com o espetáculo é maior do que qualquer sendo de moral, a bailarina retorna aos palcos sem se importar, agora totalmente transformada em Cisne Negro, e realiza uma apresentação com um desempenho transcendental. Seus movimentos são fluídos e hipnotizantes, sua pele exalta a sensualidade necessária e seu olhar é própria definição da malícia. Nina, alcança a perfeição, não como Odete, mas como Odile. Nina não errou os passos de Odete por puro acaso, mas porque já não era mais o Cisne Branco.

Contudo, preparando-se para o ato final, a personagem, percebe que, na verdade não havia matado Lily e sim ela mesma, afinal ela era a única coisa em seu próprio caminho. Quando Nina, retorna ao palco para performar a morte do Cisne Branco, está ferida, já que havia deferido um golpe contra si mesma. E num final tão dramático, trágico e shakespeariano quanto o de Lago dos Cisnes, Nina mata o cisne branco, tornando-se o cisne negro, ela mata Odete e tornar-se Odile, ela mata seu antigo eu, e transmuta-se em uma Nina perfeita., digna de todas as salvas de palmas. Esta cena pode ser interpretada de várias formas, num mais, não necessariamente Nina morre, mas sim a antiga Nina, a Odete.

Percebe-se assim, que o enredo do filme “Cisne Negro” vincula-se a uma dissociação da personalidade, que nos permite atrelamos aos estudos de Bowlby (2009), na perspectiva do apego, que nos diz: ser um sistema afetivo que tem proximidade como previsível. É visto como uma classe de comportamento social e ocorre quando são ativados certos sistemas comportamentais para pessoas essenciais. Esta ativação é processada por sistemas reguladores de segurança mediante a uma situação de estresse que exige uma postura de defesa. Nina, ao perceber que poderia ser substituída e que poderia não ser a mais perfeita entre todos não poupou esforços para descascar-se e transformar-se numa outra persona. 

O estigma da perfeição também perseguia Tchaikovsky; um outro

Tchaikovsky, de acordo com suas biografias, sempre demonstrou muita aptidão e talento para música. Sua música, alegórica e cheias de elemento surpresas, se destacavam das outras criadas pelos seus contemporâneos. Sempre com um teatral e performático, Tchaikovsky se destacou compondo grandes peças de sucesso para o balé clássico. Mas não quaisquer peças de balé clássico, e sim as mais importantes peças da história do balé enquanto arte. Lago dos Cisnes de 1877, A Bela Adormecida de 1890, e O Quebra Nozes de 1892.

Contudo, uma de suas maiores obras, O Quebra Nozes, foi alvo de seu desgosto e reprovação. Primeiro, porque a obra não foi um grande sucesso, obtendo muitas críticas por não ser fiel ao livro; segundo, porque Tchaikovsky detestou o que ele havia produzido ali. A verdade é que ele se sentia alheio à aquele projeto. A ideia de transformar o livro de Amadeus Hoffman (1776-1892), partiu dos coreógrafos Marius Pepita e Lev Ivanov, com base na adaptação de Alexandre Dumas (1802 - 1870). Nesse sentido, o controle criativo não estava exatamente sob as mãos de Tchaikovsky. Em uma de suas muitas reclamações sobre o processo criativo da suíte, o compositor disse não ter liberdade criativa sobre as partituras, que tinham de ser criadas em cima dos movimentos criados pela dupla de coreógrafos. Quando o resultado final se deu, a postura de Tchaikovsky não poderia ter sido outra: crítica e decepcionada.  Tchaikovsky chegou a dizer que se tivesse feito isso sozinho, o resultado seria mais agradável. 

Mas, sinceramente eu começo a me questionar sobre: o quanto disso não era sobre o ego do compositor? E eu não estou falando sobre o fato de O Quebra Nozes não ter conseguido o retorno esperado, já que anos antes, Lago dos Cisnes teve uma estreia desastrosa e Tchaikovsky morreu acreditando que este era seu maior fracasso³, quando na verdade se trata da peça de balé mais memorável e reproduzida de todos os tempos; status que a peça somente alcançaria depois de uma segunda montagem, encenada em São Petersburgo em 1895, reformulada justamente por Pepita e Ivanov. Mesmo com o fracasso comercial de Lago dos Cisnes, o compositor via-se extremamente satisfeito com o resultado final. Tchaikovsky, não gostava de O Quebra Nozes porque não era a cabeça por de trás daquele projeto, não o considerava como sendo algo genuinamente seu, não continha a sua assinatura e enxergava-o como limitado, não conseguia se ver como o criador, ou o único artista, por de trás daquele espetáculo natalino; e por isso aquela peça não era perfeita aos olhos. Não havia naqueles acordes sua total entrega, não havia naquelas partituras a totalidade da sua dedicação. Para ele isso era suficiente pra reduzir O Quebra Nozes em uma suíte anêmica, não tão interessante e defeituosa. 


fontes:

https://en.wikipedia.org/wiki/The_White_Duck

https://www.historyhit.com/1877-disastrous-premiere-tchaikovskys-swan-lake/

https://www.britannica.com/biography/Pyotr-Ilyich-Tchaikovsky

Cinema

a perca da individualidade, a fragmentação da personalidade e a identidade em Perfect Blue

18:12

Perfect Blue, lançado em 1997 é mais uma das obras de alto escalão do diretor japonês Satochi Kon. Muita gente acha que Perfect Blue é um filme confuso, mas na verdade ele é um filme que nos faz ficar confusos.


Em um breve resumo, o longa acompanha Mima, uma idol membro um girlband em ascensão, tentando dar um novo passo em sua carreira, abandonando o grupo em seu auge para tentar se tornar uma atriz. Mima aparenta gostar do que faz, porém a partir de decisões do gerente da agência da qual faz parte ela é encaminhada para o setor da atuação, onde seu rendimento seria mais lucrativo e a sua carreira ganharia um status menos efêmero. O problema, é que esta repentina mudança, que nem partiu de Mima, causa revolta na maioria dos seus fãs e um deles em específico começa a persegui-la e enviar mensagens ameaçadoras, que a princípio ela decide ignorar, mas quando este passa a ser o principal suspeito de uma série de assassinatos envolvendo pessoas próximas a ela, que contribuíram pra sua mudança artística, a personagem percebe-se cada vez mais atrelada a uma conspiração que tem como finalidade máxima mostrar-lhe o seu verdadeiro Eu. 

O que significa ser uma idol?

Num primeiro momento, Mima consegue conciliar sua vida pessoal à sua carreira de maneira eficiente. Pode-se dizer que a sua relação com a fama e o olhar alheio é até um pouco saudável, visto que em geral os idolos japoneses, em especial as mulheres mudam drasticamente a sua vida pessoal em prol de agradar um público que as idealiza de uma maneira puritana. 

Momoe Yamaguchi, à esquerda e Mariya Tekeuchi à direita 

Se voltarmos nosso olhar pra exemplos reais de idols japonesas, das décadas anteriores, poderemos perceber com mais clareza essa idealização. O exemplo mais ilustrativo sem sombra de dúvidas é a carreira de Momoe Yamaguchi. Considerada a primeira idol, surgindo em meados dos anos 60, Yamaguchi nos palcos era uma interprete brilhante, mas em sua vida pessoal performava o papel de "girl next door", sempre tão ingênua, gentil e pura. Depois de 10 anos de carreira, em 1979 Yamaguchi, com apenas 30 anos, abandonou sua carreira para se casar, com um também idol, e se tornar mãe e dona do lar. Esse gesto foi visto como virtuoso e cheio de valor. Na época de Yamaguchi, as agências de idols ainda não existiam, e por isso é corretor afirmar que ela foi um esboço pro quê viria a ser a indústria pop japonesa que veríamos nos anos 80. Yamaguchi não era dona de sua própria carreira, não compunha suas canções, não as produzia e muito menos decidia o que ia ou que não ia cantar. Ela era uma marionete nas mãos da sua gravadora.

Em contraste, havia Mariya Tekeuchi (sim a dona do hit Plastic Love), que por sua vez era compositora e produtora de toda a sua discografia, mas esta nunca foi considerada uma idol, pela massa e pela mídia. Seu controle criativo e seu comportamento desconcertado, não considerado o mais correto para uma estrela do mercado fonográfico japonês. A comprovação disso se deu quando em 1985, cinco anos depois de casada, ela inesperadamente retomou a carreira para um dos seus momentos mais brilhantes. Como resultado, Takeuchi era constantemente boicotada pelos veículos de comunicação. Apesar do imensurável sucesso nas rádios, quase não era chamada pra performar nos programas de TV ou raramente via-se estampando uma capa de revista. Portanto, quando as primeiras agências de idols começaram a surgir, por volta de 1978, não havia interesse por parte das gravadoras em artistas que pudessem produzir ou compor, já que estas não seriam facilmente manipuladas. Então ao invés de serem lidas como idols, essas artistas mais autênticas eram chamadas pra compor ou produzir os hits das artistas por eles fabricadas. A própria Takeuchi foi uma ávida criadora de hits pra nomes como: Seiko Matsuda, Akina Nakamori e Yukiko Okada. 

Da esquerda para a direita, Seiko Matsuda, Yukiko Okada e Akina Nakamori

Por falar em Okada, vale lembrar o seu trágico fim, aos 18 anos (pretendo fazer um post aqui apenas falando só sobre isso), que não suportando a pressão de ter sua vida exposta de maneira tão insensível cometeu um suicídio na manhã de 8 de abril de 1986. Pode parecer um caso um isolado, mas mesmo Nakamori, que embora, mesmo com aquele semblante tristonho parecia ter uma vida Idol Perfeita, em 1989 tentou acabar consigo mesma, depois de um longo processo de recuperação da anorexia causada por críticas dos fãs e da mídia em detrimento de seu corpo não tão magro. O incidente gerou antipatia e profunda rejeição pela princesa do J-pop, que só iria conseguir recuperar o status anos mais tarde.

Ser uma idol é seguir um padrão de vida, comportamento, corpo e pensamento totalmente regrado e extremamente controlado pelas pessoas que estão atrás da sua carreira. Mas este padrão não é o mesmo usado pelas divas pop ocidentais, que vendem seu corpo como atrativo máximo na sua carreira, pelo contrário, no ocidente vende-se a perfeição de uma imagem que precisa ser velada e assim mantida. É importante ter consciência disso pra que possamos entender melhor a obra de Satochi. Mima é um reflexo da imposição social que é direcionada desde sempre sobre a figura da mulher. Cujo o amadurecimento sexual é condenado em prol da espécie de uma imagem platônica que não possui nenhuma vontade considerada subversiva, ficando presa na dicotomia entre santa e puta. 


tudo é sobre um discrepante contraste.

Já no primeiro momento somos apresentados à atmosfera estranha de se ser uma Idol. Mima, e suas amigas, performando um número musical da maneira mais fofa e dócil que um ser humano poderia interpretar, vestidas em vestidos bufantes cheio de babado e laços, que pessoalmente me remetem à uma postura infantil, enquanto são observadas e aplaudidas por um montante de homens adultos que as fotografam de maneira quase desesperada. O que me remete ao papel da lolita e consequentemente da crescente romantização da pedofila promovida pela mídia. 

Se pararmos pra prestar atenção na letra da música, percebemos que a faixa fala sobre um estilo de vida casual. Em um determinado trecho podemos ouvir algo como: "não quero roupas de trabalho, quero me divertir a tarde toda...", mas em contraponto, temos ali três jovens vestidas como bonecas de porcelana, debaixo de um sol que parece incomodá-las, cumprindo uma agenda cansativa e servindo entretenimento aos que as assistem.  

Esta foi uma forma sutil que Satochi encontrou de nos mostrar a dualidade que a todo momento é debatida em Perfect blue, você só vai conseguir perceber ao se compenetrar na cena em questão. O mesmo, não pode ser dito na cena seguinte. Depois de assistirmos à apresentação da banda, somos bombardeados com várias cenas paralelas do cotidiano de Mima e da justaposição de imagens e cenas que compõe o mundo mundano ao glamour dos palcos. A sua vida no centro dos holofotes em contraste com seu dia a dia, na qual vai as compras ou pega um metrô como qualquer cidadão comum. E é neste momento que notamos o verdadeiro sentido de Perfect Blue.

Sim, Mima parece gostar do que faz, ela se sente acolhida entre suas amigas e feliz recebendo toda a atenção de seus fãs, mas quando Mima está sozinha, em seu íntimo, percebemos uma pessoa muito mais pacata e calma do que ela demonstra ser no palco. Diferentemente dos exageros visuais da sua persona enquanto popstar, todo o ambiente é transformado em alguma coisa aconchegantemente pessoal, desde a paleta de cores até detalhes minuciosos na organização de seu apartamento. Em seu lar, Mima parece viver outra vida, muito mais calma e você não diria que ela é uma popstar, contudo, este conforto e segurança são as primeiras coisas a serem quebradas.

a individualidade de uma popstar pertence a todos

Em meados dos anos 90 a internet estava ganhando força. Em seus primórdios o mundo virtual já se comportava como esta "terra sem lei", termo que hoje muitos costumam usar pra referir à ela. 

De um lado Britney Spears de outro Lady Di, ambas assediadas pelos paparazzi

Os artistas de um modo geral nunca conseguiram manter uma vida "privada", especialmente os artistas musicais. Suas vidas sempre foram motivo de especulações e fofocas, estampando capas de revistas, e talvez a pior consequência da fama, sendo objeto de interesse dos tão temidos paparazzi. Desde os anos 70, quando Lady Diana, tornou-se princesa, o hábito de perseguir as estrelas converteu-se em algo comum. Lady Di, que foi extremamente perseguida pelos paparazzi, teve cada detalhe de sua vida documentado, inclusive a sua morte, causada por uma perseguição de flashes e paparazzi. Talvez o exemplo mais cru desta realidade seja a própria Britney Spears, que em seu auge não conseguia dar dois passos sem ser fotografada. Eu ainda penso toda noite naquele vídeo em que sentada na calçada de seu bairro, chora pedindo um pouco paz aos paparazzi pra dar uma volta com seu cachorrinho. 

Contudo, a mídia não somente persegue as chamadas "pessoas públicas" por bel prazer, mas porque desejam saciar a fome do público sobre aqueles sujeitos. É o público, fãs ou haters, com toda a sua obsessão que motiva a o assédio da mídia. É o público que aflito por mais e mais desenvolve uma relação de poder com os artistas que podem chegar a extremos. É muito mais comum do que se imagina, que um fã se sentia prestigiado pelas conquistas de artista x, porque comprou e consumiu dele todos os materiais possíveis. Logo, é por causa dele, e de muitos outros, que aquele artista chegou onde chegou e por isso deve fazer o que ele quer, do contrário, contribuirá para sua queda. Esse pensamento resulta no que nos últimos anos temos chamados de "Stalkers", indivíduos que dedicam sua vida em prol de perseguir a vida de o outrem, geralmente pessoa da mídia. Esses stalkers costumam ser pessoas com alguma dificuldade de socialização e motivação de vida, que acabam enxergando naquela pessoa uma justificativa pra viver. Alguns stalkers podem extrapolar os limites do extremo. A cabo de exemplo temos casos como o de John Lennon, que foi morto a tiros pelo fã M. David Chapman, ou quando Ricardo López entendeu que jamais seria o homem perfeito para Björk e decidiu matá-la, e também suicidar-se, enviando uma bomba de ácido para a cantora, que conseguiu ser salva a tempo - ainda bem.


E este é um dos pontos mais interessantes de Perfect Blue. A quebra da individualidade. É no conforto de seu quarto, naquele cômodo aconchegante e cheio de acalento, que Mima descobre um blog de internet dedicado a ela, chamado: "O Quarto da Mima". Acontece é que, Me-Mania, a pessoa por de trás deste site se dedica em fazer postagens fingindo ser a própria Mima, descrevendo com detalhes o que ela faz no dia a dia, incluindo todos os momentos  em que gente acreditava serem totalmente pessoais e humanos da personagem.  Desde que somos apresentados pela primeira vez a Me-Mania, percebe-se que ele considera Mima uma propriedade sua. Quando a protagonista anuncia para a plateia que deixará o grupo, ela fica extremamente irritado. 

Para além disto, da segunda metade em diante, fica claro um conflito de interesses entre as pessoas direta e indiretamente relacionadas à carreira de Mima, principalmente Rumi, sua agente administrativa na carreira de ídolo pop; Tadokoro, também agente, mas na indústria cinematográfica; e Me-Mania. Todos disputam a posse da identidade Mima e tentam exercer seu poder e influência para controlá-la e explorá-la de alguma forma. Enquanto Rumi e Me-Mania desejam manter a fantasia de Mima como ídolo pop, Tadokoro está convicto de que investir na transição para uma atriz de cinema é a escolha certa.


o trágico anúncio para um processo de despersonalização 

A medida que Me-Mania começa a inventar fatos, especialmente a cerca da moral de Mima, naquele blog, a protagonista vai imergindo num mundo de incertezas. O que a gente acompanha daí pra frente é um processo sofrido de destruição da personagem. Uma destruição que é acompanhada de uma perspectiva muito clara, que não por acaso se confunde em vários momentos com a nossa: o público. 

Deste ponto em diante o filme se transforma numa paranoia constante, em que todos os momentos em que Mima se encontra sozinha, nunca estão isentos de algum foco de tensão, uma presença fantasma e um olhar opressivo, que é bem incorporado no personagem do stalker assustador Me-Mania, mas que na verdade é muito maior do que aquilo.

A pressão que a Mima sofre do fandom, o estresse dos problemas estruturais que ela enfrenta no novo trabalho como atriz, a nostalgia do sucesso como cantora pop e olhar obstinado e agoniante, fazem com que ela gradualmente desenvolva uma depressão silenciosa e mais tarde tornando-se incapaz de discernir o presente e o passado, a realidade dos sonhos e a paranoia do trabalho de atriz. 


a distorção da narrativa para uma mente distorcida  

A cena de estupro, que a protagonista precisa gravar para o dorama da qual está filmando, acaba funcionando como um dos gatilhos que prejudicam o seu discernimento e capacidade de desprendimento da ficção. Na cena ela é uma stripper, que durante uma apresentação é agredida por um grupo de homens, causando uma reviravolta dramática, tanto pra persona puritana da personagem, quanto pra imagem prévia de cantora pop. É neste momento que ela sofre uma de suas primeiras abstrações e mescla sonho e realidade. Obviamente o estupro não foi real, mas para Mima e sua vontade de seguir cantando, suas convicções e seus valores foram realmente violados. 

Desse modo, a partir deste episódio, ela fica suscetível a incorporar diversas personalidades em meio aos caos identitário. Tais aspectos narrativos são reforçados pela linguagem visual que a partir da constante presença de reflexos da protagonista, espelhos, câmeras e janelas, aborda e multiplicidade de Mima, a turbulência de sua própria imagem e olhar para si em um momento marcado pelo transtorno.

O filme é muito eficiente em criar essa atmosfera confusa em que se encontra a psique de Mima. Apoiando-se numa narrativa quebrada e numa montagem não linear, mas só a partir de um determinado ponto da trama. Muitas regras de como conduzir uma narrativa são quebradas e distorcidas. Conforme Mima vive num estado entorpecido, apático às sensações, em que a personagem desperta, mas não sabe dizer se o que estava acontecendo antes do corte era um sonho, ou se fato aconteceu; seja durante as gravações do filme, durante os ensaios. A trama da obra fictícia, da qual Mima atualmente atual, chamada "Double Bind" faz várias alusões aos problemas enfrentados por Mima, de modo que o fluxo de informações responde e confunde simultaneamente. 

O auge desse processo de fragmentação da identidade da personagem e consequentemente da realidade, culmina no assombramento perturbador da sua própria imagem. Uma versão perfeita, trajando suas "roupas de idol" e que com o tempo tenta tomar o lugar da "verdadeira Mima".

O mais curioso é a forma como esse contraste entre a Mima verdadeira e essa imagem que tenta tomar a individualidade dela, é construída. Pegando na referência de Freud, sobre o dualismo, esse: 

"outro ou duplo, parte de um elemento que está estabelecido na mente, mas se alienou dela por um processo de repressão por parte da pessoa, e que reaparece na vida adulta em momentos de conflito"

Mas, vale salientar que a outra não surge de uma repressão da própria Mima ou de um evento traumático específico, esses questionamentos a respeito da própria identidade já estão presentes desde o início do filme, claro de forma menos direta. Não se trata de uma vontade reprimida, parece-me que esta outra versão não aparece como um protesto freudiano de um lado inconsciente da personalidade de Mima, mas uma coerção que já estava presente e que tem um efeito de ameaça real, físico e não psicológico.


O azul perfeito não existe

Buadrillard, quando popularizou o termo hiper-realidade, em sua obra Simulacra and Simulation de 1981, argumenta que numa cena cultural, saturada de cópias e simulações ocorre uma mudança, onde essas imagens deixam de ser um reflexo da realidade, e inserida num contexto de capitalismo tardio "a cópia se torna algo maior do que uma abstração, ela vira algo que não precisa estar ancorado na realidade e pode efetivamente competir com ela" (BAUDRILLARD, 1981), um exemplo disto pode ser o consumo de pornografia, pois, mesmo que a pornografia não seja uma descrição realista e precisa do sexo, bem longe disso na verdade, para o consumidor a realidade do sexo se torna algo não existente. A pornografia num processo de exploração do corpo, trabalha com uma lógica de desempenho, da exposição máxima, da retirada de todo o véu possível, o que na verdade é uma negação de todo o significado do sexual, mas mesmo assim, num contexto de hiper-realidade, o sexo se torna simulação e a pornografia se torna o sexo.

Assim como no processo de sexualização e no idealização, observa-se a objetificação em benefício do consumo e do suprimento dos desejos da audiência, em grande parte masculina. Mima visivelmente não tem preparo, ou experiência e muito menos se sente confortável como atriz. Percebe-se isso na primeira cena em que precisa gravar, na qual ela possuí apenas uma fala, mas precisa repeti-la várias vezes até que seja convincente nisso. Com tudo, seu incômodo não é levado em consideração por aqueles que gerenciam a sua carreira, pois estes não visam seu bem estar, apenas o lucro. Não existe um interesse real e genuíno de explorar a carreira de Mima como atriz visando um crescimento artístico, pessoalmente gratificante, afinal ela vista apenas como um produto. Tudo o que importa é a objetificação de sua imagem. Voltando à primeira cena, aquela de Mima e suas amigas apresentando para um bando de homens portando suas câmeras, fica evidente que nenhum daqueles caras está ali pela música em si, e sim pelos atributos físicos das moças.


Perfect Blue parece desde o princípio muito preocupado com a exposição e com tipo de perspectiva e percepção que foca nos indivíduos tidos como "públicos", de forma que essa exposição vai criando uma figura bizarramente distorcida. Tudo que é pessoal, individual, tudo que é protegido por uma camada íntima e representa a verdadeira Mima é direta ou simbolicamente violado. Tornando a simulação da Mima numa materialização de uma necessidade de desempenho e do fetiche coletivo do "male-gaze" (olhar masculino), tudo que dela é, é tomado. A sensação de absoluta impotência diante desta ameaça é, de verdade, muito desconfortável. 

Em Simulacra and Simulation, Baudrillard concluí dizendo que: 

"Não existe uma forma de corrigir aquilo [...] a oposição moderna entre realidade e não realidade, não tem como ser restaurada. [...] deixa de ser um questão de reconhecer uma representação falsa da realidade, mas sim de esconder que o real, não é mais real. 

Perfect Blue se consagra como um grande clássico da história do cinema, lançado em meados dos anos 90, o filme previu com precisão de como a internet viria a se tornar um ambiente hostil, sobretudo quando se fala de figuras públicas que cada vez mais expõem suas vidas nas redes sociais para seguidores que podem a qualquer momento, voltar-se contra elas. Além disso, Perfect Blue nos faz reconhecer que idealizações fazem parte de um processo ilusório, que desumaniza o indivíduo,  entender isso é essencial para o reconhecimento do Eu e da auto aceitação. 


 

 

Cinema

o final de midssomar é mais triste do que você pensa

14:48

 


Lançado em 2019, através da lente de Ari Aster, Midossomar faz parte da onda de renascimento do terror, apelidada de pós-terror, dos quais também descendem os ótimos Corra (2017), A Bruxa (2015), Demônio de Neon (2014), O Farol (2020) e o mais recente Noite Passada em Soho (2021). O filme rapidamente caiu na proeza de agradar tanto público como crítica, ganhado status de clássico do gênero. 

É perceptível que Midsommar é uma daquelas obras que rendem intermináveis discussões seja numa mesa de café ou num artigo sobre. E não é exagero dizer que sua influência já pode ser notada, basta que lancemos um olhar sobre o interesse pelo folk-horror e sua estética que têm tomado o Instagram nos últimos meses ou para o recente lançamento de Lorde, o álbum Solar Power que mais parece a trilha sonora perfeita pras imagens compostas por Ari Aster, e talvez o exemplo mais claro talvez esteja na faixa The Path, que poderia ser muito bem inserida em algum momento específico do longa e ornaria perfeitamente. Ademais, depois de assistir mais uma vez, na noite passada, minha percepção sobre aquela cena final mudou completamente.


Quando Dani (Florence Pugh), sorri aliviada, olhando para o horizonte como se vislumbrasse reconfortantes paisagens, sentimos também e alguma coisa nos faz imaginar que no fim, apesar dos apesares, tudo deu certo, mas o que o telespectador não sabe é que ele está redondamente engando. 

Uma jornada silenciosa de abuso

Percebemos desde a aurora do longa, que Dani está cercada de pessoas, que de alguma forma, estão sendo sufocantemente abusivas. Já nos primeiros minutos somos apresentados ao drama de sua irmã, que sofre de uma profunda depressão. Aquela situação parece estar consumindo demasiada energia de Dani, já que ela precisa lidar sozinha com as crises e tentativas de suicídios da irmã. Extremamente fragilizada e exausta, a protagonista tenta buscar apoio em seu namorado Christian (Jack Reynor), que no exato momento estava procurando uma alternativa menos "dolorosa" de terminar aquela relação que há muito não lhe apetece. Durante a ligação, que é curta, Christian é displicente e frio, ele percebe o desespero de Dani, mas não consegue sentir nenhuma empatia ou se quer simpatia.

A partir disto, construímos uma profunda apatia por Christian. Isso é, ele sabia que Dani estava numa teia de abuso psicológico e chantagem emocional criada por sua irmã, mas estando com ela, ao invés de tentar oferecer algum apoio verdadeiro, sentia-se desresponsabilizado e alheio àquela situação, como se estivesse "perdendo a sua juventude" se importando com os problemas de Dani, mesmo que na verdade ele não se importasse nenhum um pouco. E mesmo depois da tragédia pessoal por ela vivenciada ele não se sente solidário, mas apenas mantém o relacionamento por obrigação.

Dani estava sozinha, sabia disso. Não havia outra forma de amparo senão a de se conformar com as migalhas e descaso de seu namorado, que nem mesmo pena da sua situação, sentia. Por isso, quando acompanhamos a narrativa se converter a favor da nossa protagonista, a partir do momento em que ela é elevada ao posto de Rainha de Maio, tendemos a considerar que o desfecho da história é realmente positivo, ou como somos acostumados "feliz". 


Realmente dá uma satisfação, e isso é estranho pra caramba, assistir o corpo de Christian envolvido pela carcaça do urso ser lentamente consumido por pelas chamas. A sensação que dá é que Dani, finalmente encontrou naquele povo uma família, um acolhimento. A cena do choro coletivo é com certeza o momento que mais evidencia essa impressão. Mas, nem tudo é o que parece...

E depois disso tudo? 

Dani pode ter encontrado tudo naquele povo, menos alento. Talvez por causa das cores, a beleza das flores, as rodas comunitárias e os abraços coletivos o absurdo da situação tenha sido amenizado, mas é bom lembrarmo-nos que toda aquela situação havia sido forjada pelos membros da seita. 

Christian, por mais abusivo que fosse, estava esperando a brecha certa pra terminar tudo com Dani e embarcar na sua "nova vida livre", traí-la não parecia uma opção, mas Christian foi lentamente induzido a fazê-lo. Quando, o líder da seita percebeu que o rapaz não estava comprando o discurso, drogou-o, para que pudesse consumar a celebração, fertilizando Maja (Isabelle Grill), numa poética cena de estupro. Além da beleza dos corpos nus, dos gemidos e da trilha sonora cativante, temos um Christian coagido e ameaçado, que claramente não deseja estar ali, assustado, pois nesta altura  já havia encontrado os corpos de seus amigos sacrificados, e sob efeitos de variadas substâncias alucinógenas, contudo, sem alternativas. 

Do outro lado, as coisas também não estavam tão agradáveis para Dani. O flagra da traição também foi forjado, numa astuta estratégia pra que o sentimento de ódio contra Christian finalmente florescesse. Dani, que também estava sob efeito de várias outras drogas alucinógenas, é coagida por Pelle (Vilhelm Blomgren) a aceitar a natureza estranha dos acontecimentos à sua volta, além de fazer parecer que ele se importava com suas dores, criticando a frieza e descaso de Christian, mas na verdade apenas estava interessado na conclusão do ritual. 

Naquela caótica cena final, onde toda aquela gente está empaticamente gritando de dor, isto é, de uma suposta dor, por aqueles que estão sendo sacrificados, vemos da face cansada de Dani brotar um sorriso indecifrável. É claro, por mais que houvessem questões, Dani não concordaria com a carbonização de seu namorado abusivo. Ela, pode ter sorrido, e no fundo nós nunca vamos entender o real motivo de sua genuína felicidade, mas quando o efeito daqueles alucinógenos passarem, ela precisará se deparar com mais uma tragédia, a de perder seu namorado e seus amigos, e novamente, assim como na perda da sua família, se sentirá culpada.

Não, o final de Midssomar não é feliz. Não, Dani não encontrou uma família naquele povo, e este é um filme que sutilmente nos mostra uma vítima de abuso silencioso.





Arte

10 filmes do cinema japonês que você precisa assistir

13:05

 Recentemente eu tenho tido muito contato com o cinema japonês e tenho ficado cada vez mais fascinado. Eu vi tanta coisa literalmente incrível que eu simplesmente não poderia deixar de vir aqui e fazer estas indicações. Tem uma coisa bem diferente no cinema deles, seja no tempo ou na captura das imagens, que surpreende de todas as maneiras. Entre filmes mais experimentais e outros mais íntimos, dez filmes do cinema japonês que você precisa conhecer:

Blue Film Woman (1968)




Neste thriller no-sense, (o que os japoneses costumam chamar de Pink Film) com ares de comédia pornográfica e uma leve pitada de ação, que me faz lembrar o cinema de Tarantino, acompanhamos a trajetória de uma mulher que após ter sua família destruída por uma rede de agiotas se vê obrigada a se vingar. Uma rede de conflitos e jogos sexuais são criados e nem tudo sai como ela esperava. Muitas cores, sobreposições de imagens, jogos de luz e sombra e muitos ângulos servindo criatividade cinematográfica. Para além da história que diverte, Blue Film Woman é uma interessante aula sobre como criar um cinema não convencional. Dirigido por Toshio Matsumoto é uma dos pontos altos do cinema independente japonês do fim da década de 60.

O funeral das Rosas (1969)


Nesta obra prima de Toshio Matsumoto e do cinema propriamente dito, acompanhamos a noite de um grupo de prostitutas transexuais e suas aventuras amorosas. Num formato que não define os limites entre documentário e ficção, somos cativados pela história de Eddie (Peter), a personagem principal, em um Japão pós segunda-guerra, tendo que lidar com uma sociedade ainda precoce no entendimento da transexualidade, à medida em que ela se apaixona por Gonda (Yoshio Tsuchiya), principal interesse romântico de sua cafetina Leda (Osamu Ogasawara). 

Outro ponto do alto do filme é a sua montagem. Ora brinca com uma narrativa não linear, ora joga-nos elementos cartunescos, como na cena em aproveita a cena de uma discussão para reproduzir páginas de um mangá. Para além disso, a direção de fotografia é certeira em apostar em ângulos misteriosos, luzes baixas e uma câmera que anda com os personagens. Uma das principais obras da Nouvelle Vague japonesa, corajoso ao tocar em temas considerados tabus para época é uma história que merece ser vista. 

Rashômon (1950)



A violação de uma noiva e o assassinato de seu marido samurai são lembrados desde a perspectiva de um bandido, da noiva, do fantasma do samurai e de um lenhador que tudo testemunhou. Vencedor de um Leão de Ouro, Rashomon é mais uma obra de Akira Kurosawa que trata sobre culpa. 

Sonhos (1990)


Último filme do grande mestre Akira Kurosawa, Sonhos é uma ode a imagem. Mergulhado no inconsciente poético da fantasia, Akira explora a beleza da cores num devaneio surrealista e extremamente verdadeiro, já que todos os capítulos são baseados em sonhos que Akira teve durante a sua vida. Fascinante e diferente de tudo que Akira tenha feito antes, Sonhos é de uma delicadeza tocante. 

A rotina terá seu encanto (1962)


Através da lente delicada e da perspectiva detalhista de Ozu, acompanhamos um grupo de personagens presos em uma rotina, do jeito que a vida costuma ser. Isso não necessariamente é ruim para todos, pois existem aqueles que se sente conformados, os que se sentem confortáveis e os que se sentem injuriados. Última obra do grande mestre do cinema japonês, a Rotina Terá Seu Encanto é uma célebre despedida, um fascinante passeio pelo cotidiano, um grande aprimoramento da vida.  

Ran (1985)


Em sua obra prima, Akira Kurosawa eleve a sua marca cinematográfica, o movimento. Neste drama de guerra, a ideia de movimento é uma constante. Nada parece realmente parada, mesmo quando a câmera está estática, colando-se nesta condição. O filme que toca em temas como loucura e escolhas tornou-se a obra favorita dos fãs de Kurosawa. 

Uma página de loucura (1926)


Dirigido por um Kaneto Shindô ainda em começo de carreira, Uma Página de Loucura é uma experiência que flerta com o horror, com o drama e o surrealismo mesclado ao expressionismo. Apostando numa narrativa quebrada, no cinema mudo e num experimentalismo de imagens, Shindô nos conta sobre a perda da sanidade e o sabor da loucura. 

Os Sete Samurais (1954)



Num Japão feudal, um humilde vilarejo é alvo de constantes ataques. Após a chegada de Kambi (Takashi Shimura), um guerreiro errante, ele e outros seis se uniram pra defender a honra deste lugar desprotegido. O filme que inspirou grande parte dos filmes de faroeste hollywodiano, é uma crítica à casta feudal japonesa. A influência de Sete Samurais no cinema norte americano da segunda metade do século XX é imensurável. Experimentar desta obra é também experimentar de um Kurosawa em seu apogeu enquanto diretor.

Onibaba (1964)


Dirigido por Kaneto Shindô, Onibaba é um filme sobre solidão, culpa, velhice, vergonha e medo. Temas recorrentes na obra de Shindô, aqui apoiados ao tema folklorico, já que o filme é inspirado pela lenda budista yome-odoshi-no-men. Apesar de ser "erroneamente" categorizado como uma obra de terror, Onibaba é na verdade, mais uma, denúncia japonesa da vida num ambiente de guerra. Shindô toca em assuntos sociais como a segregação, a pobreza da vida em vilarejos e a figura da mulher numa sociedade extremamente afetada. 

A direção de fotografia acerta criando um ambiente que é iluminado apenas pela luz natural, evocando uma atmosfera mórbida durante a noite e lívida durante o dia. Além disso os cenários são poucos e claustrofóbicos, quase que insinuando a realidade daqueles três personagens. 

A Rua da Vergonha (1956)


Em sua obra mais célebre, e também a última de sua carreira, Kenji Mizoguchi (diretor que eu prometo trazer mais sobre em breve), nos apresenta a trajetória e história de cinco prostitutas - tema este muito recorrente em sua filmografia - que se encontram aos arredores do famoso bordel "Terra dos Sonhos" em Tóquio. Essas personagens vão atravessar caminhos tortuosos, fadadas a tragédias causadas pelos homens que as rodeiam, resultando numa tragédia feminina. Um importante filme para entender o retrato da objetificação feminina na sociedade nipônica.

Cinema

eu odeio o final de o diabo veste prada

15:20

Talvez em 2007 ninguém tenha percebido, mas o Nate é o verdadeiro vilão dessa história toda, e que merda foi aquela no final?



"O Diário Veste Prada" segue sendo uma das minhas comédias românticas favoritas dos anos 2000 - e talvez de toda a história do gênero; todavia, os anos se passaram e assim como quando eu assisti pela primeira vez, eu sigo odiando aquele final - e o fato de ele ser tão real - e tudo que ele representa. É desmotivador e extremamente injusto.

Miranda é apenas um expoente, e ela é bem diferente do que você pensa que ela é...

A construção desse longa se dá pra que Miranda, aqui brilhantemente interpretada por Meryl Streep, seja vista como a Vilã. A personagem é amarga e azeda demais pra ser amada, mas fashionista e lacradora demais pra ser odiada. Cheia de complexos, camadas e lacunas, é fácil entender o seu jeito durão e arrogante de se comportar. Em dado momento fica parecendo que Miranda e Andy (Anne Hathaway) possuem muito em comum, e que no passado Miranda foi alguém tão confusa e perdida quanto sua nova funcionária (des)favorita. Miranda, mesmo depois de realizada, ainda parece estar frustrada - tá no olhar dela. Seu casamento parece ruim, sua vida pessoal parece estar sempre em trilhos finos e suas questões são ignoradas pela mesma que suprime tudo, deixando de perceber o que existe à sua volta e também deixando de percebe-se, para colocar o seu trabalho e status quo acima de qualquer coisa. Miranda não parece ser uma mãe presente, ela não é uma boa amiga, não é uma boa chefe, não é uma boa esposa, não é uma boa pessoa e tudo isso faz a Miranda uma perfeita personagem. Nada está certo com ela e é bem verdade que seu relacionamento com Andy era uma versão menor de Chernobyl, mas ela não é verdadeira vilã desta história. 

Tudo mundo que viu esse filme na época, por mais que não tenha a odiado, de fato, a olhou como se: "ual essa mulher é a megera da coisa." "ela quase estragou o relacionamento a personalidade da mocinha" "por culpa dela a mocinha quase traiu o namorado e esqueceu os amigos." 

Vale lembrar, que embora apenas uma personagem, Andy representa um arquétipo social existente e também é uma pessoa no que se insere, e todas as escolhas que toma durante o desenvolvimento do longa são suas. Miranda não a estava influenciando totalmente. Embora ela quisesse chamar a atenção da patroa e se provar mais do que era enxergada, ela se sentia bem naquelas roupas, sentia-se feliz naquele universo que era seu sonho. Mesmo que ela tenha criado expectativas sobre Miranda, em paris (isso porque ela quis, pois bem sabia de como era a personalidade dela) e depois se decepcionado com o golpe que Nigel (Stanley Tucci) leva da mesma, isso não era o suficiente pra lagar um emprego que podia levá-la para uma revista importante: como a Vogue, Elle ou Glamour. 

pra falar a verdade Andy está cercada de gente tóxica

Andy desistiu de tudo simplesmente por que foi diminuída e desencorajada por aqueles que deveriam apoiar seus sonhos e escolhas, independente de qualquer coisa. Constantemente, os que se diziam seus amigos, estavam caçoando do seu trabalho, seja por estar ocupada demais ou por receber ligações da Miranda no meio do rolê. Eles não estavam preocupados de fato se Andy estava cansada ou sendo abusada de alguma forma, ELES ESTAVAM PREOCUPADOS SE ANDY ESTARIA ALI PRA ELES. UNICAMENTE PRA LHES ATENDER.  E a coisa só muda quando Andy leva alguns presentes caros pra estes "amigos" que se de repente mudam um pouco do discurso defendido, até há pouco. {ela estava literalmente comprando o apoio deles}  

Enquanto isso no ambiente de trabalho, Andy precisa tentar lidar com a amargura e pirraças de Miranda, com a inconstância e inveja de Emily (Emily Blunt) e os risinhos irônicos de Nigel. Todavia, depois de inserida neste mundo glamoroso, Miranda abre-lhe uma porta maravilhosa para o mercado de trabalho, Emily decide apoiar a nova amiga, ainda que às vezes com frases ácidas, e Nigel tenta de um tudo pra tornar tudo mais fácil pra aspirante. Tudo isso não muda fato deles serem tóxicos, mas muito menos que "seus amigos de verdade."

Nate é simplesmente insuportável e tudo dá errado por causa dele

Lá trás, quando lançado, muito gente suspirou de amores porque Andy abria mão do luxo e do gliter pra viver ao lado do seu namoradinho: TODO MUNDO ACHANDO INCRÍVEL QUE A COITADA TENHA FUCKING DESISTIDO DE SEUS SONHOS PRA FICAR AO LADO DE UM CARA QUE EXIGIU ISSO OU O RELACIONAMENTO IA ACABAR.

Nos olhos de 2021, Nate (Adrian Grenier) é simplesmente o tipo de namorado que toda garota, ou garoto, deve evitar. É o mais claro exemplo do abuso passivo - isso pra não dizer claramente abusivo - onde lentamente somos envolvidos por brandas ameaças até que então cedemos tudo pra então ficarmos a mercê das vontades de um (a/e/x) manipulador, que dali pra frente ditará cada passo das nossas vidas (isso é se nos for permitido dar algum.)

Depois de se frustrar com Miranda, Andy entra num processo de reflexão: "será que é com este tipo de gente que eu quero ser associada?"

Mas Andy sabia que Miranda não iria indicar Nigel, pois sabia que aquele mundo era um jogo de caça e rato. Miranda precisava manter seus inimigos bem próximos, pra que não viesse ser desamparada mais tarde. Foi injusto confabular que Miranda iria prestigiar Nigel, com James (Daniel Sunjata) em seu caminho. Andy se frustrou porque queria se frustrar. Ela estava apenas procurando um motivo, uma situação, circunstância pra sair dali correndo e voltar pros braços do seu abusador. 

Não há culpa em Andy, mas também não há em Miranda. A culpa de tudo é toda de Nate. O namoradinho não deu trégua um segundo se quer desde que Andy começou a trabalhar na agência de Miranda. Ele fez a caveira da mulher. Ele aproveitou de todas as formas e deleitou-se em todas as situações possíveis, de maneira tendenciosa, pra fazer com que Andy visse uma Miranda que ele criou - e talvez a direção do filme tenha um pouco do seu male-gaze (olhar machista.) Contudo, por mais que Andy estivesse vendo uma Miranda totalmente demonizada e disfuncional esta não foi a maior causa da sua fuga.

Andy não se sentia suficiente praquele mundo (quando a própria Miranda disse que era - e meus caros se a Miranda não fosse referência no ramo não sei mais poderia ser). Como se fosse desajeitada ou simples demais pra toda aquela coisa - o que não é nenhuma verdade - e sentindo-se diminuída ela decide de afastar. Mas essa insegurança não nasce de Andy, pelo contrário, acompanhamos quase todo o longa uma Andy determinada e capaz de tudo pra chegar onde quer. Esse sentimento de insuficiência nasce de Andy. Quem aqui lembra quando ele duvidou que ela tenha sido contratada e insinuou que ela tenha sido contratada pelo telefone? SIM ELE ESTAVA FALANDO DESSA FORMA DA APARÊNCIA DA PRÓPRIA NAMORADA. Fora isso, durante todo o longa, vemos um namorado desmotivador, agorento e que deseja, quase resfolegando a relinchar, que tudo dê errado pra ela. Ele quer colocar Andy no local de incapaz, de que pra ela só existe o menor. 

Mas por que o menor?

Nate, muito provavelmente, sentia-se diminuído. Afinal para um marmanjo vivendo às custas de um relacionamento e dos amigos - abusivos - da namorada, ver a mesma crescer de maneira independente e se tornar requisitada no mercado de trabalho provava seu fracasso. Ele se irritava toda vez que Andy estava feliz porque algo havia dado certo. Ele usava seus argumentos pra convencer a namorada de que ela estava se tornando uma nova espécie de Miranda.

*ok, talvez este tópico tenha sido muito afetado, mas isso não o desconfigura como real*



uma nova espécie de Miranda...

Andy, apesar de admirar a garra de Miranda como profissional, sentia repulsa pelos seus atos mesquinhos e interesseiros. Para Andy, era essencial se afastar de qualquer coisa que lembrasse as atitudes de Miranda. Repelia-se automaticamente. Quando começou a ser colocado em sua cabeça que ela poderia estar se comportando igual a megera, rapidamente ela tomou outra ótica da situação, agora afetada pela perspectiva de Nate. 

Andy sente que isso pesou mais quando a própria Miranda a mostra, que sim, ela havia feito coisas parecidas. Ao responder sobre Nigel, ela aponta um ocorrido anterior com Emily. Mas Andy entendeu errado. Miranda não quis dizer: você é uma vadia má como eu; ela quis dizer: todos nós em algum momento vamos agir por interesse e colocar-nos-emos em cima do outro. E isso é tão real, puxa. Todavia, porém, Andy não queria enxergar dessa forma, e nem conseguira, pois sua visão já estava contaminada. Agora sem avaliar a situação, ela foge, abandonando seu sonhos, simplesmente por cogitar que estava sendo tão brutal como Miranda; apenas porque ela estava sendo tão má como seu namoradinho havia dito que ela seria. 

Arrependida e envergonhada, a nossa protagonista volta pra onde originalmente estava - o nada, cof, digo, um jornalzinho de nada - e terá que recomeçar tudo de novo pra chegar onde estava, algo que provavelmente ela não irá conseguir. O mais triste de tudo é que no fim resta a apenas a frustração de que mais um abusador conseguiu colocar uma vítima no lugar que ele queria, abaixo dele. 

apesar dos apesares, Miranda é melhor que Nate e Andy

Não muito de longe, Miranda observa. E temos a comprovação oficial do que o filme realmente quer falar. Maturidade. Miranda, mesmo sendo uma carrasca, quase vista como uma espécie de Calígula da moda, é quem se mostra totalmente humanizada. Longe da hipocrisia e da insegurança, ela prepara o terreno para a nova jornada de Andy, por quem tinha alguma feição e confiança, não abandonado a oportunidade de uma futura reconciliação. Apesar de se sentir traída e abandonada, Miranda sente-se feliz pela nova caminhada de Andy (e se vê nela no tipo de: eu também precisei passar por tudo isso pra entender como o mundo pode ser cruel). Verdadeiramente Miranda quer o melhor pra Andy, independente do local em que esteja e deixa-nos bem claro isso; diferente de Nate que só quer Andy bem, se este bem-estar for na posição de vulnerabilidade.  

Quando o filme acaba, por fim, temos uma Andy totalmente presa as garras de um predador, um Nate totalmente satisfeito por finalmente conseguir de alguma forma sentir-se validado e uma Miranda ainda frustrada, mas aliviada por saber que Andy se tornou, ao menos um pouco, mais segura do que antes, de quando se conheceram.


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