Musica

Akina Nakamori e Mariya Takeuchi, quando o vinho juntou-se ao champanhe

12:34

 a vez que dois ícones construíram juntas três pérolas da música japonesa


Quando Akina Nakamori surgiu no mercado musical, em 1982, Mariya Takeuchi já era um ícone da música no Japão, já sendo consagrada. Akina construiu seus primeiros álbuns com uma temática bem teen, voltada para o público jovem que acompanhava cada passo da estrela em ascensão. Mas entre 1985 - 86, a cantora estava buscando se libertar da imagem de adolescente rebelde e buscando uma imagem mais séria, mais misteriosa e sensual. No seu álbum Fushigi, que evocava uma liberdade criativa mais ampla, Nakamori já vinha dando pistas de que estava disposta a se reinventar artisticamente. 

Nakamori performando Oh No, Oh Yes

Neste cenário encontrava-se Mariya no processo de divulgação do seu - brilhante - álbum, Highlights (yasuha). Mariya estava mais criativa do que nunca e mais produtiva também. Sua parceria com seu - até então namorado - Tatsuro Yamashita (aka o rei do pop japonês), estava lhe rendendo um processo criativo extremamente original e específico, que mais tarde chamaríamos de City Pop. Essa mistura homogênea de Disco, Funk, Jazz e R&B que estilo trazia, era interessante pra diversos artistas que estavam buscando uma independência da música Kayokyoku e do J-pop. Mariya sempre foi conhecida por ser uma excelente compositora, do rock folk, passando pelo country indo até o famigerado pop synth da década de 80; não havia nada que ela não pudesse compor. Também era a Miss M, conhecida pela sua simpatia com novos artistas, acolá sua deliciosa relação com Seiko Matsuda (a princesinha comportada do J-pop e que se portava como uma espécie de "rival visual" para Akina). Dessa relação nasceram os maiores hits de Seiko: "Sweet Memories", "Crazy Me Crazy For You", "I Will Fallow You", "Watashitachi Wo Shinjite Ite." Estava evidente que como compositora e produtora Mariya era a pessoa perfeita pra entender a essência do que queria ser passado. Vendo Seiko como uma menina doce e de voz melosa, compôs-lhe inspirando em cordas leves, melodias extremamente harmônicas, num quê de romantismo na sonoridade com letras cheias lirismo plumados, como se condessasse a fofura e delicadeza numa coisa só. 

Quando se é alguém consagrado, é normal que os novos artistas mencionem-te como uma referência. E era assim que Seiko, e outras novatas que iam surgindo iam fazendo. Mariya era simplesmente a rainha daqueles anos, ela tinha vendas, tinha hits e tinham aclamação crítica e ter a sua benção era quase que como ser lançada para o mercado com a certeza de que estava preste a hitar também. Todavia porém, isso não acontecia com Akina, que preferiu manter-se distante da imagem de "baba ovo" ou "puxa-saco" construindo uma identidade independente da "benção" de Mariya e pelos anos iniciais da década de 80 essa relação foi bem fria, se não quase nula. Foi só em 1985, justamente quando Akina sabia que precisava reinventar-se que prontamente ela contatou a melhor de todas as compositoras de sua terra. Entendo que Takeuchi tinha um olhar clínico para composição e que ia entender muito bem a essência dessa nova era.

tudo parecia estar ornando

No começo de sua carreira, a cantora havia apostado em vocais mais brilhantes e até mesmo mais femininos, a medida que avançava no seu processo de amadurecimento interpretativo ela ia optando por vocais mais expressivos, centrados na região de peito e tons graves, bem como uma maior exploração do uso do vibrato, tornando este a sua marca registrada até então. Mas, como numa necessidade de explorar uma pouco mais da suas capacidades vocais, Akina então, se especializa num canto mais suave, agudo e sussurrado, mas cheio de expressividade, feminilidade e sensualidade. E foi abandonando aquela imagem extravagante e apostando numa mais frágil, em meio as brumas escurecidas, no véu da neblina, nasce o mais interessante trabalho de Akina, Crimson. É bem verdade que Akina não se entregou ao city pop, gênero este que fez vista grossa, mas adicionou influências e fartas pitadas na produção que se seguia. Aquele swing sensual do Lounge e do Disco que recorda os R&B dos anos 70 serviram como um excelente pano de fundo pra produção bem amarrada que veríamos a seguir. Vale ressaltar que Crimson lembra muito o álbum de 1978 de Mariya, Recall, que também têm uma certa melancolia embocada de alguma sensualidade. Costumo dizer que se o City Pop de Anri, Mariya e Tatsuro era o som que embalava o centro iluminado das grandes cidades, o som do Crimson é aquele que embala os bares escondidos e tardios dos becos escuros e esfumaçados destas mesmas grandes cidades. 

Mariya e Akina trabalharam juntas em sete faixas para o trabalho, que contém dez ao total. Essas foram: "Yakusoku", "Eki", "Oh no, Oh yes", "Anata-o Omeaba Koshuô", "Kazewodakishimete", "Jealous Candle" e na faixa bônus "Mick Jagger"

Yakusoko, Eki e Oh No Oh Yes...

Destas sete faixas com toda certeza a trilogia que abre o álbum é com toda certeza uma das coisas mais interessantes da música japonesa, e da música como um todo. Toda vez que eu escuto estas três faixas eu imagino um mesmo cenário: Akina está sobre sua cama, na madrugada nebulosa, próxima ao telefone, sentindo sozinha a se recordar das histórias que viveu com um amor do passado; tudo parece tão melancólico, mas também há muita sensualidade. Unir a sensualidade da voz de Akina aos acordes noir de Mariya foi mesmo uma ideia sensacional. 

Yakusoku, que tem influência nos anos 50 com uma pegada 70's, é com certeza a mais esperançosa das três faixas. O eu lírico parece abandonado, nostálgico e solitário. Akina quase que hipnotiza com suas palavras silabicamente sussurradas e o refrão quase não tem força nenhuma, justamente pra que essa fragilidade não seja quebrada repentinamente. Yakusoku é um cochicho saudoso, como quem sabe que ainda há uma chama de esperança, pois houve uma promessa que fora "jogada pelos ares" anteriormente. Quando a faixa acaba restando apenas a saudade temos que lidar com a verdade de que tudo foi apenas um devaneio e que na manhã seguinte haverão outras coisas.

 


Eki, vem logo me seguida, em cordas tradicionais, quase que relembrando aquela Akina anterior, mas aqui com alguma cautela. Dessa triologia esta faixa com certeza é a mais tristonha, é como se fosse consumação do abandono e da solidão. Construída pra ter uma característica mais romântica que a anterior, destacando os acordes em e-piano em meio a uma esfumaçada progressão de pads e cordas que no refrão chegam num clímax contido, como se de tão frustrada e cansada, Akina não tivesse mais forças de cantar; de lançar ao mundo aquele forte vibrato, e então num marasmo sentimental ela sussurra em meio às trevas da madrugada "iluminada por velas" - como ela ressalta em "Jealous Candle". Eki acabou fazendo mais sucesso que o esperado quando lançada como single promocional para "Mick Jagger" e acabou sendo remanejada como single, alcançando a posição #1 da Oricon e por lá morando por quase cinco meses. Parece que o sucesso de Eki impossibilitou uma tentativa de insistir num próximo single, visto que "Oh No, Oh Yes" passou "à sombra dela", pegando ""'apenas"" #2 quando Eki estava dominando no topo. Não foi nem de longe um fracasso, muito pelo contrário, mas figura como uma das faixas mais injustiçadas de sua carreira, porque sim merecia como nunca vibrar no topo da Oricon.



Oh No, Oh Yes, é um desvio sensual mas que não deixa de ser tristemente sentimentalista. Nessa letra em que o Eu lírico para ser a outra, Akina canta sobre como é difícil amar, como as coisas não saíram como ela planejou e sobre como ela não que ir sozinha pra casa naquela noite chuvosa. Na questão de produção, esta com toda certeza é mais interessante. Recheada com uma bateria que complementa os acordes do e-piano e aquela pad que quase está sumindo por entre as precursão. Temos então a voz de Akina dançando suave pelas batidas da bateria e depois no final temos o solo de um saxofone, que complemente na medida certa a sensualidade que a faixa evoca. 


Duas versões, duas perspectivas

Depois de todo o sucesso que Crimson teve, Akina tomou um tempo pra descansar e muito se esperava que a parceria com Mariya fosse se repetir para o próximo projeto, intitulado Femme Fatale (este que navega pelo universo da música negra, o new jack-swing de Janet Jackson e conta com vários brasileiros na produção, ouvir: U're Everything); entretanto, não aconteceu. A verdade é que nessa próxima fase Akina abandona os vocais sussurrados do Crimson, mas também não regressa para o vibrato grosseiro do Cruise ou do mistério incandescente do Fushigi; fica mais parecido que Akina está inspirada nos seus vocais iniciais, mais brilhantes lá de 1982. Outra coisa que fica de lado aqui é a imagem sensual, os tubinhos e os longos cabelos ondulados. Apostando numa imagem mais moderna, de presença e séria. E tudo isto pode estar ligado à vida pessoal de Akina, que na época estava noiva do então vereador de Tokyo. 

Nunca mais se ouviu falar de Akina e Mariya juntas. Muito se especulou na época, visto que Mariya e Seiko estão produzindo coisas juntas até a data de hoje, pelo o que se tem notícia. Em meados dos anos 90, um fervoroso boato dizendo que Mariya teria se decepcionado com uma possível atitude mesquinha de Akina teria sido o motivo do afastamento. Mais tarde foi o próprio Tatsuro que dizia odiar a versão de "Oh No, Oh Yes" de Akina e que ele e Mariya tinham uma versão bem melhor do clássico e que em breve seria lançada. A declaração fomentou rumores de um possível feud entre as duas maiores estrelas pop do Japão. 

Mariya performando Plastic Love

Não demorou em 1992 pra Mariya lançasse seu poderoso álbum Request (este que vendeu mais de 1 milhão de cópias na primeira semana apenas no Japão). Com apenas seis faixas iniciais, quase um EP, e contando com hits poderosos como "Yume No Tsuzuki" e "Shiwase No Monosahi", Oh No, Oh Yes, foi lançada como lado B de Shiwase No Monosahi, mas no mesmo ano, Mariya reditou a coisa toda e relançou o álbum durante o verão, com uma nova capa e título: "Quiet Life" inserindo nele mais cinco músicas oficias e usando sua versão de "Oh No" para promover esta fase do projeto. A faixa rapidamente alcançou o #1 nas paradas musicais e vinham como um refresco para esta nova fase, mais R&B, de Mariya. Numa produção mais clara, menos sombria e sensível, quase a música ganha uma outra conotação. Mariya tem uma voz mais presente e vocais mais firmes e claro que Akina e talvez isso tenha ajudado a música se popularizar, torando o álbum "Queit /life!" o mais vendido na China, naquele ano. Bom, ninguém sabe porquê, mas Mariya decidiu mostrar ao mundo sua otimista versão praquela música e de fato acabou fazendo mais sucesso. Todavia, no meu íntimo - eu quero deixar bem claro que eu amo qualquer coisa que Mariya faça - que eu prefiro a fragilidade da versão de Nakamori, parece-me que a faixa nasceu pra ser tão triste-sensual. 

 

 Ninguém sabe se Mariya estar apostando numa faixa lançada apenas cinco anos antes era pra confirmar o possível feud entre as duas ou se ela somente gostava muito daquela - sua própria - composição e gostaria que estivesse em sua discografia também. 

Arte

porque underneath the stars da Mariah Carey é tão sublime

13:05


Mariah é um excelente compositora. Sua carreira está recheada de poesias líricas, lúdicas e cheias de elementos formidáveis. Ela tem usado palavras igualmente fantasiosas e mágicas pra fazer o seu som todos estes anos. Mas, durante o período de criação entre 1994 e 1996 ela estava especialmente agradável. (Este é um post sobre Underneth The Stars, mas poderia ser sobre Everything Fadas Away, Melt Away, So Far (Sllipin' Away), Long Ago, Dreamlover...). Tudo neste momento estava tão doce e leve na sua mente criativa. É verdade que Mariah sempre gostou de uma sonoridade mais melódica, quase como uma coisa de fada, que pende entre Minnie Ripperton e Enya, mas Underneath The Stars, que é o maior exemplo disso, parece ter transcendido a realidade melódica e harmônica e agora paira num sublime estado de beleza sonora. 



...parece que eu estou flutuando com ela

Numa noite de verão ela fugiu por aí sei lá com quem e de baixo das estrelas eles flutuaram para outro estado da mente. Essa composição é tão sublime. Mariah parece ter vivido um de seus dias mais inesquecíveis nessa faixa (que é continuada pela também ótima Fourth Of July) e toda aquela sensação de felicidade e leveza, como se pudesse voar nos é passada com tanta delicadeza. 
No final de cada refrão, Mimi canta quase que como uma flauta "...young luv" e é exatamente isso que sentimos. Uma nostalgia  juvenil de um amor de verão antigo da época de escola. Uma daquelas lembranças inesquecíveis de uma tarde primaveril em que passeamos por aí coletando memórias encantadoras e depois mantemos isso com carinho pra sempre no coração. 

Eu fico chapado de Underneath The Stars todas as vezes que eu a escuto. É como se eu estivesse neste mesmo campo em que ela diz ser cheio de borboletas e vagalumes que na euforia da paixão sobrevoam sobre eles. É como se eu estivesse me deliciando desta mesma fantasia. Entre uma pintura de Monet e Fragonard, pixelando esta deleitosa paisagem sonora, ilusionado pelos êufonos encantos das bolinhas brilhantes que pairam no céu escuro. São imagens saudosas, capturas cativantes, sonhos graciosos.

Sweet, sweet fantasy baby...

A beleza poética deste momento sonoro não está apenas no lirismo da faixa, mas também nos vocais aveludados da Mariah que fluem como um prólogo dos cantos angelicais descritos por Ezequiel. Ela canta todos os versos tão suavemente e com tanta maciez que eu sinto sua voz acariciando meus ouvidos. Arranjos vocais que mais lembram arranjos florais. Um buquê de harmonias diversas e contagiantes. As melismas são brincalhonas, ela saltam entre notas e outras e não soam como firulas exageradas graças à agilidade vocal de Mariah, que coloca cada nota em seu devido lugar. É admirável a forma como ela transita entre um registro e outro, especialmente entre o falsete e a voz de cabeça, mas com toda certeza a parte mais fascinante, vocalmente falando, desta obra de arte são os whistles (registro de apito). Essa é a marca da Mariah. Ninguém dominou este registo com tanta propriedade, mas aqui ele não é o protagonista da faixa como em Emotions ou um prelúdio como em Dreamlover, muito menos um clímax como em Someday. Mariah sabiamente usa o registro como um adorno, um adereço poético. Os whistles estão floreando a faixa, em reverb, e você pode escutá-los ao fundo ressoando pelo céu estrelado. Eles chegam aos nossos ouvidos como estrelas cadentes, como arabescos singelos. Ela nunca soou tanto como um pássaro igual ela soa aqui. E como se tudo isso não fosse suficiente, a produção se encarrega de trazer um ambiente igualmente místico. Com batidas brandas de um baixo que nos levam pra um disco de fim de noite dos anos 70's e os glissandos do e-piano afáveis em camadas sobrepostos às vocalizes da cantora criam uma ambientação única. Você pode sentir a cada acorde e se  deliciar com as notas sussurrando gentilmente no seu ouvido os devaneios de Mariah. Toda a poética deste dia está na letra que nos transportam para o além da imaginação, nos vocais que nos tocam os ouvidos como plumas, nos instrumentos que valsam tímidos com os vocais e nas sensações que desabrocham na superfície da pele e florescem dentro de nós. 



 uma escapatória para outros escapismos 

Quando Mariah estava produzindo Daydream seu casamento já estava fracassado e ela se sentia constantemente abusada pelas restrições do marido, Tommy Motolla que na época era presidente da Sony Music. Mariah queria flertar mais vezes com o R&B e o hip hop, mas seu marido achava que isso diminuiria a capacidade de Mariah, que era simplesmente a maior estrela do momento. Ela tinha vendas, aclamação e hits. Arriscado demais tentar deixar o pop e o soul. Mas, Mariah estava determinada. 

Como uma verdadeira artista ela queria ter sua liberdade criativa e este foi o início do sentimento de liberdade que ela viria poetizar no seu próximo álbum, Butterfly. Mas enquanto Mimi não podia se separar totalmente, graças aos acordos e contratos, ao invés de cantar sobre suas dores e desafetos, ela criou um mundo de devaneios onde poderia fugir todas as vezes e esquecer toda a pressão e repressão que estava vivendo; não atoa o álbum se chama Daydream, que quer dizer devaneio (como estar sonhando acordado, imaginando coisas...). Perdendo-se em lembranças de uma época onde as cores eram mais tênues e as flores não tinham tantos espinhos, entre uma faixa e outra conseguimos absorver uma desejo inocente de escapar daquela tensão. Como uma "ponte para Terabítia" neste escape ela cria suas próprias convicções, desejos e fantasias. Figuras de outrora, romances da adolescência, papéis de carta vintage e cenários cheios do típico boculismo sulista dos Estados Unidos, de onde Mariah é moribunda. Neste excelente amontoado de faixas, Underneath The Stars é a que mais reflete este mundinho ingênuo e sonhador. É nesta canção que nós conseguimos sentir puramente a necessidade que ela tinha de fugir. 

Quando o álbum se encerra com a tristonha "Lookin' In" propondo uma reflexão pessoal sobre uma Mariah embotada de lágrimas e talvez desencantada podemos perceber o quanto estes devaneios foram importantes pra manter Mariah viva e saudável mentalmente. 

uma poesia polida...

Underneath The Stars não envelheceu. Ela poderia ser tão atual como "Say So", da Doja Cat. Podemos ver seu legado em cada nova música da Ariana Grande. Sua característica doce e jovial evoca paixões e inspira muitos jovens artistas no mundo musical.  Não sei se Mariah tinha noção da dimensão desta música quando a estava criando, mas ela nasce de uma genuína vontade de colorir os dias nublados, de manter fotografados os bons momentos independente da sensação que eles trazem, de uma expressão que precisava existir. Enquanto a catarse proposta no Butterfly não chegava, Mariah se munia de quimeras ludibriadas e com elas fazia arte. Não seria um eufemismo dizer que esta música é fantástica, uma obra de fantasia.

Enveludada num fabuloso enlevo Underneath The Stars é um júbilo cálido quase que celestial, um regozijo necessário, uma viagem pra um conto de Neil Gaiman, é um suspiro de alívio, é uma satisfação maravilhosa, é a poesia polida.





Cultura

Quem são as Wiccas e Bruxas do mercado Fonográfico?

19:04

Nomes como Enya, Björk e muitos outros vão aparecer na lista.


Stevie Nicks 


Vulgarmente conhecida como Rainha Reinante do Rock N’ Roll (que fique claro que Tina Turner também é conhecida como rainha do Rock), a icônica Stevie Nicks, vocalista da banda Fleetwood Mac, é não só uma das maiores cantoras de todos os tempos, como também uma das figuras mais perseguidas da década de 80. Quem conhece a música ‘Rhiannon’ ou já viu a cantora performá-la nos palcos, daquele jeitinho característico que os colegas de banda comparariam a um exorcismo, é capaz de especular a motivação dos haters: durante muito tempo Stevie Nicks foi associada à feitiçaria, povoando o imaginário popular como uma suposta bruxinha branca – versão da roqueira, hoje uma senhora de quase 70 anos, que acabou ganhando ainda mais força com a terceira temporada de ‘American Horror Story’, produzida como uma verdadeira ode ao misticismo que sempre existiu em volta dela – e, não por acaso, de várias outras artistas.

Embora tudo sobre Stevie Nicks nos faça lembrar do clássico ‘Jovens Bruxas’, que causou uma verdadeira ruptura no cinema dos anos 90, os boatos nunca foram realmente confirmados. A roqueira, que sempre pareceu gravitar em torno da personagem Rhiannon, negou as acusações sobre suas práticas religiosas uma série de vezes e, na década de 80, inclusive, chegou a se assustar com as perseguições que sofria, dando um tempo das roupas pretas por um breve período, a fim de não incentivar o imaginário popular. Ao longo dos anos, no entanto, a roqueira se permitiu causar algumas reações completamente opostas, como naquela vez, em 1987, quando disse à MTV que “sempre quis ser uma bruxa” em referência ao Halloween ou quando, em um papo de comadres com Lana Del Rey, as definiu como “irmãs bruxas” – um conceito que hoje consegue transcender a ideia de religião pagã para contextualizar também um poderoso e importante gênero musical que, pasmem, está cada vez mais popular.

Se Stevie Nicks se mostrou uma admiradora não praticante de bruxaria, Del Rey por outro lado, já teve lá a sua fase Harry Potter, recorrendo ao poder da magia para derrubar um grande e poderoso vilão. A cantora novaiorquina, que recentemente lançou o excelente ‘Lust For Life’, revelou ter participado de um ritual coletivo para derrubar Donald Trump, o atual presidente dos Estados Unidos, e se engana quem pensa que essa foi a única demonstração de suas práticas pouco convencionais.
Lana Del Rey já demonstrou interesse em grimórios famosos, mostrou que tem um pé na alquimia e metafísica quando colocou uma expressão associada a seitas famosas em sua descrição no Instagram e, não por acaso, costuma falar abertamente sobre suas crenças pessoais em entrevistas, sem medo, aliás, de usar aquela polêmica palavra com a letra w (witch). Mais característico do que a assustadora honestidade de Del Rey, só mesmo o seu último trabalho: ‘Lust For Life’ é um disco sombrio, no melhor estilo gótica suave, que traz, ironicamente, uma participação especial com ninguém mais e ninguém menos que Stevie Nicks, sua igualmente adorável e misteriosa irmãzinha bruxa, por quem Del Rey se derrete em admiração. Lana também já demonstrou aspectos Wicca em muitas vezes em seu visual artístico, como nos álbuns Honeymoon e Ultraviolence. E agora ela está ainda mais ligada à natureza, desde que buscou uma médium que disse à ela que isso a faria se sentir melhor consigo mesma. Todos sabem que para as Wicca a natureza é a representação direta da vida.

Se na mecânica da coisa as duas cantoras parecem divergir, em tudo o mais elas se assemelham, se tornando referências de um estilo e de um conceito que bombou com o lançamento de ‘Jovens Bruxas’ e hoje está de volta, com força total. A neozelandesa Lorde, por exemplo, trouxe com ‘Royals’ todo o combo hollywoodiano daquilo que entendemos como feiticeira: amuletos, peças de veludo, vestidos pretos e uma maquiagem pesada que chegou a ganhar coleção própria nas prateleiras da MAC. Se Lorde tem a imagem, Florence Welch tem a alma que caracteriza o gênero: a ruiva pré-Rafaelita, que se move pelos palcos como uma fada, bradando cortejos à morte, trouxe à música moderna mais daquele velho tom celestial e infernal, da reverência ao pagão e dos conceitos esotéricos e ritualísticos que pautam várias de suas composições.
Florence Welch
Florence em um photoshoot

A surpresa, aqui, não é necessariamente o discurso embutido nas músicas ou o estilo com que as performers se apresentam, mas a maneira como essas musas da música moderna vem os deixando cada vez mais populares. Enquanto Stevie Nicks foi perseguida por uma prática que sempre negou, as meninas modernas confessam abertamente suas influências e continuam, plenas, emplacando hits e mobilizando fãs mundo adentro.
Florence, aliás, era obcecada por bruxaria na infância. Em uma conversa com a revista Nylon, a inglesa revelou sem medo que, embora a sua concepção da morte seja muito diferente daquela que apresenta na letra das canções, já teve um pé na wicca quando criança: Florence compartilhou com as amigas um caderninho de magia e, de acordo com a própria, sonhava em ser uma bruxa de verdade quando crescesse. Juntamente com astrologia, cabala e filosofia, a wicca faz parte da linha de interesses de várias artistas renomadas, que levam essas ideias para os estúdios e palcos – e, muitas vezes, você, ouvinte, sequer desconfia.

Enya também é um grande nome que se pode apostar todas fichas. Afinal, a cantora de New Age (o que já se trata de um estilo inspirado na musica e cultura celta, algo muito presente na cultura Wicca.) sempre está trazendo a mitologia e o amor a natureza em suas musicas. Basta ouvir Enya e assistir seus clipes para dizer sem dificuldade toda sua forma de retratar o estilo wiccano em suas maravilhosas musicas.
Enya
Loreena McKennit também é outra cantora que se assemelha muito à estética wicca. a canção Wiccan Dance demonstra o grande fascínio da cantora para essa cultura maravilhosa. Nasceu no município de Morden, no Canadá. A aquariana do dia 17 de fevereiro traz consigo uma ascendência irlandesa e escocesa. Além de ser cantora de um maravilhoso timbre de soprano, é uma compositora, pianista e harpista deslumbrante. Seu estilo é new age, celta eclético, com tendências do Oriente Médio.


Azaelia Banks é praticante de Witchcraff assumida e só dar uma olhada no instagram dela pra ver todo fascínio que a rapper tem com a religião. Ela admitiu que por três anos fez uso e pártica da Witchcraff o que é incrível. E tudo isso veio à tona num vídeo publicado em 2016 aonde ela diz: "Bruxas reais fazem coisas reais". Seria uma grande shade pras nossas coleguinhas desse post?

Azaelia Banks

 Nostalghia é outra bruxa assumida! E não é difícil de notar isso, nas suas musicas, aparência ou modo de agir. Não há muito o que se especular dela, pois todo seu amor pela bruxaria é exposta em sua arte.
Nostalghia

A cantora Grimes, por exemplo, ficou conhecida não só pelo sincericídio nas redes sociais e pela angústia nas melodias, como também por uma suposta associação com a Witch House, um gênero de música eletrônica que envolve xamanismo, feitiçaria, obras de terror e demais “coisas ocultas”. A artista canadense não se define como parte de nenhuma religião ou grupo, mas não nega, por exemplo, ter usado a fome e a privação de sono durante nove dias para desenvolver o seu terceiro álbum de estúdio – esse, aliás, foi um famoso método de tortura contra as mulheres que foram perseguidas e acusadas de bruxaria ao longo da história.
Aurora outra cantora que também está conquistando seu espaço pela sua maneira de ser e principalmente por abraçar o estilo folk celta (sua versão para Scarbough Fair está na abertura de Deus, Salve o Rei, faixa das 19:30 da Globo). Aurora é Noroeguesa 
Grimes

Aurora
Se a música pop fundasse um coven, cantoras como Björk e Kate Bush também seriam bem vindas. A primeira, saiu da Islândia nos anos 70 para levar suas ideias elevadas sobre astrologia e ocultismo para o restante do mundo, chegando a ser eleita a personalidade mais excêntrica do planeta em 2006. Björk e a ideia de bruxaria, aliás, andam de mãos dadas há bastante tempo: a primeira banda da cantora se chamava Kulk (uma palavra islandesa que significa feitiçaria) e seu primeiro trabalho de atriz foi como a bruxa Margrit no filme ‘Juniper Tree’, um conto dos irmãos Grimm. Na China ela já foi acusada de bruxaria pela imprensa, ao se posicionar politicamente em um show, e em entrevistas ao longo da carreira a própria cantora comentou seu interesse pela astrologia e pelo ocultismo islandês.
Bjork

Kate Bush, a mulher das incontáveis ausências, também não é lembrada por acaso: músicas como a famosa ‘Waking The Witch’ fizeram com que a cantora fosse, simplesmente, reivindicada pelos grupos ocultos como parte deles. Kate não confirma e nem nega tais acusações, seguindo reservada no que diz respeito à sua vida pessoal. Ainda assim, fica a pergunta: será que uma pessoa pode escrever letras complexas em cima do sistema Golden Dawn e cultuar ídolos pagãos sem ter absolutamente nada a ver com o assunto?
Kate Bush
Religião à parte, a bruxaria enquanto influência temática e estética tem uma importância vital na música feminina que nós conhecemos e consumimos hoje, seja por estilo ou por necessidade de romper padrões historicamente machistas. Afinal, como apontou a personagem de Lisa em um episódio de ‘Os Simpsons’, quando mulheres são confiantes e poderosas, elas são automaticamente tachadas como bruxas, o que nem sempre é verdade. Na América do Norte, em seus tempos de colônia, boa parte das mulheres acusadas de feitiçaria, por exemplo, eram perseguidas por desafiar papéis e ideais de gênero prescritos, um discurso de empoderamento que foi abraçado pelas cantoras femininas de uns anos pra cá. Musicalmente falando, as “bruxas” são de vital importância, numa linha que vai de Yoko Ono, em 1974, se declarando como bruxa durante a breve separação de John Lennon; e passa por Courtney Love em 1993, num trabalho que fazia referência direta à ilustre Stevie Nicks e suas músicas muito loucas na Fleetwood Mac. O conceito midiático de bruxaria, aliás, é tão dúbio que Courtney nem precisou de livros de magia ou um caldeirão para alimentar as especulações que surgiram a seu respeito: bastou “enfeitiçar” Kurt Cobain.

Kerli
Kerli é a rainha do pop estoniano e todo mundo sabe de suas práticas de bruxaria, suas fotos respiram. a Cantora e compositora já foi nomeada a estoniana mais influente de todos os tempos. Kerli é bruxa assumida e sente muito orgulho disso. Ela já foi do Do Transhumanismo à Wicca. ela é uma artista tão aberta a tudo... Transhumanismo, alquimia, goticismo, wicca, enfim... Ela é uma cantora que se guia pela força da natureza, que é no que acredita (wicca). Seus trabalhos sempre estão envoltos nestes temas, o que é um diferencial em um cenário musical onde você tem jovens falando de amor e narrando o dia, ou sendo arrogantes com tanto de: “Eu sou, eu posso”. Sem dúvidas, é uma artista com um diferencial nas mangas.
A ideia de que as bruxas de hoje conseguiram transcender a ideia de religião pagã para contextualizar um gênero musical próprio, ganha força, principalmente, quando todas essas artistas polêmicas se conectam de algum jeito. O mais recente trabalho de Courtney Love, a eterna vocalista da banda Hole, por exemplo, é inspirado por Lorde e Lana Del Rey – desta última, aliás, a roqueira é especialmente amiga, vejam só. Este ano Lana foi entrevistada por Courtney para uma revista americana e a apontou como uma de suas compositoras favoritas, a destacando como o ápice daquilo que considera “cool”. Lana também é uma inspiração e tanto para Lorde, que é bastante comparada com a nossa querida Florence Welch. A admiração da neozelandesa pela colega de trabalho é tanta que a música ‘Green Light’ nasceu depois que Lorde assistiu a um show da Florence + The Machine com seu produtor. Admiração também é coisa comum para a cantora Stevie Nicks: além de gostar do som de Lana Del Rey e ser um exemplo para Courtney, é sabido que a a Rainha do Rock ama Kate Bush, com quem chegou a fazer um dueto inesquecível para a música ‘Secret Love’. O pop místico de Bush, inclusive, serviu como base para o trabalho que Florence e Grimes fizeram depois, sem falar de outras artistas, como a australiana Fiona Horne.

Musica

As incríveis Personas do David Bowie

10:24


Durante os anos 70, David Bowie criou várias personagens que interpretava em palco. Estes alter-egos tinham uma personalidade diferente da do próprio músico e eram eles que interpretavam as músicas para o público. Com o seu estilo provocador, Bowie interpretava essas personas com tudo aquilo que elas exigiam, incluindo roupa e maquilhagem elaboradas. Estas são as mais conhecidas.

Major Tom

É, possivelmente, a personagem mais famosa e mais reinterpretada de David Bowie. Major Tom é um astronauta que vai numa missão sozinho e perde o contacto com a Terra. Pede ao “ground control” que diga à mulher que ele a ama. “Space Oddity” foi uma das músicas escolhidas pela BBC para acompanhar a aterragem do Apolo 11 na lua.

Ziggy Stardust

Surge com o álbum The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars. Esta é uma personagem andrógina, bissexual e não se sabe bem se é da Terra ou de Marte. Aparece como uma espécie de mensageiro de extraterrestres.

Aladdin Sane

Como Ziggy Stardust teve tanto sucesso, Bowie receou que a personagem se tornasse maior que o criador, por isso o matou no ultimo show de sua turnê. Surgiu então Aladdin Sane e um álbum com o mesmo nome. Criado durante uma tournée pelos Estados Unidos.

Halloween Jack

A personagem Halloween Jack aparece no álbum Diamond Dogs e é descrito como um gato muito descontraído que vive em Manhattan. Foi a personagem usada por Bowie na tournée seguinte. David Bowie nunca o considerou como uma verdadeira persona.

Pierrot

É a personagem que surge na música “Ashes to Ashes”. A interpretação deste Pierrot tornou-se também uma referência da cultura pop. Só a maquilhagem demorava uma hora e meia a ficar pronta.


The Thin White Duke

Esta a é sua personagem mais “pesada”, apesar de parecer mais “normal”. É totalmente decadente, sem coração e viciado em cocaína. É um europeu que se debate para compreender vários conceitos como o amor e Deus. Muito desta persona reflete o próprio David Bowie.








Cultura

CITY POP: (RE)DESCOBRINDO O EXCELENTE GÊNERO MUSICAL JAPONÊS DOS ANOS 80

01:02

O City Pop representa uma feliz e madura mistura de Smooth Jazz, Synthwave e AOR, muitas vezes com elementos adicionais de Jazz Fusion, Jazz-Funk ou Boogie. Comumente citado como uma faceta da próspera “bolha econômica” japonesa, o City Pop representa, essencialmente, um gênero de estilo de vida, que fez apelo a um público japonês mais velho e financeiramente ascendente nas décadas de 1970 e 80. Tematicamente, o City Pop reflete uma vida de luxo em um ambiente sofisticado e urbano. E tem voltado com tudo agora com o movimento Vaporwave.



O City Pop é um gênero de música japonesa que foi muito popular nas décadas 1970 e 80, apresentando uma imagem cosmopolita direcionada àqueles que se beneficiavam do chamado "milagre econômico" do pós-guerra, um "boom" econômico ocorrido no Japão entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Época esta que facilitou o acesso a bens de consumo e tecnologias, influenciando não somente a economia como também a moda, comportamento e música.
O City Pop soa como uma mistura de AOR (que pode ser traduzido como “álbum orientado para o rock”), com elementos de Boogie e Disco. Alguns álbuns de City Pop apresentam uma mistura de diversos gêneros musicais, como Jazz, Blues, Synthwave e Pop. No geral, as músicas possuem uma considerável gama de instrumentos e sintetizadores, misturando saxofone com guitarras aliadas a batidas eletrônicas. A estética do City Pop também impressiona, com temas tropicais e retrofuturistas, este último fortemente influenciado pelas trilhas sonoras de filmes "cult" de ficção científica como "Blade Runner", "The Exterminator" e "Back to the Future".



É um gênero estabelecido dentro do contexto musical japonês. Os registros de City Pop foram compilados em muitos guias de livros publicados para colecionadores. Fora do Japão, o estilo pode ser visto como a “música japonesa dos anos 1980”, porém atualmente, com a propagação e modernização da música japonesa, o City Pop começou a ser (re)descoberto e até reeditado pelo grande público.
Selecionamos os cinco melhores álbuns, ao nosso ver, para que você possa ouvir e obter uma melhor compreensão do City Pop e de como este gênero musical tem íntima relação com o contexto social da época, porém aos amantes da boa música soa como algo agradável, requintado e contemporâneo. Atemporal.











Anime

A Importância e Influência de Akira. Um clássico dos anos 80.

10:47

Filme ganhou versão remasterizada recentemente. 

Sempre que alguém discute filmes clássicos, tem sempre aquele cara. Aquele cara que faz um som audível molhado quando fala e que tem um canal no YouTube só de tutoriais de vaping.

Você não pode achar qualquer outro Alien bom porque o Alien, o Oitavo Passageiro é muito superior. Não vale a pena assistir Avatar porque o filme é basicamente uma cópia de Dança Com Lobos com gatos azuis. Você não pode gostar de Deixe Me Entrar porque ele é baseado no Deixe Ela Entrar holandês, e quem manja mesmo de filmes sabe que todos os remakes de Hollywood são uma bosta.
Infelizmente, quando se trata do clássico anime de 1988 Akira, preciso concordar com esse cara. Sou tanto esse cara que quase não enxergo além da aba do meu fedora por causa da fumaça do vaping. Esse é o único filme que eu vou pagar pau descaradamente, e foda-se quantos amigos eu perder por causa disso.
Felizmente, não estou sozinho nessa. Setembro último foi comemorado o aniversário de 25 anos da Manga Entertainment — a distribuidora responsável por trazer várias animações japonesas para o Reino Unido e EUA — e Akira já ganhou três lançamentos no Reino Unido, e atualmente está passando em 70 cinemas do país.

Quem já viu o filme provavelmente já é fanático por Akira. Quem ainda não assistiu, eu aconselharia desmarcar qualquer coisa que você vá ver na Netflix hoje e ir assistir o filme (que ainda está no catálogo da Netflix.). Por quê? Porque o título é um dos mais influentes dos últimos 30 anos, e é um favor que você faz pra si mesmo. SIM!


Passada numa Neo-Tóquio depois da Terceira Guerra Mundial, a história segue uma gangue de motoqueiros adolescentes rebeldes, especificamente Kaneda e Tetsuo, enquanto ele cruzam acidentalmente com um projeto militar que planeja usar humanos com telecinese como armas. Tetsuo é capturado pelo governo e logo fica claro que ele tem poderes telecinéticos que rivalizam com a arma mais poderosa do projeto, um menino chamado Akira. Aí — bom não vou dar spoilers, mas basicamente a coisa toda explode da maneira mais foda possível.
Considerando como a cultura japonesa é parte do mainstream no mundo ocidental hoje, é difícil imaginar que antes do lançamento de Akira em 1989, o Japão e a sua arte, cozinha e animação eram alienígenas para a maioria do Ocidente. Tanto que quando ofereceram a Stephen Spielberg e George Lucas a chance de trazer Akira para os EUA em 1987, eles recusaram, dizendo que o desenho não atrairia o público ocidental.
Estranho, porque o diretor e roteirista do filme Katsuhiro Otomo emprestou muito do que era popular no cinema contemporâneo e clássico do Ocidente na época. Tematicamente, vários aspectos do filme lembram Juventude TransviadaVideodrome de David Cronemberg, Blade Runner de Ridley Scott e 2001: Uma Odisseia no Espaço. O filme até faz referências fortes a E.T. e Guerra nas Estrelas.


A combinação de distopia cyberpunk com influências do biopunk, alienação adolescente, ficção científica e bombas visuais de grande escala de Akira já era parte do gênero de sci-fi ocidental nos anos 80, e seu apelo ficou evidente quando o filme fez $ 49 milhões de dólares em bilheteria mundialmente quando foi lançado no cinema — uma quantia considerada muito dinheiro para qualquer filme na época.
Falando sobre como a empresa começou, o cocriador da Manga Entertainment Andy Frain contou para a Manga UK: "Comecei a achar que [Akira] era mais que um grande filme — ele poderia ser um fenômeno. Havia mais filmes assim no Japão? Se sim, poderíamos tratá-los em termos de música, como a Def Jam: um gênero em si".

Influência biopubk em Akira
Foi a primeira vez que o ocidente se envolveu com a cultura japonesa em massa, e isso causou um impacto considerável: a influência do filme ainda é óbvia por todo lado. Nas áreas de cinema e televisão, é fácil ver como o título moldou o sci-fi moderno como o conhecemos. Filmes como Destino EspecialPoder Sem Limites e A Origem pegam muito emprestado da temática e estilo de Akira. Dois desses três filmes até têm uma criança com poderes telecinéticos destrutivos central no enredo. Outro filme influenciado foi Looper: Assassinos do Futuro. O diretor Rian Johnson disse recentemente numa AMA do Reddit: "Você pode ver a gama de coisas onde me inspirei, de Exterminador do Futuro a Akira".
Na TV, o seriado da Netflix que é uma carta de aos anos 80, Stranger Things, se baseia na personagem Eleven, outra criança treinada por um grupo sombrio para usar seus poderes de telecinese como arma. O filme abriu caminho para Pokemon, Neon Genesis Evangelion, Sailor Moon, Digimon, Cavaleiros Do Zodíaco, Naruto e Dragonball se tornarem fenômenos culturais. Akita também é uma grande influência pra movimentos artísticos, como o V a p o r w a v e, uma das maiores influências aliás. Por resgatar aquele futuro nostálgico oitentista, que é a essência do vaporwave.

Cartaz de Akira em uma arte do movimento Vaporwave.

Fora o cinema e a TV, o filme também influenciou vários músicos. Kanye West já falou sobre seu amor por Akira e até baseou o clipe de "Stronger" em sua narrativa, basicamente interpretando um Kanye/Tetsuo como protagonista. O diretor Hype Williams disse sobre Ye e o clipe na época: "Ele sempre se inspirou em Akira. Em certo ponto, acabamos mergulhando de cabeça e filmamos partes do filme para o clipe, mas decidimos voltar um pouco atrás e fazer uma versão mais abstrata no final".


A musica do Kanye não é a única que recebe influência direta do grande clássico Akira. Gêneros resultantes da sensação nostálgica, assim como o vaporwave, usam e desusam a imagem e estética de Akira para fundir e dar uma sensação mais completa à sonoridade. Entre estes estilos estão o City Pop, Synthwave, Retrowave, Future funk e Retro Electro.



A trilha sonora revolucionária de Geinoh Yamashirogumi rendeu uma série de discos de remixes da Bwana ano passado, a Capsule's Pride.

Fica claro quanto o filme influenciou a cultura ocidental desde que foi lançado 28 anos atrás. Foi o primeiro caso de um filme japonês que logo de cara foi apreciado pelos críticos no EUA e Reino Unido. Akira abriu as comportas não só o anime, mas para que toda a cultura japonesa fosse aceita pelo público ocidental.

Então, se você não viu o filme, não perca a chance de assistir agora. Vou tentar não atrapalhar sua visão com o meu chapéu fedora.

Cultura

Vaporwave: Tudo o que Você precisa Saber!

16:39

O que é Vaporwave? E porque sua estética dominou tanto assim a internet?




VAPORWAVE ***

A pop art criada por Andy Warhol e Roy Lichtenstein foi um dos últimos grandes movimentos artísticos, lá nos anos 1960. Embora não tenham o mesmo tamanho e importância, outros estilos surgiram na internet recentemente e dominaram algumas culturas underground, também chegando ao mainstream. Você já deve ter visto imagens na internet que misturam esculturas neoclássicas em mármore com computadores dos anos 90 em uma paleta que sai de tons do azul pra rosa que podem ainda conter coqueiros e golfinhos, por exemplo. Se sim, trata-se da estética vaporwave.





No início da década de 2010, algumas comunidades virtuais criaram o termo, que surgiu primeiro como um gênero musical e, depois, evoluiu para um movimento artístico. O que essas comunidades tinham em comum era a obsessão nostálgica pela cultura retrô dos anos 1980 e 1990, video games, tecnologia, cultura e publicidade nipônica pós-moderna. Musicalmente falando, eles sabiam de tudo sobre lounge, jazz suave e música de elevador. Com a facilidade de produzir músicas no computador, essas pessoas passaram a desenvolver seus próprios trabalhos utilizando samples com a tonalidade sonora modificada e várias camadas de distorção. Já o motim era a crítica ao consumo, cultura popular e alegorias do new age.

“A nostalgia é uma ferramenta de venda extremamente poderosa. Marcas estão aproveitando o conforto e a autenticidade do passado para reinventar ou reutilizar produtos com um ar retro”, explica Lívia Nottoli, expert do portal de pesquisa de tendência WGSN.
Para ela, a razão por trás do crescimento do movimento digital está exatamente na nostalgia. Uma vez que estamos ficando inseridos irremediavelmente no mundo virtual, é normal buscarmos elementos do passado como uma maneira de equilibrar os dois universos. “Designers visitam novamente designs icônicos, aplicando tratamentos modernos a clássicos retrô. O espírito anárquico da New Wave dos anos 1980 inspira designers a injetar produtos com energia e individualismo, enfocando cores em octano forte, grafismos vibrantes e personalização criativa”, completa.



O Movimento artístico intitulado Vaporwave não compreende apenas usuários do Tumblr fazendo montagens maravilhosas, vai além disso. É um movimento social, estético e audio-visual. O movimento Vaporwave possuiu toda uma estética própria criada pela sensação de nostalgia e consumo que os anos 80's trazem. 

A musica 



Se imagine depois de um dia cansativo de trabalho sentado em frente à janela enquanto a chuva cai lá fora, em um japão cyberpunk, mas oitentista ao mesmo tempo. Pronto, você imaginou a musica Vaporwave. A maneira de fazer musica desse movimento é baseada no slow motion, soft-jazz, city pop, future funk com uma mistura de J-funk oitentista e synthwave com várias e várias samples de musicas que lembram ou são originalmente dos anos oitenta, mas tudo isso soando de um jeito bem natural e original, sem parecer uma mistura bagunçada.  

O que se sente ao ouvir Vaporwave? A sensação comum é a de um prazer nostálgico, uma ânsia por tempos mais simples em que a tecnologia nos dava prazer antes de nos ter transformado em escravos, imiscuindo-se em cada aspecto das nossas vidas. Mas também há um outro tipo de prazer, uma anestesia, um torpor, o efeito sedativo que alguém sente ao adormecer em frente a uma grelha de programação de madrugada, com aquela música ambiente de fundo. E como esse prazer tem raiz em algo abstrato, vazio, inexplicável, desprovido de significado e emoção, há qualquer coisa de etéreo e alienante nesta música, que nos convida para o seu mundo irreal e narcótico fazendo-nos sentir irremediavelmente perdidos. A intenção é, aliás, que haja aqui qualquer coisa de não humano, de artificial, como se fosse um som criado por máquinas, para pessoas.


As comparações com a pornografia não são injustificadas, dada a natureza repetitiva da música, a importância dada à textura em detrimento da percussão, que faz jus à melhor música ambiente, as vozes suaves e arrastadas, o puro, simples e autêntico prazer. Numa era em que a palavra porn é usada como apodo para caracterizar tendências artísticas (torture porn”, “food porn”, “synth porn”), talvez o vaporwave possa ser descrito como nostalgia porn.

Todas as analogias apontam para os efeitos de uma droga, o que talvez explique este bizarro vídeo de Oneohtrix Point Never (alias de Daniel Lopatin, músico nova-iorquino de renome), feito para servir de acompanhamento visual a uma das suas Eccojams, uma das primeiras obras que deram origem ao género no início da década de 2010.


Desde então, a sonoridade rapidamente se disseminou, partindo de fóruns e redes sociais como o Tumblr e o Reddit, até se infiltrar na comunidade de produtores de laptop, uma geração educada no seio do cinismo da arte e da alienação causada pela tecnologia, para depois se cristalizar e tornar um dos mais importantes géneros de música electrónica contemporânea, fenómeno que atesta não só a vitória dos que sempre defenderam a liberdade do sampling e dos plunderphonics bem como os que acusam este início de século de ser artisticamente vazio.
A designação deste género é coerente com a sua natureza intangível: deriva de vaporware, um tipo de software que é anunciado ao público mas que não chega a ser programado, isto é, que nunca chega a existir.
O primeiro género musical nascido inteiramente online e completamente globalizado assume-se como sátira e forma de reciclagem, aproveitando para si os restos da cultura de consumo dos anos 80 e 90, vazia de significado e sentimento, cuja única produção cultural destinava-se a anestesiar ainda mais os consumidores que tentava desesperadamente atrair. É irónico que tenha uma origem e uma existência tão vápidas como a cultura que tenta criticar, mas, afinal, talvez seja esse o objectivo.
Criado por e para um público que usa a tecnologia num sentido quase Cronenbergiano (lembremos sobretudo ExistenzVideodrome ou até mesmo Crash), em que ela deixa de existir como entidade física e separada de quem a usa e adquire uma conotação virtual e imaterial, a própria palavra vapor denuncia essa natureza de uma música que nunca existiu verdadeiramente e que se dissipa facilmente depois de ouvida. Tal como o mundo tecnológico que habita e que usa como meio de propagação, o vaporwave não é real, mas mimético, feito para parecer real.
Seguindo a tradição da melhor música ambiente e electrónica, o objectivo de quem faz esta música, afinal (se é que há objectivo), é o de transportar o ouvinte para um mundo onde ele nunca tenha estado, onírico e surreal, mas simultaneamente familiar e nostálgico, pleno de referências conhecidas, para o manter emocionalmente envolvido. É talvez esta dicotomia que surge do confronto entre o passado e o futuro, entre a memória e o sonho, que provoca tanto prazer. Um prazer vicário, mas não menos intenso. E um prazer universal, transmitido por uma linguagem universal, a música. O prazer de a ouvir é ser imerso num mundo inteiramente artificial de beleza imensa.
Vozes femininas sussurradas. Simples melodias de piano. Ambient drones. Suave percussão sintetizada. Todos flutuam e existem num mundo próprio, sonhado por máquinas, vivido por humanos. Todos são familiares ao ouvido, pelo menos para quem nasceu no mundo globalizado e pós-moderno de capitalismo de consumo da segunda metade do século XX.



Embora o próprio Daniel Lopatin, conhecido como um dos principais progenitores do género, tenha admitido que fez as Eccojams por brincadeira, é impossível ignorar o seu interesse nas suas possibilidades estéticas. Afinal de contas, é ele o autor de obras de electrónica pastoral e melancólica, inteiramente instrumentais, feitas a partir de sintetizadores analógicos de antanho, como o tríptico Rifts (descrito pelo Village Voice como serenidade tingida de desolação), que evocam tanto o minimalismo de Steve Reich como a electrónica sequencial de Tangerine Dream ou dos primórdios de Steve Roach. E foi ele que desde o início, naturalmente, viu o potencial alienígena (e alienante) desta música e dos seus instrumentos:
“Analog polysynthesizers naturally lend themselves towards the alien because they strive and fail at mimetic representation.”

Mas também há um lado nostálgico, confortável e inconfundivelmente humano nesta música.
Talvez a sensação seja a de passar a eternidade num centro comercial, enquanto criança muito nova, meio perdida, na secção dos brinquedos, ou em adulto naquela secção recôndita do Toys “R” Us que vende consolas antigas em segunda mão, ouvindo aquela muzak a tocar no sistema de som, sendo incapaz de sair, impedido por forças sobrenaturais que não se conseguem controlar ou compreender, e no entanto querendo ficar lá, embalado pela estranha mas agradável sensação de conforto, nostalgia e prazer entorpecedor. É ficar preso no tempo e não querer sair.
Ou talvez a de entrar num centro comercial, esperar que toda a gente saia, e passar lá a noite, a vaguear sem rumo, com a música a tocar e as luzes ligadas, como alguém que procura refúgio enquanto um zombie apocalypse devasta o mundo lá fora.



Brincadeira ou não, o vaporwave tinha de acontecer inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, enquanto forma de arte e gênero musical, bem como sátira, ironia escrachada ao capitalismo e consumismo ao lado do comentário social. Nós, as gerações que cresceram numa sociedade ocidental de capitalismo de consumo, particularmente nos Estados Unidos, nos anos 80 e 90 (e talvez ainda os 60s e 70s), fomos forçados a engolir uma contínua torrente de anúncios e obras de arte audiovisuais sem mérito artístico, vazias de sentimento, significado, beleza e humanidade, manufacturadas com o único propósito de vender marcas (quer essas marcas fossem produtos de consumo ou gente famosa), sobretudo pela televisão e mais tarde a Internet.
Como a fast food que anunciava, essa cultura levava ao espectador uma sensação de conforto e satisfação imediata, que era agradável e viciante, bem como um vazio e uma alienação que se prestavam à sátira. Combinando estes traços com a obsessão e o fascínio da música electrónica pelo passado, e a tendência para a apropriação de formas musicais antigas pelo sampling, partindo sobretudo dos géneros modernos do hip hop, downtempo, trip-hop e chillout, assim nasceu o vaporwave, que portanto serve o duplo intuito (ou, melhor dizendo, evoca os sentimentos, uma vez que claramente não tem um intuito) de nos fazer regressar a tempos mais simples (para muitos de nós, a infância) em que as nossas minúsculas e irrelevantes dores podiam ser facilmente curadas pela droga Technicolor do prazer imediato e desaparecer mediante o mundo colorido e fantástico dos videojogos e da TV, assim como revelar a verdadeira natureza disso tudo, e de nos confrontar com os nossos próprios vazios emocionais.
Como se nos estivesse a dizer “Isto é o que tínhamos. Era tão frívolo, mas tão bom.”
É impossível não sentir um certo prazer nostálgico quando se ouve esta música, porque nos devolve à infância, a ser um miúdo outra vez, com as suas melodias e os seus ritmos simples, fáceis de degustar para palatos pouco sofisticados e exigentes, mas também um sentimento de remorso e tristeza (ou talvez melancolia) porque nada daquilo tinha significado e a parte mais profunda, sensível e espiritual da nossa humanidade deseja que o tivesse. Olhando para trás, para todas aquelas horas de anúncios, cores saturadas e melodias que ficavam no ouvido, tudo parece não apenas vazio mas surreal, o que assusta porque há apenas duas décadas que nos separam desse mundo.
Alguém disse que o vaporwave tenciona “expor as falsas promessas do capitalismo”. De facto, ele prometeu-nos puro êxtase e felicidade eterna, e deu-nos nada. E agora, crescidos, adultos, sentimo-nos como o homem do anúncio do Demerol, confusos e embriagados.

A musica vaporwave ainda se inspira no J-funk dos anos oitenta, como de canções como 1984 da cantora Junko Yagami ou Plastic Love da cantora Mariya Takeuchi.


O vaporwave parece ter nascido desse vazio, de todas essas horas passadas em frente ao televisor, ébrios de cores saturadas, melodias viciantes, sorrisos falsos, dentes branqueados e gasosas geladas. E no entanto, não o condena explicitamente, nem na sua aparente forma de sátira. Ao invés, nutre pelo passado uma certa ternura, que seria comovente não fosse pela ausência de emoção que o caracteriza. Pelos primórdios do digital, pela glitch art, pelo VHS, quando a tecnologia era artificial, etérea e idealizada, longe do realismo do HD.

Adora os saltos da fita de cassete e a estática do analógico como os produtores e DJs de hip hop adoram o scratch do vinil. Adora os separadores do Weather Channel, as grelhas de programação dos canais de televisão pública, os logótipos e os startup sounds do Windows, os gráficos rudimentares dos anos 90, a tipografia asiática. Adora o slow motion, o white noise, o loop e o glitch. Venera e fetichiza tudo o que é obsoleto, abstracto e vazio, e despe-o de significado e emoção, reduzindo-o até ao mais puro surrealismo. E no entanto esta intencional estética lo-fi não é seguida por uma questão de pureza, porque não demonstra uma atitude consciente em relação aos objetos da sua inspiração. Parece adaptar as suas formas sem exagero ou caricatura, mostrando-as como elas são, sem qualquer juízo de valor artístico.


O efeito é inegável: basta ler os comentários do YouTube, que se tornou um enorme repositório de obras e pedaços do género, e inevitavelmente dar de caras com o depoimento de alguém que sente essa nostalgia por um passado de conforto e serenidade, ainda que não o tenha necessariamente vivido.
Nesta era pós-sampling, em que o dique já rebentou, e já não se debate a sua legitimidade, sendo uma realidade tão omnipresente na produção musical, o vaporwave apropria-se do passado com o mesmo vazio emocional que caracteriza a fonte das suas escavações. Não tenta criar algo de novo ou artístico, mas sim representá-lo, como Warhol, Lichtenstein ou Duchamp. Às vezes com ternura, às vezes com nostalgia e saudade, outras vezes com um distante niilismo.


* Os processos são os mesmos do hip hop e da electrónica (slow motion, pitch shifting, time-stretching, delay, cut ’n’ paste, reverb, uso de drone e white noise), com uma ênfase no slow motion (há uma obsessão em abrandar sons até se tornarem surreais, oníricos e hipnagógicos), mas não há uma tentativa de criar algo novo ou sequer com mérito artístico. Não há recontextualização, porque não há contexto.
As fontes das samples são inequívocas a traçar o perfil do género: pop, soft rock, r&b e funk dos 80s e 90s, mas também o lado kitsch, ambiente e genérico da música instrumental, como smooth jazz, muzak, lounge, new age e qualquer coisa que passaria nas colunas de um supermercado ou no elevador de uma empresa.
As vozes são abrandadas, as notas prolongadas, as batidas atrasadas, até o surrealismo tomar conta e tudo perder significado, e não haver nada mais a não ser uma névoa de prazer narcótico, calmante e convidativo, mas também frio e distante. Tal como os supermercados ficaram parados no tempo e ainda passam os mesmos hits dos anos 80 e 90, também o vaporwave ficou preso ao passado, demasiado confortável para se abandonar. Como seria de esperar de um sub-gênero de música electrónica fortemente apoiado no sampling, o que o tempo esquece, o vaporwave recupera e celebra. Até porque o tempo, neste universo paralelo, não existe. É obliterado neste deserto estético onde nada importa a não ser uma sensação de absurdo e o prazer que só a nostalgia proporciona.
O sucesso do vaporwave, para aquele que é manifestamente um gênero de nicho, explica-se porque há qualquer coisa dentro de nós que anseia por conforto, sossego e paz de espírito. Pela anestesia do mundano. Como quem adormece em frente ao Weather Channel ou gosta de ver grelhas de programação.


Infinity Frequencies, um dos produtores mais conhecidos do género, define a sua música com a frase:

“When computers sleep, they dream”

A recém-nascida editora Dream Catalogue, sediada em Londres (ou em Neptuno, quem sabe?), fundada em 2014 (ou, segundo a própria, em 2814), que se descreve como “Record label, installing dreams into your brain”, assume o objectivo de lançar música não sob o signo da ironia e do capitalismo, que tanto caracterizou as primeiras obras do género, mas sob o estandarte de sonhos melancólicos de fuga para um mundo distante, livre de isolamento e solidão, propagando o género para a frente, numa direcção nova e positiva.
Dois dos seus álbuns mais importantes, HK e 新しい日の誕生, lançados em 2015 pelo fundador da editora, Hong Kong Express, assumem como seu ethos nada mais que a beleza, a melancolia, a utopia e o escape e como principal e inegável influência estética o mundo urbano e decadente de Blade Runner, encharcado de néon e chuva torrencial, com os sintetizadores da sua banda sonora a servir de paleta sónica.

O vaporwave é a música da alienação, do absurdo e da nostalgia, feito à medida do público do século XXI, um público anónimo e globalizado, conectado, mas desligado da interacção humana. Sabe o quão vazia e absurda é a época em que vive, e abraça-o com gleeful abandon, apropriando-se do passado, imaginando o futuro, recusando-se a viver no presente. Num mundo que muda tão rapidamente, em que tudo é um nicho, perante a impossibilidade de acompanhar tendências e uniformizar o que quer que seja, haverá forma mais eloquente de caracterizar o que significa viver no início do século XXI?



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A estética desse movimento é marcada pela ode ao Windows 95, neo-classicismo e designe gráficos da internet noventista, iniciação do windows e games Atari. A estética sempre reforça o uso das cores primárias que lembram em algum momento o arco-ires.  VHS e MTV também são marcas registradas da estética do vaporwave. Lembrando que foi nos anos 80 em que a MTV explodiu com seus clipes maravilhosos. 




Essa vibe ainda pega onde nos animes oitentista e noventistas como Sailor Moon, Akira e Neon Gênesis Evangelion. Como se trata de um movimento que tem uma força considerável entre os jovens, muitos deles são adeptos à estética sem necessariamente gostar das músicas. Elementos dos anos 1980 e 1990, glitch art, design gráfico antigo, bustos romanos, paisagens tropicais, cultura japonesa e muito rosa e azul (devo falar isso sempre) compõe essa estética, que começou em fóruns onlines como o Reddit, Tumblr e 4chan, e transbordou ao angariar milhares de adeptos ao estilo de se vestir Vaporwave.

Existe até mesmo uma fonte que foi popularizada em nome do Vaporwave. E isso é bem valioso, pois vemos o esforço em que o movimento tem em se popularizar logo. Você pode acessar um site bem legal que permite converter qualquer fonte pra famosa font vaporwave aqui





Reconhecimento Cultural

Terá o vaporwave mérito artístico? Não é esse o objetivo. Talvez o seu mérito seja ter-nos permitido ser verdadeiramente democráticos no nosso amor à música, e dizer abertamente que gostamos de música de elevador, lounge, muzak, new age, ambiente e todas essas formas de música instrumental aparentemente ridículas ou foleiras, sem medo de ser alvo de troça ou acusações de mau gosto.
Serão os seus autores lembrados? Não interessa. O anonimato é a regra do jogo aqui, para um público incógnito e globalizado, que se regozija perante o prazer de permanecer oculto num mundo sem privacidade. É assim que mantém a sua magia, despindo-se de identidade (e de humanidade). Eccovirtual comunga deste sentimento:
“The whole appeal of vaporwave is its use of remaining unknown, that in a world where nothing is private it is refreshing to find something that feels like it was found in the dumpster of a thrift shop. Where it does not matter where it came from or who made it, only that it takes you elsewhere, somewhere distant from reality.”



Qual o futuro do vaporwave? Aparentemente vazio, como a cultura de consumo que parodia e representa, a julgar por um género com tão pouco respeito por si próprio, encarado por tantos como uma piada, tão dependente dos objectos que satiriza e apropria.
Quando, daqui a vinte anos, adultos procurando nostalgia regressarem ao início do século XXI, encontrarão uma era culturalmente vazia, feita de sátira, cinismo, sons sintetizados, colagens, falsos objectos e outras formas de expressão fingidas e arrogantes. Uma vez que os movimentos satíricos necessitam de objectos para troçar e o vaporwave obviamente não pode satirizar-se a si próprio, implodirá e deixará de existir, e as pessoas procurarão formas mais sinceras de expressão artística. Talvez a sátira, tal como o cinismo, ficará obsoleta pelos meados do século XXI, e a sinceridade e o sentimento honesto serão a nova moda. Este é o problema com o excesso de ironia, sarcasmo, distanciamento, desconstrutivismo e falta de seriedade nos tempos pós-modernos, sobretudo a partir do final do século XX. Leva-nos a um vazio emocional.

Será que rejeita a cultura empresarial e consumista pela sua decadência e vacuidade, ou abraça-a pelo seu hedonismo desenfreado? Será que tem pretensões ou objectivos a cumprir? Será arte ou anti-arte?  Algum artista do Mainstream como Lana Del Rey, Björk ou Britney Spears irão levar o gênero musical para o gosto popular? Nada disso interessa.

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