Mariah é um excelente compositora. Sua carreira está recheada de poesias líricas, lúdicas e cheias de elementos formidáveis. Ela tem usado palavras igualmente fantasiosas e mágicas pra fazer o seu som todos estes anos. Mas, durante o período de criação entre 1994 e 1996 ela estava especialmente agradável. (Este é um post sobre Underneth The Stars, mas poderia ser sobre Everything Fadas Away, Melt Away, So Far (Sllipin' Away), Long Ago, Dreamlover...). Tudo neste momento estava tão doce e leve na sua mente criativa. É verdade que Mariah sempre gostou de uma sonoridade mais melódica, quase como uma coisa de fada, que pende entre Minnie Ripperton e Enya, mas Underneath The Stars, que é o maior exemplo disso, parece ter transcendido a realidade melódica e harmônica e agora paira num sublime estado de beleza sonora.
cenários aconchegantes...
Com toda certeza Manoel Carlos é o autor de novelas mais refinado da teledramaturgia brasileira. Há uma coisa aconchegante nos seus textos. Aquelas situações tão cotidianas e aquele diálogo despretensioso que quase te convidam a fazer parte daquela situação. É uma conversa no café da manhã, é uma conversa na fila do banco ou até mesmo com uma desconhecida no elevador. Não é um assunto sobre um acontecimento do roteiro, e nem mesmo pretende ser, é uma conversa sobre o clima, sobre o calor, sobre um desencontro ou sobre as últimas férias de verão (já que no universo do Maneco ter férias de verão é uma realidade) e suas possíveis desventuras. Esse diálogo não está ali pra movimentar a trama ou se quer pra dar andamento na história, ele surge como um recurso de ambientação. Como uma estratégia pra aproximar o público daquela burguesia boêmia e cheia de "white people problems" e de certa forma ele consegue fazer isso muito bem.
Eu jamais foi ao Leblon (fui à praia somente duas vezes) e se quer sei o que é passar a manhã numa mesa de café gigantesca debatendo sobre a violência urbana do Rio, mas eu consigo me sentir inserido neste cenário justamente por ser uma conversa tão cotidiana, às vezes trivial. É a conversa que eu teria com meu amigos ou minha mãe na hora do desjejum ou do almoço. Provavelmente se eu estivesse num elevador com uma pessoa desconhecida ou até com um vizinho menos íntimo eu estaria reclamando do calor, isso é tão real. É uma conversa corriqueira, simples e tão presente no dia a dia. Estes cenários tão confortáveis criam escapes quase que imperceptíveis para o telespectador. É a casa da vó, é um aras com cheiro de roça, é uma ida a pracinha com as amigas, é uma festa junina de bairro...
tempo pra respirar...
Maneco possuí verdadeiros melodramas. Isso é, são tramas tipicamente novelísticas e dramáticas. Ora pois, uma mãe que perde o próprio namorado para filha adolescente que mais tarde sofre de um câncer e esta mesma mãe como um último recurso pra salvar a filha decide engravidar. São dramas que poderiam render novelas cheias de peso e carga emocional demasiadamente pesada. Quase uma tragédia grega, mas ele nos dá constante momentos pra absorver a trama e digerir o que vai acontecer ou está acontecendo com tanto naturalismo que nós nem se quer percebemos isso.
Tomemos por exemplo o argumento inicial de Por Amor: Helena (Regina Duarte) é uma mulher de meia idade bem resolvida e com alguns relacionamentos fracassados. Sua filha, Eduarda (Gabriela Duarte) que se comporta como uma mimada e por vezes ingrata sofre dois abortos seguidos e corre risco de não poder mais ser mãe. O inesperado é que Helena descobre estar grávida de um de seus casos, Atílio (Antônio Fagundes) e coincidentemente Eduarda também se descobre grávida na mesma época. A gravidez de Eduarda é de risco e pode ser a sua última. Todavia, contudo, no dia do parto de Eduarda (que ocorre no mesmo dia do parto da sua própria mãe; cara isso é tão novelístico) seu filho acaba morrendo e tomando conhecimento disso e de que Eduarda não vai mais poder ter filhos por sérias complicações no útero, querendo evitar que a filha tenha um casamento fracassado, mais uma decepção ou que venha sofrer, Helena troca seu bebê vivo pelo filho morto da filha. É de uma irresponsabilidade sem tamanho, de uma falta de ética quase sem noção, mas parece algo que uma pessoa real faria. Que uma mãe cansada de ver uma filha sofrendo por não conseguir ser o que tanto queria: mãe. É importante dizer que essa troca de bebês não acontece no primeiro capítulo, nem no primeiro mês, muito menos nos primeiros cem capítulos, mas sim na metade da novela. Entre um aborto e outro nós temos tempo pra respirar e o mais importante nós temos tempo pra nos preparar pro quê se virá a seguir. E depois que veio, nós temos mais tempo pra digerir tudo, pra que assim no capítulo final o embate aconteça, encerrando assim um ciclo com aqueles personagens.
Ele cria um conflito, nos apresenta, nos prepara, desenvolve-o e resolve-o nos deixando imaginar o que se virá depois. No meio do dramalhão ele insere cenas de pessoas simplesmente andando por Ipanema ao som de alguma bossa de Tom ou João Gilberto, ele insere outros conflitos que são tão puramente rotineiros como o corte da energia porque alguém simplesmente teve preguiça de ir pagar ou até mesmo um personagem contemplando uma árvore por quase um minuto inteiro sem dizer nada. Então há um equilíbrio, uma temperança que passa naturalidade nas questões. A verdade é que essa trama sem esses espaços com certeza chamaria muito a atenção, mas não iria parecer tão real quanto pretende ser. E o curioso é que esta temporalidade mais lenta poderia até afastar o público, mas o sucesso de audiência de Por Amor em suas quatro reprises mostra o contrário.
as relações humanas e a sensibilidade
Quando Helena percebe que Eduarda não consegue produzir tanto leite quanto a criança demanda ela passa a amamentar a criança. No começo Eduarda acho lindo, mas depois ela se sente enciumada de ver a mãe tão próxima do seu bebê. Ela se sente menos mãe com isso, como se não fosse capaz de cuidar da criança. Isso gera um primeiro conflito. Depois disso, Helena querendo que a criança tenha uma amamentação digna passa a ir na casa de Eduarda quando ela está trabalhando e amamenta o menino às escondidas. Quando descoberta acaba vindo um outro conflito. Mãe e filha ficam estremecidas e Eduarda sente que sua maternidade está sendo questionada de alguma forma. Mais tarde, Atílio descobre a verdade, que ele é o pai do bebê de Eduarda e confronta Helena. Tal acontecimento o chateia de tal forma que ele decide quebrar definitivamente sua relação com ela, que prefere manter a mentira. Contudo, situações acontecem e eles precisam conviver, gerando um estranhamento e é neste clima que a novela termina, com um clima de distanciamento, mas também de cumplicidade entre os dois. E nós ficamos sem saber se eles vão conseguir curar esta uma relação algum dia.
A cena final da novela, em que Eduarda descobre a verdade lendo o diário da mãe gera uma das mais lindas cenas (bem como uma das mais fascinantes) da teledramaturgia brasileira. Novamente Eduarda se sente ameaçada e com toda razão ela esbraveja pra cima da mãe. Ela não consegue aceitar que não conseguiu ser "mãe" o suficiente pra gerar um bebê saudável, mas agora já amando o Marcelinho, se desespera com a ideia de que ele não seja tão dela e por consequência dela seja tomado. São tantas questões se passando na cabeça de Eduarda que ela se quer sabe expor tudo e fica um diálogo confuso da sua parte. Helena diz algo como: "Você acha que eu seria capaz de te tomar o Marcelinho? Que eu seria capaz de te dar ele e depois tomar? Se eu fiz isso foi pra te ver feliz. E agora eu iria ser capaz de causar a sua infelicidade?" Essas frases ditas por Helena justificam seu ato egoísta com muito louvor. Ela é humana, não é uma protagonista perfeita, idealizada. É uma mulher que tem suas motivações e algumas delas são tão egoístas que só poderiam ser puramente humanas.
Há uma sensibilidade no texto do Maneco. Ele é casual, mas profundo. Essa forma tão delicada de abordar as relações humanas é o que me fascina mais nas suas histórias. Os conflitos de convivência com certeza são os maiores vilões das novelas dele, que não escreve vilões. Alma (Marieta Severo), Eva (Ana Beatriz Nogueira), Marta (Lília Cabral) ou Branca Letícia (Susana Vieira) podem até parecer vilãs, mas quando você observa o dissecamento dessas personagens, percebe que são tão presas em suas bolhas ou tão amarguradas que se tornam incapazes de aceitar o real, desprezando-o e como consequência gerando conflitos pra todos ao redor. E é isso. Os conflitos que tornam alguns mocinhos e outros vilões. Suas motivações, a pessoalidades e perspectivas. Talvez a trama que mais reflita isso seja A vida da Gente, da qual foi supervisor de texto para Lícia Manzo, que conta com muita delicadeza a história de duas irmãs Ana (Fernanda Vasconcelos) e Manu (Marjorie Stiano) que com as desavenças do destino constroem uma linda relação que apesar de ter se abalado com os conflitos da convivência, permanece única, cheia de amor e importância.
ps: e sim há muito dedo dele nesta trama, basta que se observe as outras tramas que Lícia escreveu, ou com outros autores ou sozinha, e perceber que a Vida da Gente é totalmente Maneco.
white people problems...
Joice (Carla Marins) surtou quando descobriu que na verdade era adotada, mas sem entender exatamente o que estava acontecendo e como havia se dado esta adoção ela se revolta contra Helena (também Regina Duarte) e passa a se comportar como uma ingrata ridícula.
Capitu (Giovana Antonelli) uma menina que sinceramente tem uma agradável situação financeira passa a se prostituir pra poder cuidar do seu filho de uma maneira mais folgada. Tudo isso seria até aceitável se Capitu simplesmente não precisasse disso.
Tudo isso parece fútil demais pra nossa realidade, certamente...
Manoel Carlos não sabe escrever outra realidade que não seja a de uma mulher branca e rica, ou pelo menos classe média, que sofre com seus problemas burgueses. Tivemos a comprovação disso quando ele precisou escrever sua primeira Helena preta, interpretada pela grande Taís Araújo. E é exatamente assim que ter que ser. É esse núcleo social que ele cresceu vendo e é sobre esses problemas que ele consegue escrever. Todavia catalogar Manoel Carlos apenas como um escritor de "dramas burgueses desinteressantes para o brasileiro médio" é pura bobagem. Ele insere temas extremamente importantes nos seus roteiros e os desenvolve com muita sensibilidade. Mulheres Apaixonadas por exemplo está cheio desses conflitos sociais. Temos um casal de lésbicas que sofrem homofobia na escola, temos uma jovem ingrata que maltrata seus avós, temos uma filha que tem vergonha do seu pai pobre, temos uma libertina que se apaixona pecaminosamente por um padre, uma professora alcoólatra, uma mulher com câncer de mama, a que sofre de um ciúme doentil... E talvez o mais importante desses temas: a professora que tem um marido psicopata e que se apaixona de uma maneira questionável por seu aluno, quase obcecada, causando a ruína desse jovem. Violência doméstica, fragilidade psicológica, suspense e egoísmo... É uma gama de assuntos extremamente possíveis na nossa realidade. Não há futilidades aqui. E eu poderia falar sobre a abordagem extremamente sensível sobre a síndrome de down em Páginas da Vida.
O cotidiano tem suas tramas...
Parece distante imaginar que o dia a dia que soa tão monótono, sem acontecimentos possa gerar contextos tão empolgantes. Quem poderia supor que os dramas da minha família dariam uma novela. E sempre acontece uma coisa ou outra de vez em quando, mas não acontecem várias. Uma única coisa consegue criar uma outra série de acontecimentos. Nesses momentos Maneco avalia a consequência e o que ela causa mediante a sociedade. É algo difícil de se apurar. Precisa-se de um olhar clínico, um estudo social mesmo. É preciso ver a verdade da vida, a beleza do cotidiano, a sensibilidade das relações humanas, a dificuldade da convivência. Eu costumo dizer que o Maneco tem aquela coisa meio contemplativa do cinema do Ozu misturado com a complexidade existencial do Bergman. Sem maniqueísmos, exageros ou circo (não que isso seja algo ruim, não é isso que eu estou dizendo) ele tece suas tramas nos acontecimentos cotidianos, constrói seus conflitos nas tramas corriqueiras do dia a dia. Ele transforma a nossa vida numa novela e aí quando eles dizem "isso parece coisa de novela" pra um acontecimento absurdo é porque realmente parece. Mas, ir na padaria comprar um pão e esbarrar na vizinha que vai te contar uma fofoca da amiga da prima dela também é coisa de novela; de novela do Maneco.
Liv começou sua carreira no teatro com alguns bons personagens em ótimas peças e não demorou pra que Ingmar Bergman, um dos diretores de cinema mais refinados da história justamente por causa da sua bagagem no teatro, a colocasse no seu elenco de atores de alto escalão artístico. Quem acompanha Bergman sabe que ele tem um grupo restrito de atores que ama repetir sempre e sempre. Ullman não foi nem de longe a que mais esteve em suas obras, ou se quer a que esteve em maioria de suas obras primas (embora figure em muitas delas), não posso se quer dizer que ela foi a sua favorita, entretanto há algo de diferente nesta relação que gerou um casamento que eu também não sei explicar. Ela nunca fez uma coadjuvante estando nas mãos de Bergman e não há estrelismo aqui. É que sua atuação é tão primordial que mesmo que apareça da segunda metade do filme pra frente (A Paixão de Ana) ou não fale uma palavra se quer durante todo o filme (Persona) ela consegue convencer o público da sua legitimidade como atriz.
Falando um pouco sobre Persona, o filme mais experimental de Bergman e um dos mais psicológicos do cinema, nesta obra Liv dá vida a uma atriz, Elizabeth Völgler, que simplesmente deixa de falar, após uma série de acontecimentos e vai para uma ilha se manter reclusa junto de sua enfermeira interpretada pela majestosa Bibi Anderson. Lá a personalidade da enfermeira começa a se confundir com a de Elizabeth. Bergman nos apresenta um monólogo eterno numa série de cenas poéticas e experimentais o suficiente pra nos fazer ficar imersos nos complexos da mente e da isolação social (e parece que estamos vendo muito disso, seja no mais recente de Robert Edgers, O Farol ou nos dilemas da Pandemia que vivemos atualmente). Extremamente complexo e fluído o longa capta a capacidade exímia que a atriz tem de atuar. A representação parece ser algo que está no seu sangue de e assim como ele corre pelas suas veias também emana a genuína capacidade de transmitir verdade nas suas expressões. Em especial neste longa ela precisa se valer das suas expressões, mas elas não são demasiadamente caricatas como num filme de cinema mudo. Aqui há um naturalismo, um silêncio expressivo, uma voz que sai do olhar. Juntamente com os dilemas existencialistas dos roteiros bergnianos a atuação de Liv entrega uma complexidade que habita no interior e se expressa naturalmente como uma vontade de se entregar ao papel e mesmo que nada seja dito você consegue entender suas falas.
Se por um lado em A Paixão de Ana temos uma Liv mais fria e reclusa, em Sonata de Outono, ao lado de Ingrid Bergman (aqui em seu melhor papel no cinema), temos uma atuação calorosa, inquietante e quase que pronta pra explodir a qualquer momento. Há uma necessidade da catarse nas mãos inconstantes e ansiosas de Ullman neste cenário. Ela está tímida, mas precisa urgentemente dizer tudo que está na sua garganta e este cúmulo se culmina num dos maiores diálogos da história do cinema. O argumento é tão verdadeiro que você pode sentir essa filha injuriada e injustiçada pela mãe que de certa forma inconscientemente a despreza, gritando dentro de você. A atuação é tão complexa que seria possível dissecá-la; não somente da Liv, mas também da Ingrid, que simplesmente consegue roubar todo o brilho da cena para si quando a câmera mira em seu olhar arrependido, mas displicente. É o embate de duas gigantes. É a fúria contra a raiva. Há tanto peso e tensão guardados que esse sentimento de estar se libertando é passado para o telespectador com louvor. Distante daquele cinema hollywodiano, livre e destemida Ingrid exprime o seu talento de uma forma tão pura que azeita a personagem e podemos nos compadecer da sua condição irresponsável de fuga, do seu desastre materno e da sua descompensação. Mas por outro lado já afogada na teatralidade de bergman, apaixonadamente emotiva e leve Liv consegue nos fazer sentir a mesma repulsa e fascínio que a personagem sente pela mãe e mesmo que ela a julgue com duras palavras, entendemos seu sofrimento. O dilema das relações.
Mesmo em uma realidade onde Ullman não é o foco realmente da trama ela consegue seu carpe diem com louvor, extraindo o melhor de si para o personagem. Numa pomposa produção, mas também intimista, vívida de cores contrastantes e saturadas, Gritos e Sussurros é um filme sobre o toque e a repulsa do toque. A sexualidade, o abuso e aversão. Aqui dividindo a tela com outras estrelas de Bergman, igualmente talentosas, ela vive a mais libertina de três irmãs. Ingrid Thulin vive uma conservadora que de alguma forma teve um péssimo contato com o sexo e por isso o teme e o repreende em todos os aspectos possíveis, já Harriet Anderson está se compadecendo no leito de morte em meio às lembranças de abandono, da solidão e do desamparo. Há muita sensibilidade nos temas abordados, mas também na captura das imagens que insiste em frisar o vermelho, preto e branco. Morte, redenção e pecado. Sangue, vida e depravação. Repreensão, perturbação e arrependimento. Como sempre Bergman dá preferência para as complexidades e dilemas das relações humanas, mas aqui ele deixa que as imagens falem mais que o diálogo. Carregada de peso e dor a irmã mais velha grita em noites agoniantes, ela brame trêmula a cada vez que a morte lhe sopra o ouvido. Cheia de culpa e proibições a irmã do meio fala por falas interruptas sobre os seus pesadelos e suas restrições. Mas entre a fala e o grito existe o sussurro e ele está aqui sendo representado pela furtividade pecaminosa da irmã mais nova. Liv dá um caráter descompromissado pra essa personagem. Mesmo casada ela tem seus casos e não suporta a ideia de ser negada por algum deles. Ela precisa desse sentimento de pertencimento, mas não somente por uma, mas por várias pessoas. Sua alma parece sofrer aflita em busca dessa atenção. Entre toques negados e aceitos, ela brilha na sua personagem mais dúbia até então. Você nunca sabe se deve julgá-la ou aceitá-la. Você a quer por que no meio da morte que esbraveja em silêncios ensurdecedores e a moralidade fala em murmúrios perversos, existe a fuga, o escapismo que sussurra melodicamente em doces harmonias a pura sedução. Um grito de liberdade. E estas três vozes, como se em poéticos arabescos, ornam um cenário hipnotizante. É quase como se nós estivéssemos em uma pintura do Caravaggio, contemplando três irmãs que não se conectam por causa de seus próprios complexos.
Por qué você deveria ver Liv Ullman em tela?
Face a Face, de 1976 pode responder isso. Aqui Liv Brilha sozinha. Neste longa que apesar de longo e extramamente lento, nos culmina para a cena final onde a atriz que vive uma psiquiatra assombrada pela morte e depressão tem seu momemto de catarse. E amigos, que monólogo! Que interpretação! Que texto e emoção. Brilhantemente eloquente a personagem expõe seu trauma, sua raiva, seu ódio, sua violência, sua injúria, seu medo, sua fobia. Eu sou um grande entusiasta do cinema e mediante de tudo que já assisti eu não me lembro de uma atuação tão viva, naturalista, real e verdadeira como esta. Você se incomoda com a angústia, a aflição e agonia da personagem. Vê-la atuando é uma experiência. É um evento, um momento. E por essas outras que você deveria ver Liv Ullman em tela.
Persona e Gritos e Sussurros estão disponíveis no telecine e Face a Face no cine lá carte. A paixão de Ana está disponível no Youtube.
o perfume, parece que eu consigo sentir o perfume do "balanço". O próprio marido (que na ideia original seria um padre, mas por pura audácia Fragonard, resolveu botar o marido mesmo) empurra sua amada para os braços do amante. Totalmente destemida ela levanta sua perna de uma maneira tão docemente provocativa pra que o afortunado veja os detalhes de renda do seu vestido, ou será a ceroula de cetim? Do alto o cupido faz sinal de segredo e silencio de uma maneira debochada. O pobre corno entregando sua esposa para as mãos do amante, mas aposto que vocês não imaginam para quê. Numa metáfora completamente óbvia, para os contemporâneos da época, perder os sapatinhos significava perder também a virgindade. Talvez o maior exemplo dessa metáfora seja o clássico dos contos de fadas, "Cinderela". A menina que vai ao baile e perde o "sapatinho" e em seguida o príncipe passa a "testar-se" em todas as moças do vilarejo para encontrar qual era a mais "apertadinha" e certamente esta seria a doce Cinderela. Bem provocativo e audacioso não? Assim como em "Cinderela" o balanço mistura essa lúdica inocência a uma engenhosa malícia quando nos mostra o marido alçando em leves empurros sua esposa num salto lírico diretamente aos braços do amante para perder a a virgindade com direito a muito frufru, bordados e firulas. Assim é o rococó. Essa essência "safadinha" e totalmente descompromissada da burguesia francesa, pura boemia de ser.
Pomposos babados, rendas e buquês. Os anos vem e vão e o rococó continua encantando os olhos e fomentando fantasias diferentes. Todavia, contudo, nem sempre foi assim. Quando essa estética artística apareceu pra atenuar em tons pastéis os excessos da monarquia absolutista francesa os cidadãos franceses padeciam na fome e na miséria ela foi tida como mais uma bobagem sem motivos da monarquia. Visto como uma futilidade sem tamanhos o rococó foi o último suspiro de uma França despreocupada e colorida, já que logo depois disso tivemos a queda da bastilha, reis decapitados em praça pública, brigas internas numa política instável e até mesmo um imperialismo descompensado de Napoleão.
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| lady em passeio devanioso, fragonard |
barroco e rococó
Muito além de Madame Pompadour e o Balanço, essa joia hedonista da arte evoca o retrato de uma aristocracia que estava farta dos visuais e peso do barroco palaciano, suntuoso e solene praticado por Luís XVI. Essa oposição buscava um escapismo daquele ambiente tão caravaggiano em vermelho e dourado, horrorizado do vazio, cheio de ornamentos e escândalos. Ainda se perdurando nas voltas, mas aqui devo deixar claro que elas respiram, (ah como elas respiram) e trocando o dourado e o acobreado pelo prateado que em arabescos, folhas e conchas sobrepõem tons de azuis açucarados, rosas pasteis, amarelos suaves, verdes leves o estilo emana sensualidade, delicadeza, elegância e graça.
Se no barroco a magnitude da igreja era reforçada a cada nova tela, nos exageros na Basílica de São Pedro, nos dramas trágicos de Rubens, na visceralidade poética de Artemísia ou no nefasto desejo da luz de Caravaggio; aqui nós temos imagens de uma elite que saiu para brincar de cabra cega, fazer um picnic ou até mesmo fornicar sobre a relva respingada do orvalho. A beleza está nos sentidos. Em ver beleza, em comer gostoso, em tocar o corpo, em sentir o cheiro do amanhecer, em ouvir Mozart e Vivaldi, em correr por aí no alvorecer, em sentir o gosto acetinado da aurora. É tão pecaminoso e não há culpa. Há muito descompromisso com a culpa religiosa. O sexo está em todos os pequenos detalhes do rococó. Não há profundidade, tudo é muito fútil, frívolo e superficial e é exatamente assim que é pra ser.
Embora preserve muita coisa do barroco, como o próprio exagero em si (mas aqui mais contido), a teatralidade e o jogo de luz e sombra presente, o rococó se vale das suas próprias características. Além das já ditas à cima: tons pasteis, paletas suaves, formas de conchas; o rococó ainda exala muitas outras coisas extremamente próprias como: a preferência por gesso e madeira (do que o típico mármore), linhas fluídas, visuais intimistas, motivos florais, devaneios e floreios luxuriosos.
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| louise o'murphy, garota em reclinação, boucher |
Que comam brioches!
Podemos concluir que o rococó é uma arte da elite para elite. Dos delírios ludibriados da aristocracia que precisava imediatamente de um refúgio da chatice sustentada pela monarquia da época. Flutuos borbulhantes, vozes aperoladas, fascínios, paisagens sonoras, confabulações maravilhosas. Eles estavam vivendo em outra realidade. Uma realidade de champanhe, ilusionados pelas plumas e pelo divertimento e assim fechando os olhos para uma França devastada pela fome e pelo descaso. E talvez, com toda certeza, esse movimento egoísta e furtivo da burguesia tenha contribuído ainda mais para a revolta da população pobre parisiense culminado na revolução francesa. Embora sua índole e caráter tenham causado sua ruína, o rococó permanece tão vivo influenciando toda uma estética que está presente na maioria das coisas hoje em dia. Olhamos cantoras como Melanie Martinez ou no clipe mais recente da cantora Aurora (exist for love), quem sabe no videoclipe de "Áudio de Desculpas" da Manu Gavassi ou mesmo na paleta de cores e traços de cartons como Steven Universe e She-ra (a da netflix). O rococó continua impressionando tanto porque como um escapismo proporciona sensações oníricas de um outra realidade, quem sabe talvez sobre fuga de outrora, como se no livor da língua tivesse um gostinho proibido de macarons e cupcakes, um secreto perfume gostosinho. Perfume de fantasia burguesa.
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| peregrinação à ilha de cítara, watteau |




















