Musica

Akina Nakamori e Mariya Takeuchi, quando o vinho juntou-se ao champanhe

12:34

 a vez que dois ícones construíram juntas três pérolas da música japonesa


Quando Akina Nakamori surgiu no mercado musical, em 1982, Mariya Takeuchi já era um ícone da música no Japão, já sendo consagrada. Akina construiu seus primeiros álbuns com uma temática bem teen, voltada para o público jovem que acompanhava cada passo da estrela em ascensão. Mas entre 1985 - 86, a cantora estava buscando se libertar da imagem de adolescente rebelde e buscando uma imagem mais séria, mais misteriosa e sensual. No seu álbum Fushigi, que evocava uma liberdade criativa mais ampla, Nakamori já vinha dando pistas de que estava disposta a se reinventar artisticamente. 

Nakamori performando Oh No, Oh Yes

Neste cenário encontrava-se Mariya no processo de divulgação do seu - brilhante - álbum, Highlights (yasuha). Mariya estava mais criativa do que nunca e mais produtiva também. Sua parceria com seu - até então namorado - Tatsuro Yamashita (aka o rei do pop japonês), estava lhe rendendo um processo criativo extremamente original e específico, que mais tarde chamaríamos de City Pop. Essa mistura homogênea de Disco, Funk, Jazz e R&B que estilo trazia, era interessante pra diversos artistas que estavam buscando uma independência da música Kayokyoku e do J-pop. Mariya sempre foi conhecida por ser uma excelente compositora, do rock folk, passando pelo country indo até o famigerado pop synth da década de 80; não havia nada que ela não pudesse compor. Também era a Miss M, conhecida pela sua simpatia com novos artistas, acolá sua deliciosa relação com Seiko Matsuda (a princesinha comportada do J-pop e que se portava como uma espécie de "rival visual" para Akina). Dessa relação nasceram os maiores hits de Seiko: "Sweet Memories", "Crazy Me Crazy For You", "I Will Fallow You", "Watashitachi Wo Shinjite Ite." Estava evidente que como compositora e produtora Mariya era a pessoa perfeita pra entender a essência do que queria ser passado. Vendo Seiko como uma menina doce e de voz melosa, compôs-lhe inspirando em cordas leves, melodias extremamente harmônicas, num quê de romantismo na sonoridade com letras cheias lirismo plumados, como se condessasse a fofura e delicadeza numa coisa só. 

Quando se é alguém consagrado, é normal que os novos artistas mencionem-te como uma referência. E era assim que Seiko, e outras novatas que iam surgindo iam fazendo. Mariya era simplesmente a rainha daqueles anos, ela tinha vendas, tinha hits e tinham aclamação crítica e ter a sua benção era quase que como ser lançada para o mercado com a certeza de que estava preste a hitar também. Todavia porém, isso não acontecia com Akina, que preferiu manter-se distante da imagem de "baba ovo" ou "puxa-saco" construindo uma identidade independente da "benção" de Mariya e pelos anos iniciais da década de 80 essa relação foi bem fria, se não quase nula. Foi só em 1985, justamente quando Akina sabia que precisava reinventar-se que prontamente ela contatou a melhor de todas as compositoras de sua terra. Entendo que Takeuchi tinha um olhar clínico para composição e que ia entender muito bem a essência dessa nova era.

tudo parecia estar ornando

No começo de sua carreira, a cantora havia apostado em vocais mais brilhantes e até mesmo mais femininos, a medida que avançava no seu processo de amadurecimento interpretativo ela ia optando por vocais mais expressivos, centrados na região de peito e tons graves, bem como uma maior exploração do uso do vibrato, tornando este a sua marca registrada até então. Mas, como numa necessidade de explorar uma pouco mais da suas capacidades vocais, Akina então, se especializa num canto mais suave, agudo e sussurrado, mas cheio de expressividade, feminilidade e sensualidade. E foi abandonando aquela imagem extravagante e apostando numa mais frágil, em meio as brumas escurecidas, no véu da neblina, nasce o mais interessante trabalho de Akina, Crimson. É bem verdade que Akina não se entregou ao city pop, gênero este que fez vista grossa, mas adicionou influências e fartas pitadas na produção que se seguia. Aquele swing sensual do Lounge e do Disco que recorda os R&B dos anos 70 serviram como um excelente pano de fundo pra produção bem amarrada que veríamos a seguir. Vale ressaltar que Crimson lembra muito o álbum de 1978 de Mariya, Recall, que também têm uma certa melancolia embocada de alguma sensualidade. Costumo dizer que se o City Pop de Anri, Mariya e Tatsuro era o som que embalava o centro iluminado das grandes cidades, o som do Crimson é aquele que embala os bares escondidos e tardios dos becos escuros e esfumaçados destas mesmas grandes cidades. 

Mariya e Akina trabalharam juntas em sete faixas para o trabalho, que contém dez ao total. Essas foram: "Yakusoku", "Eki", "Oh no, Oh yes", "Anata-o Omeaba Koshuô", "Kazewodakishimete", "Jealous Candle" e na faixa bônus "Mick Jagger". 

Yakusoko, Eki e Oh No Oh Yes...

Destas sete faixas com toda certeza a trilogia que abre o álbum é com toda certeza uma das coisas mais interessantes da música japonesa, e da música como um todo. Toda vez que eu escuto estas três faixas eu imagino um mesmo cenário: Akina está sobre sua cama, na madrugada nebulosa, próxima ao telefone, sentindo sozinha a se recordar das histórias que viveu com um amor do passado; tudo parece tão melancólico, mas também há muita sensualidade. Unir a sensualidade da voz de Akina aos acordes noir de Mariya foi mesmo uma ideia sensacional. 

Yakusoku, que tem influência nos anos 50 com uma pegada 70's, é com certeza a mais esperançosa das três faixas. O eu lírico parece abandonado, nostálgico e solitário. Akina quase que hipnotiza com suas palavras silabicamente sussurradas e o refrão quase não tem força nenhuma, justamente pra que essa fragilidade não seja quebrada repentinamente. Yakusoku é um cochicho saudoso, como quem sabe que ainda há uma chama de esperança, pois houve uma promessa que fora "jogada pelos ares" anteriormente. Quando a faixa acaba restando apenas a saudade temos que lidar com a verdade de que tudo foi apenas um devaneio e que na manhã seguinte haverão outras coisas.

 


Eki, vem logo me seguida, em cordas tradicionais, quase que relembrando aquela Akina anterior, mas aqui com alguma cautela. Dessa triologia esta faixa com certeza é a mais tristonha, é como se fosse consumação do abandono e da solidão. Construída pra ter uma característica mais romântica que a anterior, destacando os acordes em e-piano em meio a uma esfumaçada progressão de pads e cordas que no refrão chegam num clímax contido, como se de tão frustrada e cansada, Akina não tivesse mais forças de cantar; de lançar ao mundo aquele forte vibrato, e então num marasmo sentimental ela sussurra em meio às trevas da madrugada "iluminada por velas" - como ela ressalta em "Jealous Candle". Eki acabou fazendo mais sucesso que o esperado quando lançada como single promocional para "Mick Jagger" e acabou sendo remanejada como single, alcançando a posição #1 da Oricon e por lá morando por quase cinco meses. Parece que o sucesso de Eki impossibilitou uma tentativa de insistir num próximo single, visto que "Oh No, Oh Yes" passou "à sombra dela", pegando ""'apenas"" #2 quando Eki estava dominando no topo. Não foi nem de longe um fracasso, muito pelo contrário, mas figura como uma das faixas mais injustiçadas de sua carreira, porque sim merecia como nunca vibrar no topo da Oricon.



Oh No, Oh Yes, é um desvio sensual mas que não deixa de ser tristemente sentimentalista. Nessa letra em que o Eu lírico para ser a outra, Akina canta sobre como é difícil amar, como as coisas não saíram como ela planejou e sobre como ela não que ir sozinha pra casa naquela noite chuvosa. Na questão de produção, esta com toda certeza é mais interessante. Recheada com uma bateria que complementa os acordes do e-piano e aquela pad que quase está sumindo por entre as precursão. Temos então a voz de Akina dançando suave pelas batidas da bateria e depois no final temos o solo de um saxofone, que complemente na medida certa a sensualidade que a faixa evoca. 


Duas versões, duas perspectivas

Depois de todo o sucesso que Crimson teve, Akina tomou um tempo pra descansar e muito se esperava que a parceria com Mariya fosse se repetir para o próximo projeto, intitulado Femme Fatale (este que navega pelo universo da música negra, o new jack-swing de Janet Jackson e conta com vários brasileiros na produção, ouvir: U're Everything); entretanto, não aconteceu. A verdade é que nessa próxima fase Akina abandona os vocais sussurrados do Crimson, mas também não regressa para o vibrato grosseiro do Cruise ou do mistério incandescente do Fushigi; fica mais parecido que Akina está inspirada nos seus vocais iniciais, mais brilhantes lá de 1982. Outra coisa que fica de lado aqui é a imagem sensual, os tubinhos e os longos cabelos ondulados. Apostando numa imagem mais moderna, de presença e séria. E tudo isto pode estar ligado à vida pessoal de Akina, que na época estava noiva do então vereador de Tokyo. 

Nunca mais se ouviu falar de Akina e Mariya juntas. Muito se especulou na época, visto que Mariya e Seiko estão produzindo coisas juntas até a data de hoje, pelo o que se tem notícia. Em meados dos anos 90, um fervoroso boato dizendo que Mariya teria se decepcionado com uma possível atitude mesquinha de Akina teria sido o motivo do afastamento. Mais tarde foi o próprio Tatsuro que dizia odiar a versão de "Oh No, Oh Yes" de Akina e que ele e Mariya tinham uma versão bem melhor do clássico e que em breve seria lançada. A declaração fomentou rumores de um possível feud entre as duas maiores estrelas pop do Japão. 

Mariya performando Plastic Love

Não demorou em 1992 pra Mariya lançasse seu poderoso álbum Request (este que vendeu mais de 1 milhão de cópias na primeira semana apenas no Japão). Com apenas seis faixas iniciais, quase um EP, e contando com hits poderosos como "Yume No Tsuzuki" e "Shiwase No Monosahi", Oh No, Oh Yes, foi lançada como lado B de Shiwase No Monosahi, mas no mesmo ano, Mariya reditou a coisa toda e relançou o álbum durante o verão, com uma nova capa e título: "Quiet Life" inserindo nele mais cinco músicas oficias e usando sua versão de "Oh No" para promover esta fase do projeto. A faixa rapidamente alcançou o #1 nas paradas musicais e vinham como um refresco para esta nova fase, mais R&B, de Mariya. Numa produção mais clara, menos sombria e sensível, quase a música ganha uma outra conotação. Mariya tem uma voz mais presente e vocais mais firmes e claro que Akina e talvez isso tenha ajudado a música se popularizar, torando o álbum "Queit /life!" o mais vendido na China, naquele ano. Bom, ninguém sabe porquê, mas Mariya decidiu mostrar ao mundo sua otimista versão praquela música e de fato acabou fazendo mais sucesso. Todavia, no meu íntimo - eu quero deixar bem claro que eu amo qualquer coisa que Mariya faça - que eu prefiro a fragilidade da versão de Nakamori, parece-me que a faixa nasceu pra ser tão triste-sensual. 

 

 Ninguém sabe se Mariya estar apostando numa faixa lançada apenas cinco anos antes era pra confirmar o possível feud entre as duas ou se ela somente gostava muito daquela - sua própria - composição e gostaria que estivesse em sua discografia também. 

Cinema

eu odeio o final de o diabo veste prada

15:20

Talvez em 2007 ninguém tenha percebido, mas o Nate é o verdadeiro vilão dessa história toda, e que merda foi aquela no final?



"O Diário Veste Prada" segue sendo uma das minhas comédias românticas favoritas dos anos 2000 - e talvez de toda a história do gênero; todavia, os anos se passaram e assim como quando eu assisti pela primeira vez, eu sigo odiando aquele final - e o fato de ele ser tão real - e tudo que ele representa. É desmotivador e extremamente injusto.

Miranda é apenas um expoente, e ela é bem diferente do que você pensa que ela é...

A construção desse longa se dá pra que Miranda, aqui brilhantemente interpretada por Meryl Streep, seja vista como a Vilã. A personagem é amarga e azeda demais pra ser amada, mas fashionista e lacradora demais pra ser odiada. Cheia de complexos, camadas e lacunas, é fácil entender o seu jeito durão e arrogante de se comportar. Em dado momento fica parecendo que Miranda e Andy (Anne Hathaway) possuem muito em comum, e que no passado Miranda foi alguém tão confusa e perdida quanto sua nova funcionária (des)favorita. Miranda, mesmo depois de realizada, ainda parece estar frustrada - tá no olhar dela. Seu casamento parece ruim, sua vida pessoal parece estar sempre em trilhos finos e suas questões são ignoradas pela mesma que suprime tudo, deixando de perceber o que existe à sua volta e também deixando de percebe-se, para colocar o seu trabalho e status quo acima de qualquer coisa. Miranda não parece ser uma mãe presente, ela não é uma boa amiga, não é uma boa chefe, não é uma boa esposa, não é uma boa pessoa e tudo isso faz a Miranda uma perfeita personagem. Nada está certo com ela e é bem verdade que seu relacionamento com Andy era uma versão menor de Chernobyl, mas ela não é verdadeira vilã desta história. 

Tudo mundo que viu esse filme na época, por mais que não tenha a odiado, de fato, a olhou como se: "ual essa mulher é a megera da coisa." "ela quase estragou o relacionamento a personalidade da mocinha" "por culpa dela a mocinha quase traiu o namorado e esqueceu os amigos." 

Vale lembrar, que embora apenas uma personagem, Andy representa um arquétipo social existente e também é uma pessoa no que se insere, e todas as escolhas que toma durante o desenvolvimento do longa são suas. Miranda não a estava influenciando totalmente. Embora ela quisesse chamar a atenção da patroa e se provar mais do que era enxergada, ela se sentia bem naquelas roupas, sentia-se feliz naquele universo que era seu sonho. Mesmo que ela tenha criado expectativas sobre Miranda, em paris (isso porque ela quis, pois bem sabia de como era a personalidade dela) e depois se decepcionado com o golpe que Nigel (Stanley Tucci) leva da mesma, isso não era o suficiente pra lagar um emprego que podia levá-la para uma revista importante: como a Vogue, Elle ou Glamour. 

pra falar a verdade Andy está cercada de gente tóxica

Andy desistiu de tudo simplesmente por que foi diminuída e desencorajada por aqueles que deveriam apoiar seus sonhos e escolhas, independente de qualquer coisa. Constantemente, os que se diziam seus amigos, estavam caçoando do seu trabalho, seja por estar ocupada demais ou por receber ligações da Miranda no meio do rolê. Eles não estavam preocupados de fato se Andy estava cansada ou sendo abusada de alguma forma, ELES ESTAVAM PREOCUPADOS SE ANDY ESTARIA ALI PRA ELES. UNICAMENTE PRA LHES ATENDER.  E a coisa só muda quando Andy leva alguns presentes caros pra estes "amigos" que se de repente mudam um pouco do discurso defendido, até há pouco. {ela estava literalmente comprando o apoio deles}  

Enquanto isso no ambiente de trabalho, Andy precisa tentar lidar com a amargura e pirraças de Miranda, com a inconstância e inveja de Emily (Emily Blunt) e os risinhos irônicos de Nigel. Todavia, depois de inserida neste mundo glamoroso, Miranda abre-lhe uma porta maravilhosa para o mercado de trabalho, Emily decide apoiar a nova amiga, ainda que às vezes com frases ácidas, e Nigel tenta de um tudo pra tornar tudo mais fácil pra aspirante. Tudo isso não muda fato deles serem tóxicos, mas muito menos que "seus amigos de verdade."

Nate é simplesmente insuportável e tudo dá errado por causa dele

Lá trás, quando lançado, muito gente suspirou de amores porque Andy abria mão do luxo e do gliter pra viver ao lado do seu namoradinho: TODO MUNDO ACHANDO INCRÍVEL QUE A COITADA TENHA FUCKING DESISTIDO DE SEUS SONHOS PRA FICAR AO LADO DE UM CARA QUE EXIGIU ISSO OU O RELACIONAMENTO IA ACABAR.

Nos olhos de 2021, Nate (Adrian Grenier) é simplesmente o tipo de namorado que toda garota, ou garoto, deve evitar. É o mais claro exemplo do abuso passivo - isso pra não dizer claramente abusivo - onde lentamente somos envolvidos por brandas ameaças até que então cedemos tudo pra então ficarmos a mercê das vontades de um (a/e/x) manipulador, que dali pra frente ditará cada passo das nossas vidas (isso é se nos for permitido dar algum.)

Depois de se frustrar com Miranda, Andy entra num processo de reflexão: "será que é com este tipo de gente que eu quero ser associada?"

Mas Andy sabia que Miranda não iria indicar Nigel, pois sabia que aquele mundo era um jogo de caça e rato. Miranda precisava manter seus inimigos bem próximos, pra que não viesse ser desamparada mais tarde. Foi injusto confabular que Miranda iria prestigiar Nigel, com James (Daniel Sunjata) em seu caminho. Andy se frustrou porque queria se frustrar. Ela estava apenas procurando um motivo, uma situação, circunstância pra sair dali correndo e voltar pros braços do seu abusador. 

Não há culpa em Andy, mas também não há em Miranda. A culpa de tudo é toda de Nate. O namoradinho não deu trégua um segundo se quer desde que Andy começou a trabalhar na agência de Miranda. Ele fez a caveira da mulher. Ele aproveitou de todas as formas e deleitou-se em todas as situações possíveis, de maneira tendenciosa, pra fazer com que Andy visse uma Miranda que ele criou - e talvez a direção do filme tenha um pouco do seu male-gaze (olhar machista.) Contudo, por mais que Andy estivesse vendo uma Miranda totalmente demonizada e disfuncional esta não foi a maior causa da sua fuga.

Andy não se sentia suficiente praquele mundo (quando a própria Miranda disse que era - e meus caros se a Miranda não fosse referência no ramo não sei mais poderia ser). Como se fosse desajeitada ou simples demais pra toda aquela coisa - o que não é nenhuma verdade - e sentindo-se diminuída ela decide de afastar. Mas essa insegurança não nasce de Andy, pelo contrário, acompanhamos quase todo o longa uma Andy determinada e capaz de tudo pra chegar onde quer. Esse sentimento de insuficiência nasce de Andy. Quem aqui lembra quando ele duvidou que ela tenha sido contratada e insinuou que ela tenha sido contratada pelo telefone? SIM ELE ESTAVA FALANDO DESSA FORMA DA APARÊNCIA DA PRÓPRIA NAMORADA. Fora isso, durante todo o longa, vemos um namorado desmotivador, agorento e que deseja, quase resfolegando a relinchar, que tudo dê errado pra ela. Ele quer colocar Andy no local de incapaz, de que pra ela só existe o menor. 

Mas por que o menor?

Nate, muito provavelmente, sentia-se diminuído. Afinal para um marmanjo vivendo às custas de um relacionamento e dos amigos - abusivos - da namorada, ver a mesma crescer de maneira independente e se tornar requisitada no mercado de trabalho provava seu fracasso. Ele se irritava toda vez que Andy estava feliz porque algo havia dado certo. Ele usava seus argumentos pra convencer a namorada de que ela estava se tornando uma nova espécie de Miranda.

*ok, talvez este tópico tenha sido muito afetado, mas isso não o desconfigura como real*



uma nova espécie de Miranda...

Andy, apesar de admirar a garra de Miranda como profissional, sentia repulsa pelos seus atos mesquinhos e interesseiros. Para Andy, era essencial se afastar de qualquer coisa que lembrasse as atitudes de Miranda. Repelia-se automaticamente. Quando começou a ser colocado em sua cabeça que ela poderia estar se comportando igual a megera, rapidamente ela tomou outra ótica da situação, agora afetada pela perspectiva de Nate. 

Andy sente que isso pesou mais quando a própria Miranda a mostra, que sim, ela havia feito coisas parecidas. Ao responder sobre Nigel, ela aponta um ocorrido anterior com Emily. Mas Andy entendeu errado. Miranda não quis dizer: você é uma vadia má como eu; ela quis dizer: todos nós em algum momento vamos agir por interesse e colocar-nos-emos em cima do outro. E isso é tão real, puxa. Todavia, porém, Andy não queria enxergar dessa forma, e nem conseguira, pois sua visão já estava contaminada. Agora sem avaliar a situação, ela foge, abandonando seu sonhos, simplesmente por cogitar que estava sendo tão brutal como Miranda; apenas porque ela estava sendo tão má como seu namoradinho havia dito que ela seria. 

Arrependida e envergonhada, a nossa protagonista volta pra onde originalmente estava - o nada, cof, digo, um jornalzinho de nada - e terá que recomeçar tudo de novo pra chegar onde estava, algo que provavelmente ela não irá conseguir. O mais triste de tudo é que no fim resta a apenas a frustração de que mais um abusador conseguiu colocar uma vítima no lugar que ele queria, abaixo dele. 

apesar dos apesares, Miranda é melhor que Nate e Andy

Não muito de longe, Miranda observa. E temos a comprovação oficial do que o filme realmente quer falar. Maturidade. Miranda, mesmo sendo uma carrasca, quase vista como uma espécie de Calígula da moda, é quem se mostra totalmente humanizada. Longe da hipocrisia e da insegurança, ela prepara o terreno para a nova jornada de Andy, por quem tinha alguma feição e confiança, não abandonado a oportunidade de uma futura reconciliação. Apesar de se sentir traída e abandonada, Miranda sente-se feliz pela nova caminhada de Andy (e se vê nela no tipo de: eu também precisei passar por tudo isso pra entender como o mundo pode ser cruel). Verdadeiramente Miranda quer o melhor pra Andy, independente do local em que esteja e deixa-nos bem claro isso; diferente de Nate que só quer Andy bem, se este bem-estar for na posição de vulnerabilidade.  

Quando o filme acaba, por fim, temos uma Andy totalmente presa as garras de um predador, um Nate totalmente satisfeito por finalmente conseguir de alguma forma sentir-se validado e uma Miranda ainda frustrada, mas aliviada por saber que Andy se tornou, ao menos um pouco, mais segura do que antes, de quando se conheceram.


Novelas

a mentira, segue sendo uma das melhores novelas mexicanas

08:36

 

e eu estou falando da versão de 1998, embora seja a única com este nome, o argumento já teve diversas  adaptações...


um enredo demasiadamente chamativo porque a mentira tem perna curta

Sem sombra de dúvidas este é um dos argumentos mais originais das tramas mexicanas. Ricardo (Rodrigo Abed) amava Virgínia (Karla Álvarez), mas ela só queria tentar lhe dar um golpe (e estava dando certo), mas quando seu primo, João (Sergio Basañez) retorna da Europa ela vê a oportunidade perfeita pra um golpe mais seguro e dispensa Ricardo que extremamente injuriado ao perceber o golpe se suicida. Contudo João se apaixona por Verônica (Kate Del Castillo), sua outra prima e os planos de Virgínia vão por agua à baixo. Acontece é que Demétrio (Guy Ecker) irmão de Ricardo volta para vê-lo e descobre tudo o que aconteceu. Disposto a se vingar ele vai atrás da mulher que arruinou a vida de seu irmão, mas acaba se confundindo, pensando se tratar de Verônica, por quem se apaixona imediatamente. Percebendo, Virgínia implanta provas e joga todo a culpa para cima da prima que é difamada e subjugada. Para piorar Demétrio e ela se casam e juntos vão para uma pequena cidade inóspita, onde morava Ricardo. Lá Demétrio fará Verônica pagar pelo o que não cometeu, todavia, contudo ele se confunde entre amor  e ódio. O jogo vira quando Virgínia é desmascarada e Verônica tem sua dignidade recuperada tomando forças para conseguir se estabelecer e agora Demétrio é quem terá que sambar até conseguir recuperar o amor de Verônica.

Aqui nos temos uma história atraente que atiça o telespectador. Contada num tom policial vibramos à medida que a verdade vem à tona, mas a trama não se vale apenas disso. Temos um enredo muito bem explorado sobre tráfico de drogas e o consumo de drogas. Observamos o salafrário amigo de Virgínia seduzir e induzir jovens, à medida que os traficantes interferem nos negócios da família Negrette. 

Realizada para o horário pra 17hrs, a novela fez um sucesso estrondoso tornando-se a versão mais interessante dessa trama.

atuações mais naturalistas

Estamos acostumados com o exagero caloroso, até mesmo irreal, das telenovelas mexicanas. Esse é um estilo de atuação famoso por lá que chega às vezes passar uma certa inverdade. Mas, nesta novela podemos contemplar atores tentando fazer as representações mais naturalistas possíveis. Não há aquele desespero tradicional nas suas feições. Kate Del Castillo se mostra uma das melhores atrizes novelística da sua geração. Ela é centrada, carismática e está completamente dedicada à sua personagem passando assim muita verdade com a sua atuação. Você sinceramente é levado pra dentro do contexto. Guy Ecker, nosso brasileirinho, com certeza é o que chama mais atenção. Acostumado com roteiros policiais, o ator entrega uma atuação quase americanizada. Suas feições não são exageradas, mas elas são o suficiente pra chegarmos à conclusão de que talvez ele se trata de um psicopata. Karla, com sua cínica atuação, também não fica atrás. Aqui ela se mune de uma persona muito ingênua, mas consegue ser ácida o bastante pra haver desconfiança. Ela faz questão de parecer que é fingido e está nítido que sua bondade é duvidosa e só não vê quem não quer. Fora o trio principal toda a gama de atores selecionados está bem centrada no naturalismo das expressões. Destaco a presença de Rosa Maria Bianchi, grande dama do teatro mexicano que apesar de atuar num papel coadjuvante o representa com maestria. 

(adendo: não estou dizendo que as atuações exageradas são ruins, você consegue captar a mensagem através da exuberância, mas deve-se entender que o objetivo de A Mentira é criar uma obra mais realista, focada na captura natural das expressões humanas.)


personagens mais complexos

Os três personagens principais são bem mais complexos que estas tramas realmente costumam apresentar. Geralmente eles tendem a são superficiais e nos mostram poucas camadas. Demétrio é com toda certeza o melhor personagem nesta versão. Vemos os conflitos internos e morais do personagem que se descasca bem na nossa frente. O vemos agressivo, complexado, irônico e perturbado. Ele ama Verônica por que a acha a mulher de sua vida, mas odeia Verônica por achar que ela é a causadora de todo mal. O Fascínio, o desejo, a paixão e ódio andam juntos nesta ocasião. Todo comportamento dúbio do personagem, por mais que seja complicado, é justificável. Enquanto isso acontece podemos assistir uma Verônica confusa e que deseja entender tudo o que acontece ao redor. Ela almeja sair deste relacionamento, tem medo, mas também sofre de uma espécie de Síndrome de  Estocolmo, mas não exatamente. Entretanto, Verônica não é apenas uma mocinha convencional. Ela não chora ou sofre injustamente neste primeiro momento. Ela quer descobrir  o que está acontecendo e qual é o motivo por estar sendo tratada tão mal pelo homem que  anteriormente a havia seduzido. Ela peita o comportamento dele e este talvez seja o melhor momento da história. Quando os dois personagens exalam tanta química nas cenas calorosas de briga carregadas de emoção e mobilidade. Verônica tem uma personalidade forte e marcante, mas ela não é uma deslocada ou uma barraqueira desajeitada, muito pelo contrário. Contudo à medida que tragédias e mais tragédias vão acontecendo na vida da personagem a vemos se tornar cada vez mais fraca emocionalmente. A um passo que depois de um sequestro, duas tentativas de assassinato e um falso diagnóstico de câncer ela está completamente desestabilizada e sem estruturas precisando do apoio emocional de todos à sua volta. Então toda aquela força dá lugar a uma fragilidade e carência justificável. Parece até que ela segue o caminho contrário das mocinhas típicas (primeiro frágil, passa por um mundarel de coisas e então se torna decidida e voraz). É notar então o trabalho para humanizar esses personagens. Ninguém depois de passar por uma penca de acontecimentos trágicos se torna alguém pleno ou constante. Talvez a personagem que mais tenha me deixado surpreso tenha sido Tia Sara. Depois de recriminar o comportamento mais pra frentex e livre de Verônica, quando descobre que foi  dura demais com a mesma para privilegiar Virgínia, entra num sentimento de tristeza profundo. Ela se sente mal e culpada por tudo de errado que se deu e obviamente envergonhada por ter desprezado tanto a sobrinha, sempre julgando-a. Desde o início nós sabemos que Sara não é uma vilã, ela não se motiva assim, mas sua hipócrita e conduta moralista é antagônica à personalidade de Verônica; e grande parte dos acontecimentos se dão por consequência disso, e ela sabe disso quando descobre que foi manipulada. O conflito não dura apenas alguns capítulos, podemos perceber que Sara está completamente arrependida e por mais que peça desculpas e seja então desculpada essa sensação não passa, ela precisa se desculpar constantemente pois sente o peso da culpa. Mas esta culpa não a impede de sentir mal e também compadecida quando Virgínia fica tetraplégica. Apesar de ter seus motivos para desejar que ela desapareça ela ainda tem a sua humanidade. É tudo muito conflituoso nesse sentimento. Não é como se ela esquecesse disso alguns capítulos depois. Percebe-se que essa é uma outra tentativa de deixar a história mais realista.

a mentira tem perna curta

Mas esta não; acredita? É impressionante o legado que A Mentira deixou, não só apenas pela sua trama que rendeu diversos remakes, mas também na sua criatividade visual. As novelas para o horário das 17h geralmente recebiam orçamentos menores, por isso contavam com uma produção mais reduzida. No entanto, Sotomayor não se declarou vencido. Sabendo que não teria cenários tão surpreendentes ele decidiu trabalhar com a sua câmera e entra aqui uma das telenovelas mexicanas que mais trabalhou com a fotografia e seus recursos, explorando muitas alternativas possíveis que deram uma característica própria à obra. 

Sotomayor utiliza muito do zoom pra decorar a fotografia. Podemos vê-lo usar aquele zoom de close, muito característico no cinema nos anos 70. Outro recurso foi o dolly zoom (famoso efeito vertigo) usado por um par de vezes em diversas situações. Teve uma hora que parecia que a cama de Verônica estava sendo puxada, deu uma vertigem (haha). Entre estas técnicas de filmagem, as que mais chamam atenção com certeza são as de perspectiva. Algumas vezes a câmera toma o olhar de algum personagem, às vezes ela se movimenta com ele dando uma sensação atmosférica, como se nós estivéssemos lá ou mesmo quando ela está filmando de baixo para cima ou de cima para baixo, por entre portas ou curvas. Hora ou outra a câmera caminha em volta dos personagens circulando-os, faz planos de corte único. Recursos de composição de imagem também são usados. Percebemos influências dos filmes noir, com persianas refletindo nos personagens, imagens contra luz e silhuetas e muita sombra em determinados momentos.

Quando se trata de telenovelas (e eu falo das latinas num geral) ousar na fotografia parece algo arriscado e que pode afastar o público, mas se feito de maneira correta trás o dinamismo necessário. Nas tramas brasileiras atuais temos visto muitos esforços pra tentar trazer algo diferente (seja uma câmera que acompanha os movimentos dos personagens em Avenida Brasil, sejam os ângulos rebuscados de Verdades Secretas ou na poesia dos cenários encantadores de Velho Chico e Meu Pedacinho de Chão), tornou-se quase um pouco comum para as tramas televisivas por aqui apostarem em recursos que geralmente são usados no cinema, mas ainda hoje, no restante da América Latina, encontramos uma certa resistência e mesmo que eles já tenham algumas tramas mais ousadas, como as narconovelas, a câmera ainda é contida, estática e preguiçosa e quando tenta algo diferente se vale de closes ou relances dos blockbusters hollywodianos. É realmente interessante que A Mentira tenha se amparado à fotografia para disfarçar seu baixo orçamento, mas isso acabou criando uma corajosa ambição que a fez sair à frente de suas irmãs de época. 

A verdade saindo nua do poço

Apesar de muito interessante o enredo teve uma barriga a partir da segunda metade, que dura do capítulo 60 ao 85. São quase 20 capítulos tentando se sustentar nas tramas paralelas que embora tenham sua importância, como o plot de  Karla e Pêpe com as drogas e seu final trágico, mas isso não é o suficiente. Carlos Sotomayor aproveitou a audiência pra esticar a trama até o capítulo 100, mas não teve criatividade suficiente pra movimentar a trama principal, que na verdade é o ponto alto dessa novela. Durante este período nada de realmente relevante acontece com Verônica e Demétrio, com algum esforço uma personagem aleatória surge na trama pra tentar atrapalhar o romance, mas ela simplesmente consegue fazer o plot entrar num marasmo ainda maior e ficou claro que este era apenas um recurso de esticamento. Além disso, desta barriga em diante, a trama ganha um ar mais folhetinesco e menos ousado, na questão fotográfica talvez pra segurar o público, que estava totalmente vidrado a esta altura  do campeonato. De bom é que nessa fase quem realmente movimenta a trama com todo fôlego é Virgínia, que com suas tramas e pilantragens consegue colocar algum tempero nesta barriga. Apesar disso, nos capítulos posteriores o folego é recuperado, mas Virgínia continua sendo o destaque. E isso é curioso, pois se na primeira metade a vilania de Demétrio é quem toma rumo deixando-a como uma coadjuvante; na segunda metade, porém, ela recupera seu lugar e se torna uma vilã digna para trama que explora com vontade o cinismo e ingenuidade que e  personagem consegue transmitir, graças à interpretação louvavel de Karla Álvarez.


meia verdade é sempre uma mentira inteira...

Longe de ser uma das favoritas do público, embora o casal protagônico figure muitas listas dos top 10 melhores casais de novelas, a Mentira se consolidou como uma verdade. Seu sucesso não está pautado apenas nos seus altos índices de audiência (com 28,7 quando a média era 17 pontos; um fenômeno popular), mas também se valida através do seu legado. Sua coragem em apresentar protagonistas com motivações dúbias (seja o complexado anti-herói Demétrio ou a nada convencional mocinha Verônica), em apostar numa fotografia corajosa e sua despretensão para o óbvio ajudam a firmar seu nome no hall da fama das grandes novelas clássicas mexicanas e talvez uma das mais vanguardistas no contexto que lhe cabe. Dizem que a mentira corre mais rápido que a verdade e eu devo concordar que lá em 1998 A Mentira já estava bem à frente do seu tempo. Diferenciando-se das novelas rosas por total, apresentando conceitos, jeitos e formas que apenas viriam a ser explorados anos mais tardes nas telenovelas; consolidou-se como um clássico memorável, relevante e influente. Seus seis prêmios  no TV Novelas (maior premiação de telenovelas no México) e sua indicação ao Emmy Latino comprovam isso. Lançada em 1998 segue influenciando de maneira absurda o meio novelístico e talvez por isso eu deva dizer que pelo menos esta mentira tem perna longa.

Arte

ozu e a sensibilidade da rotina

17:56

 

Ah, o cinema "ozuniano" !

Com toda certeza, Ozu foi um dos diretores de cinema mais influentes da história, falo isso com tranquilidade. Não precisamos ir muito longe pra perceber isso, ora pois, a aconchegante contemplação do vazio nas animações do Studio Ghibli ou a delicadeza cotidiana das novelas Manoel Carlos, do oriente ao ocidente encontrar fascínio nas cenas do dia a dia se tornou uma realidade, mas ninguém conseguiu transmitir isso com tanta leveza e poesia quanto ele, o mestre do cinema contemplativo, Ozu.

Pai e Filha, Também Fomos Felizes, Era uma vez em Tokyo, Flor de Equinócio, O Fim Do Outono... Nossa, são tantos títulos impressionantes que eu poderia fazer um post apenas listando todas as suas obras primas, mas hoje eu vim falar de uma delas em específico: o longa de 1962, A Rotina Tem Seu Encanto.

Este foi o último trabalho do diretor que veio a falecer apenas um ano depois em decorrência de um câncer. O filme tornou-se um belíssimo retrato da velhice, da solidão e da função da família. Às vezes é preciso viver toda uma vida pra encontrar alguma beleza na cansativa habituação dos costumes cotidianos e foi isso que Ozu nos trouxe em seu último suspiro de vida. Embora seus filmes já tivessem um sensível olhar sobre o cotidiano, nenhum deles deixou tão claro como era tão exaustivo, mas também tão belo estarmos vivos. É uma perspectiva até otimista demais pra tempos como este, mas uma vez que você conseguir ver por esta lente talvez tudo tenha um novo sentido.

se acostumar a uma nova rotina é bem difícil

Como de costume nas obras de Ozu, temos um casamento arranjado como pano de fundo pra trama - todavia bem diferente das suas tramas anteriores não tem no casamento. Não é o seu foco, mas sim, apenas, seu catalisador. É a partir do momento em que Shūhei Hirayama (Chishū Ryū), pai já de certa idade, percebe que Michiko (Shima Iwashita), sua filha de 24 anos, talvez esteja sacrificando seu futuro para cuidar dele, que o protagonista começa a não só perceber que precisa “soltá-la” para o mundo, como também o quanto ele já está idoso. O sentimento é, lógico, conflitante. Sem a filha, Hirayama perde sua companhia, apesar de ter ainda outro filho vivendo sobre seu teto, além de um casado. 

Na cultura patriarcal japonesa dos anos 60, a mulher é essencialmente do lar, já que vive sua vida primeiro para seus pais e, depois, para seu marido, mas esse não é o ponto que Ozu deseja discutir. Como disse, o casamento ou melhor, a possibilidade de casamento, é, apenas, o mecanismo utilizado para sacudir o status quo e permitir a contemplação da finitude, da velhice, da solidão e, sim, também da felicidade. No meio disso, Hirayama tem ocasionais reuniões com seus amigos de escola onde eles bebem e seguem um mesmo ritual todas as vezes. Fazendo as mesmas piadas, debatendo os mesmo temas, relembrando as mesmas histórias. Em uma dessas reuniões, porém, Sakuma (Eijirō Tōno), envelhecido e empobrecido professor de literatura deles, aceita o convite para jantar e, durante a cerimônia, Hirayama descobre que ele ainda vive com sua filha Tomoko (Haruko Sugimura) que há muito “passou da idade” para casar, revelando-lhe um possível futuro indesejável para sua própria filha Michiko.

É como se Hirayama acordasse de um torpor. O torpor causado pela comodidade, pela rotina, pelo uso repetido do caminho mais viajado. Sua vida é confortável em casa, com sua filha constantemente dando-lhe atenção, como o preparo do jantar, o aquecimento da água do banho e a lavagem de suas roupas. Mas ele percebe que isso é ele sendo pequeno, mesquinho e não pensando no futuro que está roubado de Michiko. Claro que estamos falando de uma obra de Ozu e isso não vem com realizações expositivas nem com reações exageradas. Muito ao contrário, Chishū Ryū é um caldeirão de emoções que, porém, ele sabe como ninguém esconder, revelando aqui e ali, discretamente, com olhares, com flexão de voz e com o uso de um artifício narrativo importante para Ozu: a bebida. O sake e a cerveja são quase onipresentes na filmografia do diretor, que foi sempre pessoalmente muito afeito ao álcool e, em A Rotina Tem Seu Encanto isso é particularmente relevante já que o protagonista efetiva, mas discretamente, foge para a garrafa de maneira a afogar o que percebe de sua vida. Acontece que, assim como o casamento arranjado não é tema do filme, o alcoolismo também não é. Ele é apresentado como parte da vida, com parte de comemorações, como mais um elemento que compõe o cenário.

Hirayama estava negando começar um novo momento em sua vida. Exaurido de uma nova tentativa de adaptação, ele prendia Michiko junto a ele de alguma forma. É até fácil entender o seu medo. Ele estava completamente agarrado a ideia de conformação. É assim que a rotina se comporta e quando dela tentamos fugir é como se estivéssemos entrando em um novo país onde não conhecemos exatamente nada e isso cobra um longo processo de familiarização. Pode parecer que Hirayama era apenas alguém com medo de pegar um trilho sozinho, mas sempre há uma história por de trás de tudo e Ozu quer justamente que vejamos isso.



a rotina terá seu encanto

Desde a revolução industrial somos inseridos num modelo muito mais cansativo de rotina. Estamos condicionados a nos entregar de uma maneira quase inconsciente a isso, sem nenhum questionamento. Se não o ócio, a rotina.

Em dado momento do filme podemos absorver toda a tristeza de Tomoko. Dada como uma fracassada, ao qual só lhe restou um caminho: cuidar do pai bebum. Tomoko simplesmente não aguenta mais toda aquela mesma coisa de sempre. Esgotada, sentindo-se humilhada e como lhe tivesse restado apenas o mais do mesmo, ela se desaba em um choro tão inconformado que chega doer de assistir. Não podemos fazer nada por ela e nem mesmo ela sente que pode fazer algo por si. Por alguns segundos vemos todo o seu sentimento de injúria ser vulneravelmente exposto. As portas do seu estabelecimento estão abertas e a tv está ligada. Tomoko estava tão aborrecida que não se importou com aquela exposição tão sentimental. Para os costumes de socialização dos japoneses expor-se assim chega a ser vergonhoso e até mesmo constrangedor, mas Tomoko estava tão fadigada de tudo isso que ela se quer se importou. Seu choro é interrompido pelo pai que pede auxílio para banhar-se, mostrando como nem mesmo tempo pros seus complexos ela parece ter. Depois disso, ainda temos uma última conversa entre pai e filha. Ela relembra momentos de alegria saudosos de outrora. Pelo seu olhar eles parecem distantes, mas ainda há uma coisa no seu semblante que nos mostra uma esperança, ainda que mais fria, de dias melhores. No meio das lembranças sorrisos entre os dois e percebemos então que embora extremamente dura, a rotina tem seu encanto. E é verdade que o homem sempre precisou trabalhar e dormir e no dia seguinte se repete o anterior. Mas, no final não é como se estivéssemos vivendo num looping, pois cada dia tem um novo rumo e mesmo que os dias dependam do que se passou para existirem, eles ainda funcionam individualmente. Prova disso é a famosa frase: "amanha será outro dia" e dia após dia coletamos novas lembranças, contamos novas histórias , tiramos novas fotografias, gravamos e assistimos novos filmes, ouvimos novas músicas, lemos novos livros, cultivamos novas flores, absorvemos novas paisagens.

epílogo: também fomos felizes

Viver às vezes parece cansativo; precisamos de escapes. Temos nossos compromissos, nossas obrigações e responsabilidades. É quase um sonho tentar viver em total despreocupação em boemia, sem razão de ser. No final daquele cansativo dia quente, sabendo que temos que fazer o mesmo no dia seguinte esteja ele quente ou não, tomamos um banho descansando as costas e nos entregamos ao sono. Tenho que trabalhar pra comer, comer pra sobreviver e sendo assim sobreviver pra tentar em algum momento apenas viver. Quem tem que pagar aluguel precisa de se preocupar com morar, a mãe tem que se preocupar em garantir a vida da sua cria e as crianças tem de se preocupar com construir um futuro. A rotina cansa, ela não dá tempo. Poucos os momentos em que paramos pra refletir e entender o mundo industrializado que vivemos. Globalizamos, mas a ida a Paris é irreal para 70% das pessoas no nosso país, elas estão ocupadas demais tentando manter-se vivas pelo menos até o dia seguinte. O amanhã é incerto, coisa de futuro. Entretanto, além da morte, se vivos permanecemos, de uma coisa temos certeza, seja cá ou lá, o amanhã será, se não a mesma, uma nova rotina e assim segue a humanidade: presa em seu movimento circular entre o nascente e o poente. 

Nem tudo porém, é desprazer. Todo domingo tinha macarronada na casa da vovó e nas sextas íamos dar um volta pelo lago. A rotina pode até ressignificar estes momentos, dando um ar cotidiano pra eles, mas ele continuam tendo suas significações próprias. É importante não deixar a rotina transformar isso em regra ou obrigação também. Mesmo que eu tenha que acordar todos os dias pra tentar sobreviver, eu ainda sei que durante esse tempo eu terei momentos genuínos de felicidade, afeto e companheirismo e é disso que Ozu está falando em a Rotina Tem Seu Encanto. Seus personagens ou estão acomodados com a rotina, ou saturados demais pra tentar algo novo, mas eles ainda tem seus sinceros momentos de vida e em meio a um mundo que caminho para o desgaste emocional e físico é importante ter a consciência da capacidade de não apenas coexistir. Estamos desengrenados e não temos certeza de onde vamos chegar, mas ainda somos humanos e não máquinas. O sol ainda floresce todas as manhãs e apesar das dores, dos desencontros, das ilusões, dos fracassos, dos momentos de solidão, das dúvidas e do choro, também fomos felizes.

Animações

estúdio ghibli e a contemplação do vazio

15:15

    

   

Eu consigo me lembrar da primeira vez que eu vi um filme do Estúdio Ghibli. Eu tinha uns dez anos e minha mãe havia alugado na locadora mais badalada da cidade "A Viagem de Chihiro". Sinceramente eu não sabia nada sobre aquela animação. Eu nunca havia visto em nenhum trailer, em nenhum cartaz ou Imagem pela internet. Mas quando o filme acabou e tudo que restou foi o silêncio, eu estava completamente maravilhado. Eu nunca havia visto nada parecido. Aqueles cenários cheios de detalhes e aquele traço fino quase que como uma pintura impressionista. Eu não me lembro de ter dado um pio durante todo o filme; estava hipnotizado por aquele universo diferente e aconchegante. Eu sempre fui um amistoso por fantasia. Eu amava história de dragões gigantescos, seres fantásticos lutando e outros místicos produzindo luzes mágicas, mas o que eu estava vendo ali era um tipo diferente de fantasia que eu não sabia simplesmente explicar.

 Os anos passaram e felizmente eu pude ter outros contatos com obras do Hayao Miyazaki (um dos criadores e também diretor do estúdio). E mesmo depois de tantos anos, várias vezes regressando pra esses filmes eu ainda não entedia o que me fazia ter aquela mesma sensação inexplicável quando eles acabavam. Por que aquela sensação? 


movimento gratuito entrando em cena, tomada um...

Roger Ebert, durante uma entrevista com Miyazaki, elogiou um dos aspectos mais fascinantes da sua capacidade enquanto diretor. Ele disse que adorava o "movimento gratuito" do cineasta. Isto é, como às vezes parece que os filmes dele simplesmente dão uma pausa na trama e nos mostram momentos onde não acontece nada de especial. 

Ebert disse:  "Em vez de todo momento ser ditado pela história, às vezes os personagens vão apenas sentar por um momento, ou vão suspirar, ou olhar um córrego, ou fazer algo extra. Não pra avançar a história, mas apenas pra dar uma sensação de tempo, de espaço e de quem eles são" 

É curioso, porque toda vez que eu leio esta fala dele eu me lembro do mesmo trecho de "A Viagem de Chihiro" onde Chihiro e sem rosto fazem uma viagem de trem. Durante todo o percurso nada realmente acontece. A gente os assiste cabisbaixos no vagão enquanto os passageiros vão aos poucos decendo em suas respectivas paradas. Não tem diálogo, não tem ação, apenas os dois observando a paisagem passando borrada pela janela meio embaciada. E isso é tão verdadeiro que quando eu me lembro disso eu me lembro simplesmente dos meus momentos de viagem e é exatamente assim que acontece. Eu fico em silêncio observando a paisagem até talvez cair no sono. 

Como resposta pra Ebert, Miyazaki respondeu: "A gente tem uma palavra pra isso em japonês. É chamada de MA (vazio). Isso está ali intencionalmente"

Então eu finalmente entendi que sensação era aquela que me invadia todas as vezes. 

Ma 

Esse conceito é muito antigo na cultura japonesa e parece estar com eles desde sua formação social. Ma é uma das leituras do ideograma 間, representado pelo sol (日) no meio de um portal (門). De uma forma simples e objetiva, Ma pode ser entendido como intervalo de tempo ou espaço entre dois elementos. Isso nos ajuda a entender o contexto de uma maneira melhorada. 

Ma não é um vazio qualquer. É um vazio que tem seu propósito. Importa e tem significado. Significado que se expressa na ausência de algo. Uma porta aberta é um espaço vazio, um vão. Mas é a partir deste vazio que podemos observar o sol brilhando radiantemente belo lá fora. Logo, Ma é uma ausência que permite que algo se manifeste através dela. 

Os filmes do Studio Ghibli são repletos de ação e movimento, isso não tem como negar, mas a questão é que estas histórias tem um senso de equilíbrio muito grande. Isso significa que nós vamos nos deparar com momentos em que os personagens precisam respirar. Momentos de pura contemplação. Isso me lembra das vezes em que eu ia na casa da minha tia, no campo, e depois de brincar ferozmente com meus primos eu simplesmente sentava de frente à represa e ficava observando a Vitória Régia, ou quando eu vou dar uma volta pelo lago e paro pra observar o poente esmorecido no horizonte, ou mesmo quando eu olho pra cima e percebo os detalhes da copa de uma árvore, a luz entrando por entre os galhos redimida e o vento fazendo as folhas dançarem suavemente.


é importante valorizar as pausas...

Todas às vezes que meus primos e eu nos desentendíamos eu preferia simplesmente caminhar por aí pela estada vendo a plantação de girassóis ou talvez subir em cima de uma árvore de Manga do que fingir que nada disso tinha acontecido. Eu simplesmente ficava observando a vista sumindo lá na frente. Eu conseguia pensar no porquê do desentendimento e depois essa reflexão se misturava com a observação que por sua vez se perdia compenetrada no vazio e então eu me esquecia de tudo e mais tarde nós estávamos juntos novamente. 

É importante ter um tempo pra parar. Tempo de respirar. É necessário absorver e o mais importante: prestar atenção nos simples detalhes da vida. Isso parece coisa de vovó, mas pra quem não tem pressa pra viver ver a flores e a grama sendo levada pelo vento é uma dádiva. Sentar por aí e observar o mundo entendendo-se como ser vivente deste lugar. 

medo do silêncio...

Ainda na mesma entrevista Miyazaki diz: "As pessoas que fazem filmes têm medo do silêncio. [...] Elas ficam preocupadas que o público vai se entediar. Que eles vão se levantar e ir comprar pipoca. Mas só porque o filme é 80% intenso o tempo todo, isso não significa que as crianças vão te abençoar com a concentração delas. O que realmente importa são as emoções subjacentes - você não deve abandoná-las." 

É através destes momentos de vazio que os mundos criados por Miyazaki se manifestam com mais intensidade tal como a luz do sol que passa pelo vão da porta. A intensidade aqui está nas visceralidade da ação, mas também está na delicadeza do tempo. O silêncio pode parecer incomodar e muitas pessoas fogem da reflexão que ele está disposto a nos proporcionar, todavia, o silêncio é agradável e acolhedor. Ele traz alento e nos envolve em seus braços ternos, quase que nos dizendo: você pode pensar agora. E então nos sentimos confortáveis o suficiente pra aproveitar a nossa própria companhia. Estar sozinho não é ser sozinho. O humano precisa destes momentos de intimidade pra se encontrar e refletir seus caminhos. Acontece é que tem muita gente que tem medo disso. Tem medo de ser perder no caminho e se entediar. Mas esse medo não existe nas obras do Miyazaki.

"a reminiscência de som que antecede o silêncio”. 

Esta foi a maior das razões pela qual eu me tornei tão fascinado pelo cinema do Estúdio Ghibli. Por muito tempo eu não sabia entender, mas eu estava num sentimento intenso de imersão. Não somente pelos gráficos cheios de aconchego ou pelos elementos fantásticos do filme, mas também porque o Miyazaki permitiu que o mundo criado por ele se construísse na minha frente como um ritmo e com um propósito. Foi possível viver as aventuras de Chihiro, mas eu também contemplei o mundo ao redor. Ela parou e eu parei com ela. Todas às vezes foi a mesma coisa, o castelo animado caminhando lentamente pelas montanhas; o Porco Rosso voando no avião por entre as nuvens entardecidas; O Totoro e a Satsuke esperando um ônibus na chuva. 

o observador está observando...

Com sua animação sutil Miyazaki foi capaz de observar através das janelas os movimentos delicados e discretos dos estados humanos. É na sutileza, nos detalhes e na minúcia que ele se diferencia de que existe na animação japonesa. Se você parar pra pensar vai perceber quê os animes comunicam emoções através dos exageros e da exuberância visual. 

Hayao parece não gostar da falta de tato que a animação japonesa tomou nos últimos anos. 

Ele disse: "Quase toda a animação japonesa é produzida sem nenhuma observação de pessoas reais. É uma arte produzida por humanos que não gostam de olhar para outros humanos. E é por isso que esta indústria está cheia de otakus."

Miyazaki é fã do piloto e escritor francês Saint-Exupéry, que escreveu livros como O Pequeno Príncipe e Vento, Areia e Estrelas, este sendo um dos livros preferidos dele. No final dos anos 90 o diretor fez uma longa viagem - toda documentada - pela Europa e o Norte da África. Neste percurso ele visitou diversos lugares que eram familiares ao Exupéry. Ele não fez essa viagem só porque estava interessado na história do seu ídolo. Ele não se contentava em apenas ver o que Exupéry viu, ele queria ver como Exupéry viu. Por isso ele achou importante subir em um avião antigo e observar as coisas lá de cima. Tendo a mesma perspectiva. 

Pra ela a observação é um exercício que precede a criação. Por que é a observação da humanidade que garante que a arte mantenha algum vínculo com a realidade. É possível ver isso nos universos do Miyazaki. Eles são cheios de imaginação e fantasia, visuais impressionantes e mágicos, mas eles também estão cheios de humanidade. E foi nesta contemplação que ele se propôs a ter durante a viagem que nasceu Vidas ao Vento. 

Miyazaki é então um observador nato. Ele considera importante olhar as coisas ao redor. Esse método criativo explica a diferença entre o seu trabalho e o trabalho do outro pessoal que está na indústria. Essa sutileza está na maneira dos personagens, no texto e no argumento. 

Se ele não fosse tão observador, talvez ele não teria conseguindo entender a importância que o vazio tem e como nós precisamos senti-lo. 

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