Venus Urânia e Venus Pandêmia: duas formas diferentes de amar

15:49

 

Recentemente tenho pensado, muito mais do que eu gostaria, sobre o amor e nestas reparei que eu não sei definir esse sentimento, e nem sei se é possível fazê-lo. Parece existir um momento na vida em que nos sentimos estranhos sobre isso. Quais ferramentas temos usado pra demonstrar que amamos alguém? Há um tempo atrás se alguém me perguntasse sobre o isso eu provavelmente não saberia dizer nada, talvez eu ainda não saiba, mas mesmo assim quero refletir sobre. 

Nessas "fugas amáveis", me peguei tentando imaginar todas as maneiras de amar e na minha própria maneira de demonstrar amor. Eu amo meus pais e meus amigos, mas também amo meus pets e a até mesmo algumas roupas, o que é estranho, só que cada uma dessas coisas eu tenho amado de uma maneira diferente. Pude perceber que eu realmente não sei como as pessoas que eu amo têm sentido o meu amor por elas. Talvez ele seja sufocante demais, preocupada demais ou até mesmo crítico demais. Contudo, no meio disso, depois de fritar um grande número de neurônios e notei que eu tenho amado, coisas e pessoas, de duas maneiras diferentes. Uma tende ser mais colérica e efervescente e a outra mais sublime e intensa. Então pra mim esse sentimento tem se comportado de duas maneiras diferentes e quase opostas.

Curioso a respeito disto, comecei a ler algumas coisas, e pode parecer meio entediante ficar lendo por aí sobre como o amor têm manifestado nas relações humanas, mas eu realmente estava interessado e senti que gostaria de falar sobre um conceito que eu achei e que parece ter tudo a ver com as formas que eu tenho percebido o amor na minha jornada: o conceito da Afrodite Pandemia e da Afrodite Urania. 

Em algum momento no final do século V a.C, passou, através da leitura de filósofos da época, a separação de Afrodite em duas deusas, distintas, mas correlacionadas. Essa leitura provavelmente foi feita a partir da análise das maneiras bem diferentes de como aquela sociedade estava enxergando a deusa do amor. Estes aspectos opostos representados por uma mesma deusa, seriam definidos mais tarde na obra "O Banquete" de Platão, que busca estabelecer uma distinção moral e filosófica entre Afrodite Uranus e Afrodite Pandemos.

"o nascimento de venus" por Botticelle 

Um breve prelúdio sobre Afrodite

Afrodite, para os gregos, Vênus, para os romanos, é a personificação da beleza e do amor, consequentemente da sexualidade. Muito adorada pela cultura pop, especialmente dentro da comunidade LGBTQIA+, sua representação hoje agrega muitos outros significados e sua imagem pode estar relacionada à outros aspectos além dos já citados.

De acordo com a mitologia grega, na verdade de acordo com a narração de Hesíodo sobre a mitologia grega, Afrodite teria nascido perto de Pafos, nas proximidades de Chipre (o que justificaria a deusa ser chamada de Cípre, sobretudo quando se fala das obras poéticas de Safo), a partir de uma castração. Cronos, teria cortado os órgãos genitais de seu pai, Urano e o arremessado para dentro do mar. A espuma que sobressaiu a superfície marinha, que pode ser interpretada como esperma, teria fecundado Tálassa, a personificação do mar, a partir disto teriam surgido Afrodite, as Melídeas e Erínias. 

O principal culto a divindade era realizado em Pafos, onde haviam sido cultuadas desde a idade do ferro, as deusa Isthar e Astarte, porém em toda a região de Chipre haviam focos de adoração à Afrodite, sendo que na Turquia havia existência de Afridisias, cidade a ela dedicada. O culto de Afrodite foi provavelmente baseado no culto de Astarte na Fenícia, que era venerada em todo o Oriente Médio como soberana do mundo. Entretanto, como o sincretismo religioso era muito forte naquela época, não se sabe com exatidão qual a origem das deusas.

O Nascimento de Venus, por Hirémy Hirschl

Um baquete, Platão e mais reflexões sobre o amor...

Ainda em sua obra, O Banquete, Platão apresenta um diálogo, demasiado importante, sobre diferentes perspectivas a respeito do amor, a partir dos personagens: Fedro, Pausânias, o médico Erixímaco, o comediógrafo Aristófanes, o próprio anfitrião desse symposium, o poeta Agatão e Sócrates. 

Para Fedro, o amor é dos deuses, o mais antigo, que sequer possui genitores e que é, para nós, a causa dos maiores bens, pois sem ele, não há com se produzir grandes e belas obras. O Amor deve dirigir a vida de todos os homens que quiserem vivê-la nobremente; é também responsável por algo que nem a riqueza, nem as honras nem a estirpe pode incutir tão bem: “A vergonha do que é feio e apreço ao que é belo."

Fedro, na verdade, está se referindo ao que os antigos gregos denominavam aidos (pudor, vergonha e respeito)que faz com que aquele que ama tema ser surpreendido numa atitude aviltante, sentindo-se constrangido diante do amado: 

“todo homem que ama, se fosse descoberto a fazer um ato vergonhoso, ou a sofrê-lo de outrem sem se defender por covardia, visto pelo pai não se envergonharia tanto, nem pelos amigos nem por ninguém mais, como se fosse visto pelo bem amado”. (O Banquete, Platão, p. 18)

Portanto, para Fedro, o Amor, ao tornar-nos seres corajosos, é fonte de heroísmo e inspiração irrebatível da moral. Afortunados são os que amam e são correspondidos. E amar, é ainda mais divino que ser amado.

Boucher, o triunfo de vênus

Mais realista, “não é um só”, objeta Pausânias que, cingindo a unidade do Amor, subdivide-o e (não os excluindo) hierarquiza-os imediatamente: Afrodite não é só uma, há a mais velha, Urânia (Celestial) e a Pandêmia (pan = todos e demos = povos). Nesta última, amam mais o corpo que a alma. Afrodite Pandêmia (a Popular, vulgar) inexoravelmente é vencida pelo tempo (Chronos):

“Com efeito, ao mesmo tempo em que cessa o viço do corpo, que era o que ele amava “alça ele o seu vôo” (citando Homero), sem respeito a muitas palavras e promessas feitas. Ao contrário, o amante do caráter, que é bom, é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que é constante”. (O Banquete, Platão, p. 18)

Erixímaco aprova a distinção de Pausânias sobre a duplicidade do Amor e, universalista, o amplia a todo cosmo: “grande e admirável, e a tudo se estende ele, tanto na ordem das coisas humanas como entre as divinas”. Como é um médico, faz uma analogia com sua arte, dizendo que a medicina suscita Amor e concórdia, promove harmonia, combinando opostos (o sadio e o mórbido) que se estende por todo universo: “deve-se conservar um e outro amor (...). De fato, até a constituição das estações do ano está repleta desses dois amores, e quando se tomam de um moderado amor um pelo outro os contrários, o quente e o frio, o seco e o úmido, e adquirem uma harmonia e uma mistura razoável, chegam trazendo bonança e saúde aos homens, aos outros animais e às plantas, e nenhuma ofensa fazem; quando porém é o Amor casado com a violência que se torna mais forte nas estações do ano, muitos estragos ele faz, e ofensas. Tanto as pestes, com efeito, costumam resultar de tais causas, como também muitas e várias doenças nos animais como nas plantas; geadas, granizos e inflamações resultam, com efeito, do excesso e da intemperança mútua de tais manifestações do Amor (...)”. 

Eis os riscos de desequilíbrio na natureza humana (e em todo universo), pois, em Erixímaco, o Amor, um pathós (afecção da Alma) pode tornar-se doentio e daí, uma patologia (no sentido moderno).

Vênus e dois Erotes, por Boucher

Aristófanes insistirá no poder que o Amor possui e versará sobre sua natureza histórica. Com o seu famoso mito dos andróginos, legitimará a homoafetividade e a desenfreada busca pelo que denominamos “almas gêmeas”.

Eis que os seres humanos, inicialmente eram de três tipos: homem, mulher e andróginos. E eram também duplicados e unidos pelo umbigo (a narrativa desse belo mito está disponível em meu blog, vide "Conhecimento Sem Fronteiras", nesse site). Zeus, temendo a presunção de tanta auto-suficiência, para enfraquecê-los, divide-os em dois e cada uma das partes passará a vida à procura de sua outra metade original, que pode ser um outro homem, caso o original tenha sido a união de dois homens, uma mulher, em busca de outra ou um homem e uma mulher que se anseiam, caso dos andróginos.

Para Aristófanes, o Amor é justamente essa busca constante e incansável por sua outra metade a fim de se restabelecer o original e primitivo “todo”. Não se trata somente de união sexual, mas de “uma coisa” que a alma de um quer da alma do outro. Sobre essa “coisa” a alma não pode dizer, mas “advinha” o que quer e indica por enigmas.

Se o ferreiro divino Hefestos surgisse com seus instrumentos indagando aos amantes: “Que é que quereis, ó homens, ter um do outro? 

(...) Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? Pois se é isso que desejais, fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos torneis um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso o vosso amor, e se vos contentais se conseguirdes isso”.

Aristófanes diz que depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só.

Reiterando que nossa natureza é una, que éramos um só, Aristófanes conclui que é ao desejo e procura do todo que se dá o nome de Amor.

Agatão, retomando a idéia dos benefícios do Amor expostos no início por Fedro, dirá que esses benefícios são decorrentes de sua própria natureza. Atribui ao Amor todas as perfeições imagináveis: ele é o mais feliz dos deuses porque é o mais belo; e mais belo porque mais jovem! Além de ser também o melhor (por ser o mais justo), temperante, corajoso e sábio.

Quanto a ser o mais jovem, diz que a prova disso é que foge da velhice. E sobre por onde anda o amor, Agatão diz que “(...) Nos costumes, nas almas de deuses e de homens ele fez sua morada, e ainda, não indistintamente em todas as almas, mas na que encontre com um costume rude ele se afasta, e na que o tenha delicado ele habita”. Em resumo, bom, belo, jovem e feliz, eis o Amor para o poeta Agatão.

Sócrates inicia seu discurso elogiando o fato de Agatão ter principiado por mostrar qual é a natureza e quais são as obras do Amor. À seguir, pergunta: “é de tal natureza o Amor que é Amor de algo ou de nada”? Agatão confirma que o Amor é Amor de algo. De qual “algo” será o Amor? Prossigamos então com mais indagações de Sócrates: “Será que o Amor, aquilo de que é amor, ele o deseja ou não”? Diante da confirmação de Agatão, dialeticamente, Sócrates se aprofunda ainda mais na questão: “E é quando tem isso mesmo que deseja e ama que ele então deseja e ama, ou quando não tem?”

Conclui-se então que o que deseja (o Amor), deseja aquilo que não possui, aquilo de que é carente.

Venus e Eros, por Boucher

Depois do banquete, uma suposta definição do amor por Diotima, o outro:

Retomando o que fora dito por Agatão sobre quão Belo é o Amor, Sócrates o deixa sem saída: “Não está então admitindo que aquilo de que é carente e que não tem é o que ele ama?” (...) “Carece então de beleza o Amor, e não a tem?” (...) “E então? O que carece de beleza e de modo algum a possui, porventura dizes tu que é belo?”.

Agatão confessa então que nada sabe do que havia dito. Sócrates, agora associa o belo ao bom e conclui que o amor é carente de ambos. Chama a atenção para o discurso sobre o Amor que ouvira de uma mulher da cidade de Mantinéia, a sacerdotisa Diotima, entendida nesse e em muitos outros assuntos.

Passa então a relatar que, ao ser inquirido por Diotima, fora obrigado a concluir que o que não é belo, tampouco é forçoso que seja feio. Outro exemplo é de que um indivíduo, não sendo sábio, também não é necessário que seja ignorante. Diotima teria dito a Sócrates: “Não fiques, portanto, forçando o que não é belo a ser feio, nem o que não é bom a ser mau. Assim também o Amor, porque tu mesmo admites que não é bom nem belo, nem por isso vás imaginar que ele deve ser feio e mau, mas sim algo que está, dizia ela, entre esses dois extremos”.

Diotima passa então a provar para Sócrates que o Amor nem um deus é, pois todos os deuses, perfeitos, são felizes e belos, já possuem o que é belo e bom.

A sacerdotisa da Mantinéia dirá então que o Amor é um “gênio intermediário” (os gregos denominavam “daimon”, cuja tradição medieval simbolizou por “angelus”, anjos), algo que está entre “um deus e um mortal”.

E detém o poder, diz ela, “de interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses, de uns as súplicas e os sacrifícios, e de outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. (...) Um deus com um homem não se mistura, mas é através desse ser [Amor, que é um daimon] que se faz todo o convívio e diálogo dos deuses com os homens, tanto quando despertos como quando dormindo”.

Vênus de Urbino, por Ticiano 

Ao ser indagada por Sócrates sobre a origem do Amor, Diotima relata-nos o belíssimo mito de que quando Afrodite nasceu, houve uma grande festa no Olimpo e que, entre os demais, se encontrava Recurso (Póros), possuidor de toda riqueza. Esse rico rapaz era filho da deusa Métis (a sabedoria, inteligência prática, prudência): “Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza [Penia, uma jovem mendiga], e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado, penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando (...) engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor.

O Amor, filho de um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sábia, e pobre, nasce sob o signo da beleza: 

“Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela”. (...) “Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista (...) está no meio da sabedoria e da ignorância. (...) Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio – pois já é –, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar (...). Não deseja, portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso”.


Cabanel, retrata "O Nascimento de Vênus"

um amor urânio, uma deusa maternal 

Neste epíteto, que é simbolizado por uma tartaruga e parte de uma visão mais conservadora a respeito do amor, Afrodite toma um caráter celeste, espiritual, sublime, esplêndido e divino. Essa Afrodite é muito mais fraternal, acolhedora. É como se ela envolvesse seus adoradores num abraço materno e caloroso. É um amor espirituoso, parte da alma e por isso é mais belo e admirável. Neste papel, Afrodite é genuinamente cheia de amor, devota, quase casta, virginal e sua essência é totalmente solidária. 

Seu culto, era normalmente durante a primavera, consistindo em danças e rodas que eram realizados pelas famílias, em individual. Não era utilizado o vinho, mas as casas ficavam enfeitadas de flores e outros ornamentos. 

um amor pandêmico, uma deusa vulgar

Neste outro, que é simbolizado por uma mulher e seu bode e parte de uma perspectiva mais liberal a respeito do amor, Afrodite deleita-se nua inspirando os amores tidos como comuns, vulgares e carnais. Essa é uma Afrodite mais dada, explícita e receptiva que a outra, como se fosse-lhe o total contrário. Um amor mundano, essencialmente motivado pelo sexo e transbordando hormônios.

Os cultos a esta versão mais "safada" da divindade eram realizados principalmente na cidade de Corinto, especialmente por cortesãs e fanfarrões, e geralmente envolviam rituais sexuais, orgias e bebidas.

Duas maneiras de expressar um mesmo sentimento, contudo, percebe-se uma coisa negativa na Afrodite Pandêmia. Votando ao pensamento Pausiânas, revela-se duas formas de Amor: Afrodite Urânia, associada ao eterno, imortal e Afrodite Pandêmia ao transitório, mortal. Os dois amores são necessários, embora sucumbir dando ênfase à Pandêmia desvirtue a pólis. É quase como se fosse errado e reprovável sentir a pandemia de Afrodite fervendo nas nossas veias. Como se fosse um amor errado, que não valia a pena, que não edifica e nem consagra. Percebe-se isto, quando também percebe-se que havia uma necessidade de se especificar qual Afrodite você era devoto. Nas casas era comum ter-se imagens da deusa, com inscrições aludindo ao seu caráter - como numa delas narrada por Teócrito, que dizia: "Esta Vênus não é a Vênus popular, é a Vênus urânia.

Eu tenho vivido constantemente em minha vida essas duas vertentes. Eu amo sublimemente a minha mãe e amo carnalmente estar com meus parceiros. Li em algum livro clichê de romance, que agora não me lembro mais o título, durante a férias de 2016, que muitas vezes um amor de verão pode ser mais grandioso e formidável do que um amor que dura por toda vida. Ambos tem seus significados e isso não quer dizer que um é menor, ou menos importante que o outro.

recorte de "Alegoria do Amor", de Bronzino

o amor tem que ser sempre assim tão sublime? 

E para prová-lo, precisa-se tomar uma atitude de magnânima máxima? Com toda certeza, o cristianismo tem muito peso na forma como tendemos a enxergar o amor: grandioso e incomparável. Ora pois, tem maior prova de amor do que oferecer seu próprio filho em prol de toda a humanidade? Isto é, uma só pessoa sendo jugada pelos erros de cada hominídeo que já pisou na face da terra? Seria isso amor, mesmo?  

Percebo a partir disto, e por causa disto, duas coisas:

  1. que o amor é sempre cabível de provação. É necessário então estar a cada segundo provando o que sentimos, pra que se saibam todos que sentimos. O amor tem que ser sempre misericordioso e passivo? Como exemplo, tomemos a passagem de 1 Coríntios 13:

  1. (...) O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
    Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
    Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
    Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
    O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
    Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
    Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
    Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
    Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
    Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

  2. que há uma dificuldade de categorizar como amor as sensações carnais que esse sentimento pode trazer. 

Porque os outros amores soam menos importantes ou menos dignos de poemas? Se eu estive ali com a mesma intensidade e amei ali estar, porque desconsiderar esse sentimento mediante a sensação? Só porque ela é passageira? Então o amor tem que ser sempre assim tão inalcançável? Precisa ser tão radiante como o sol? Essa inalcançabilidade me faz questionar se eu realmente amo alguém. Amar é só aquele que cuida e se importa? É como se o amor fosse algo tão divino que não pudesse se contaminar com a essência naturalmente devassa e  pecaminosa do ser humano. Me coloco a imaginar se somente os deuses são capazes de amar, pois somente eles são tão sublimes. Contudo, Afrodite também era uma deusa e era capaz de amar e sentir amor dos dois jeitos. Ela era capaz de doar a um romance passageiro, uma paixão intensa de fim de estação, uma "foda" qualquer, todavia também era capaz de  se dedicar a um amor maternal, a uma amizade verdadeira. 

Claro que são pesos diferentes e eu nem sei mas o que falar, eu nem sei se tenho mais o que falar, mas essa é complexidade do amor. Ás vezes tão difícil de explicar, não sei exatamente quando estou sentindo, só percebo depois... 

Afinal, o que é amar? 

Será o Amor, por si só, um grande deus? Indômita potência? Inspirador de virtudes? A divindade mais antiga? Eterno? Universal, pois presente em todo cosmos? A busca pela unidade? Belo e jovem? Um tipo de delírio? Filósofo por excelência? Concepção de nossa alma? Um daimon (anjo) entre o divino e o humano? Afortunada benção que garante felicidade (eudaimonia)? O que é, na verdade, o Amor? Entusiasmados somos do Belo e do platônico? Vivenciamo-nos como a assinatura do theos (divino) em todos nós o verdadeiro significado do amor?

Mesmo em seu banquete, Platão e seus convidados parecem ter encontrado dificuldades para definir, com exatidão, o que é o amor. Duas maneiras de ver uma mesma deusa, duas maneiras de expressar um mesmo sentimento. Talvez o amor seja algo individual e cada qual ama da maneira que aprendeu a amar, ou talvez ainda não estejamos preparados pra conceber um significado para o amor. Talvez também não estejamos prontos pra aceitar o outro lado do amor, aquele considerado vulgar, aquele que não é considerado amor...

Um último talvez, ou talvez não, seja por isso o amor seja tão discutido, e por isso ele seja definido como algo tão sublime que não pode de maneira alguma ser banalizado. Talvez existam formas diferentes de sentir e expressar o amor, mas também existem formas diferentes de sublimação. 


Eu não costumo fazer postagens assim tão reflexivas, ou tão estranhas, talvez essa não tenha chegado a lugar algum, mas é algo que eu gostaria de falar sobre e sendo assim, falei. 



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